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    Fazenda Colubandê

    Fazenda Colubandê
    Brasil
    XVII

    Enquadramento Histórico e Paisagístico

    Localizada no município de São Gonçalo, o municipio foi palco de disputa por território até que estas foram tomadas por donatários sujeitos ao aforamento e os povos nativos perdessem suas terras e ficassem sujeitos á escravidão. Por meio da concessão de sesmarias, São Gonçalo foi fundado em 1679 dando origem a quatro freguesias ao redor da Baía de Guanabara: São Gonçalo de Guaxindiba, Santo Antônio de Sá, Campo de Irajá e São João Batista. No século XVII, Catarina Siqueira estabeleceu o Engenho de Mont'Serrat, que mais tarde se tornou conhecido como Engenho Colubandê. Durante o processo de construção do engenho, a propriedade foi adquirida por Ramirez Duarte Leão. Até o século XIX era considerada a maior fazenda de São Gonçalo e a maior produtora de cana de açúcar.

    A casa da fazenda de Colubandê, está implantada sobre uma pequena elevação do terreno, tem situação privilegiada e forma conjunto com a capela que lhe fica pela direita, isoladamente. O conjunto recebeu tombamento em 1940 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e pelo INEPAC em 1965.

     

    Morfologia e Composição

    O conjunto da fazenda é composto por uma capela e uma casa sede pertencentes aos séculos XVII e XVIII, respectivamente. As duas edificações estão separadas por um largo pátio aberto e murado. A casa sede está elevada do solo sobre porão habitável e organizada em torno de um pátio central sustentado por alpendres e que abriga um poço. A parte frontal da casa apresenta uma varanda que se estende pela frente e pelos lados, com bancos e elementos decorativos intercalados entre as colunas. O embasamento é marcado, na fachada principal, pelo contraste entre os pavimentos. O telhado é notavelmente amplo, com detalhes elaborados nas molduras e bordas bem proporcionadas, além de uma escada externa localizada à direita.

     

    Fachada Principal

    A fachada principal, na altura da senzala, é caracterizada pela presença de três janelas e dois óculos, destinados a iluminar o depósito. Já no pavimento superior, o alpendre em formato de "U", que se estende ao longo de toda a fachada principal e parte das laterais, é sustentado por 17 pilares de ordem toscana. Esses pilares apresentam fuste liso, base circular e algumas variações formais, como diferentes tamanhos do ábaco. No plano recuado do alpendre, encontram-se cinco aberturas de vãos de portas.

     

    Fachadas Secundárias

    As fachadas laterais possuem menos requinte do que a fachada principal. A prevalência de superfícies cheias contrasta com os vãos das portas e janelas do pavimento superior e parte do fechamento do porão. Destaca-se a horizontalidade e simplicidade das fachadas laterais e posterior. A presença da escada externa é um elemento de grande importância na sua composição formal. É construída em alvenaria robusta, com a presença de espessos guarda-corpos em dois lances, vencendo a altura do porão e dá acesso à varanda. 

     

    Programa Interior

    No geral, seu programa interior possui á direita a área de serviços contando com a cozinha, a copa, o quarto de empregados e dois dormitórios. À esquerda ficam localizados os dormitórios compondo a área íntima e possivelmente, o espaço que foi demolido também pudesse compor essa função. A ala posterior, circundada pela varanda principal, era destinada ao convívio social da casa, contando com a presença da sala de jantar, de visitas e um pequeno oratório circunscrito nesta.

     

    Capela

    A capela encontra-se edificada afastada da casa sede, criando-se um pátio no interior dos muros que circundam as edificações. Segundo Joaquim Cardozo, a capela, que possui torre, nave, capela-mor e sacristia, atendia também aos empregados externos e no piso da capela, é possível ver uma capela onde, especula-se, está enterrado Antônio de Souza Rezo, o vigário da capela. Na fachada principal, além das duas janelas do coro, existem janelas laterais em ambos os lados da porta de entrada. A parede frontal tem contornos curvos. O acesso à parte sólida da torre é feito por uma escada externa. A nave é simples. A grade do arco cruzeiro é composta por balaústres torneados. O altar-mor é ricamente esculpido, com colunas torcidas e represadas. A capela abriga três notáveis imagens: no trono, Santa Ana com Nossa Senhora Menina; nas laterais, São José e São Joaquim. As paredes da capela-mor são revestidas com azulejos, representando cenas sagradas. As janelas altas e a porta que conecta à sacristia são decoradas com treliças.

     

     

    Cronologia e Proprietários

    1618 - A casa e a capela foram construídas

    1651 - A escritura de venda do Engenho de Nossa Senhora de Mont Serrat, em Macacu  

    1710 - A fazenda é confiscada pelo Santo Ofício e entregue aos jesuítas

    1740 - A casa passa por reformas. A capela passa a ser dedicada à Nossa Senhora de Sant’Anna e são instalados dois painéis de azulejos portugueses: A imagem de Sant'Ana a ensinar a Virgem Maria a ler, e outro a retratar o pedido de casamento de São Joaquim à Sant'Ana, avós de Cristo.

    1779-1794 - A fazenda pertencia ao Capitão João Ribeiro Magalhães 

    1808 - A Fazenda é arrendada por Jerônimo Martins D’Almeida, da corte portuguesa.

    1816 - Construção da sede

    1869- Belarmino Ricardo de Siqueira, o Barão de São Gonçalo, teria adquirido a Fazenda de Jerônimo Martins D’Almeida, neto do patriarca de mesmo nome.

    1873 - Falece o Barão de São Gonçalo e os seus bens ficam para sua irmã, Anna Izabel Sodré e Souza e seus sobrinhos Major Carlos de Sá Carvalho, Belarmino de Sá Carvalho e seu amigo Clemente José de Góes Vianna

    1921 - Segundo a crônica "Uma festa simpática em Colubandê", publicada em Niterói no periódico mensal "A revista", em agosto de 1921, o anfitrião da festa é o Coronel Agápito ‘Filhote’ de Almeida.

    1940 - Foi tombada pelo Iphan

    1965 - Foi tombada pelo Inepac

    1968 - Os descendentes dos testamentários do Barão de São Gonçalo deixam a casa, que passa a servir como sede do Country Club por um ano.

    1969 - A fazenda foi desapropriada pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro, por Decreto número 14.406, do então governador Geremias de Mattos Fontes, e passou a ser destinada à ocupação do Corpo de Policiamento Militar.

    1988 - Passa a sediar a PMERJ e passa a ser Batalhao de Policia Florestal e de Meio Ambiente. 

    2012 - A construção foi desocupada pelo batalhão
    2016 - Abandonada, a fazenda foi municipalizada segundo um decreto publicado no Diário Oficial da União, tornando-se propriedade da Prefeitura de São Gonçalo 

    2017- É anunciada a volta da sede do Comando da Polícia Ambiental (CPAM), consolidada em 2021.

     

    Duarte Ramirez Leão

    Duarte Ramirez Leão (Binyamin Benveniste) nasceu por volta de 1587, em Lisboa, Portugal, filho de Manoel Dias Henriques e Branca Duarte. Era descendente de Ishack Naar, expulso de Castela em 1492. Casou-se com Beatriz da Costa em 2 de agosto de 1617, no Rio de Janeiro, e juntos tiveram oito filhos e cinco filhas. Morreu em 1670, no Rio de Janeiro, aos 85 anos de idade Sua cunhada, Isabel Mendes, foi a primeira pessoa a ser presa pelo Santo Ofício no Rio de Janeiro.

     

    Ana do Vale

    Nascida provavelmente em 1652, casou-se no Rio em 1673 com Duarte Rodrigues de Andrade, seu primo. Já são a sexta geração da família que ocupa a Fazenda Colubandê. Quando o marido morre, continua na posse do engenho, dividido em partidos de cana, tutorando quatro filhos e duas filhas. Foi presa pelo Santo Ofício em 1710, bem como seus filhos e partidários - inclusive seu genro, Manoel do Vale da Silveira, que deixa o inventário mais detalhado sobre a Fazenda. Morre com 58 anos, sentenciada ao cárcere e hábito penitencial perpétuo.

     

    Belarmino Ricardo de Siqueira (Barão de São Gonçalo)

    Belarmino Ricardo de Siqueira (1792-1873), filho do coronel Carlos José de Siqueira Quintanilha e de Maria Antônia do Amaral, nasceu em Saquarema-RJ numa família de descendentes de povoadores do século XVI, e foi o único Barão de São Gonçalo, grande proprietário de terras e mega proprietário de escravos. Desde jovem, trabalhando como caixeiro para o Brigadeiro da freguesia da Candelária (Domingos José Teixeira), circulava entre a elite fluminense. Antes de receber como herança parte da fazenda Morro Grande, em Araruama, já se destacava por adquirir grandes propriedades rurais entre os anos 1826 e 1871. Concomitantemente às terras para o plantio do açúcar e outros gêneros alimentícios, adquiria casas urbanas em Niterói e no Rio de Janeiro - cujos aluguéis proporcionaram a maior fonte de renda no final da vida. Entretanto, verifica-se que seus investimentos eram diversos: possuía ações de companhias de transporte, do Banco do Brasil, do Banco Comercial e do Banco Rural e Hipotecário do Rio de Janeiro. Assumiu o cargo de comandante superior da Guarda Nacional da região de Magé e de Niterói (1842), foi deputado provincial por dois mandatos (1844-45 e 1847-48) e também Juiz de Paz em 1849, mesmo ano em que recebeu o título de primeiro Barão de São Gonçalo. Em 1854 recebeu as honras de grandeza, em 1855 foi condecorado com a comenda da Ordem da Rosa e tornou-se fidalgo cavaleiro da Casa Imperial. Atuou como benemérito, proveu para o Asilo Santa Leopoldina de Niterói de 1856 até a sua morte, bem como contribuiu para a manutenção da Imperial Sociedade Amante da Instrução, que o honrou com um retrato a óleo. Pouco antes de morrer, declarou inventariante de seus bens sua irmã Anna Izabel Sodré e Souza, e para seus testamenteiros e herdeiros, por ordem de preferência, seus sobrinhos Major Carlos de Sá Carvalho, Belarmino de Sá Carvalho e seu amigo Clemente José de Góes Vianna.

     

     

    Documentação

    Fotografias do interior da casa no estado referente à setembro de 1967, oferecimento do Dr. Marílio Gouveia. Fonte: Iphan RJ

     

    Fotografias do exterior da capela. Fonte: Iphan RJ

     

     

    Fotografias do interior da capela. Fonte: Iphan RJ

     

     

    Inventário Manoel do Vale da Silveira

    NOVINKSY, Anita Waingort. Inquisição: inventários de bens confiscados a cristãos novos : fontes para a história de Portugal e do Brasil. [S.l. : s.n.], 1976. p. 212- 213.

     

    p. 212 - Manoel do Valle da Silveira

    n. 4166

    preso em 6 out. 1710

    natural e morador do RJ

    Auto da fé: 26 de julho 1711

    Inventário: 16 de outubro de 1710

    Disse que de bens de raiz tinha o Engenho Golambande da Invocação de Nossa Senhora do Monserrate o melhor quinhão na metade dele de que era administrador com seu irmão Simão Roiz de Andrade e Joseph Ramires de Andrade e a outra metade pertencia a sua mãe Ana do Vale viúva de seu pai. Roiz Ramires Leão também tinha algum quinhão do dito engenho da legítima de seu pai; e que o dito engenho com terras que lhe pertenciam, escravos, bois e cavalos valeria setenta mil cruzados por ser das melhores fazendas que havia no Rio.

    - que por morte de seu pai não tenham ainda feito partilhas e estava sua mãe por tutora dos órfãos por provisão de S. Magestade e êle declarante com filho mais velho administrava a casa por comissão de sua mãe dispondo absolutamente dos bens dela.

    - que no casal tinha onze escravos a saber digo quatorze escravos entrando as crias a saber:

    Vitória de  sessenta anos, que valeria vinte e cinco mil réis por ser velha e doente.

    Angela, negra de mais de sessenta anos que valeria trinta mil réis.

    Ignes, negra, cozinheira de cincoenta anos que valeria oitenta mil réis.

    Izabel, negra de quarenta e cinco anos mais duas crias chamadas Luiz que aprendera alfaiate e terá doze anos de idade e Bento de sete anos que todos três poderão valer quatrocentos mil réis.

    Esperança, negra de cincoenta e cinco de idade com Antônio de dezesseis que valerão ambos trezentos e quarenta mil réis pela dita cria ser mulato e oficial de carpinteiro.

    Magdalena, changa, mulata de dezenove ou vinte anos, rendeira, que valeria trezentos e cincoenta mil réis e andava pejada.

    Guiomar, negra, rendeira de quinze anos que valeria cento e vinte mil réis.

    p. 213.

    Diogo Cabra de dez anos que valeria cento e vinte mil réis.

    Camondongo, negro de dezesseis anos valeria sessenta mil réis por estar muito doente.

    Domingos, negro de quinze ou dezesseis anos que valeria sessenta e cinco mil réis.

    - e que já tem um chão para fazer casas na cidade do Rio de Janeiro onde tinha já frechaes e esteios para as mesmas casas que tudo valia quinhentos mil réis.

    - que no casal havia dois cordões de ouro que ambos valeriam cem mil réis.

    - de prata uma salva que valeria doze ou treze mil réis.

    - duas dúzias de colheres que valeriam 48 mil réis.

    - um garfo e umas facas com cabo de prata que valeriam dois mil réis.

    - umas fivelas de sapatos que valeriam mil novecentos e vinte réis.

    - e que no dito casal havia muitas caixas e catres alguns deles com cortina dos brancos e que não sabe o número nem o valor.

    - meia dúzia de tamboretes de moscóvia sem pregaria que valiam quatro mil réis.

    - um espelho pequeno com molduras de pau de jacarandá que valia dezesseis mil réis.

    - um bofete já usado de pau de jacarandá que não sabe o valor.

    - um tapete de arrayolos grande em bom uso que não se sabe o que valerá.

    - um guarda roupa de pau cacheta em que ele declarante metia os seus vestidos que valia sete mil réis.

    - que no dito casal havia uma bacia grande de arame que valia quatorze mil réis e outros tachos e bacias que não se sabe o número nem o valor.

     

     

    Bibliografia

    ABREU, Maurício de Almeida. Geografia Histórica do Rio De Janeiro (1502-1700)

    BRAGA, Maria Nelma Carvalho. O município de São Gonçalo e sua história. Niterói: Edição Independente, 2006. p.75.

    CARDOSO, Joaquim. Um tipo de casa rural do Distrito Federal e estado do Rio de Janeiro. Revista do PHAN, n. 7. Rio de Janeiro, 1943.

    DINES, Alberto. Vínculos de fogo I: Antônio José da Silva, o Judeu, e outras histórias da Inquisição em Portugal e no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

    MOLINA, Evadyr; SILVA, Salvador Mata e. São Gonçalo no Século XVIII. São Gonçalo: Muiraquitã, 1998.

    MOLINA, Evadyr; SILVA, Salvador Mata e. São Gonçalo no Século XIX. São Gonçalo: São Gonçalo Letras, 2010.

    MORAES, Bruno de Souza. A Fazenda Colubandê e seus processos transformativos: as representações de um espaço geográfico. Dissertação (Mestrado em Geografia), Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Faculdade de Formação de professores. São Gonçalo, 2023. Disponível em: http://www.bdtd.uerj.br/handle/1/20898.

    NOVINKSY, Anita Waingort. Inquisição: inventários de bens confiscados a cristãos novos : fontes para a história de Portugal e do Brasil. [S.l. : s.n.], 1976. p. 212- 213.

    NOVINSKY, Anita. Inquisição: pioneiros do Brasil: séculos XVI a XIX. São Paulo: Perspectiva, 2009. p.176.

    OLIVEIRA, Raiane. O mundo dos fundos: O Barão de São Gonçalo e seus escravos. Dissertação (Mestrado em História Social), Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2014. p.28-58 Disponível em: https://www.unirio.br/cch/escoladehistoria/pos-graduacao/ppgh/dissertacao_raiane-oliveira

     

     

    Observações

    Coordenação: Ana Pessoa (FCRB), 2024

    Pesquisa: Ana Pessoa (FCRB), Ana Lúcia V. dos Santos (EAU/UFF), Sávia Pontes Paz (FCRB), Anna Figueiredo Vanoli (FCRB)

    Fotografias: Ana Pessoa (FCRB), Andreza Baptista (FCRB), Sávia Pontes Paz (FCRB) 

    Colaboração: Mauro (Iphan)

     

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    PTCD/EAT-HAT/11229/2009

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