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    Casa da Calçada

    Casa da Calçada
    Casa do Morgado da Calçada
    XVIII
    1715
    Portugal
    Rua Cabo da Vila Provesende
    41.217978804722
    -7.568302072517
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    Constitui um raro exemplo de um classicismo tardio integrável numa tradição de arquitectura chã pouco comum na casa senhorial da região do Douro. As suas qualidades demarcam-se pelo seu  programa arquitectónico de grande rigor geométrico associado a uma tipologia de fachada com  capela lateral.  Os interiores guardam uma estrutura distributiva original marcada no piso nobre por um notável conjunto de cinco tectos de masseira distribuídos pelas salas do piso nobre que conferem à casa um certo esplendor.  

        

    Situada na zona da Régua, em terras do Douro a casa ergue-se no extremo da pequena povoação de Provesende. Localizada no alto das vertentes que descem sobre as margens do Douro, a casa recua ligeiramente formando um largo de desenho triangular. Com a fachada virada a Sul e ao Vale do Douro o edifício é envolvido a Norte e Poente pelas extensos campos de vinhas divididos em socalcos que abastecem as adegas da casa.

          

    Na sua morfologia e composição, a casa da Calçada salienta-se por uma arquitectura de grande erudição presente no rigor geométrico, não só, do desenho da fachada como no traçado da sua planta. Esta coerência manifesta-se no desenho da fachada que se articula com planta de base quadrada num esquema tripartido de base modular evoluindo a partir de um pátio central. Este esquema tripartido estrutura-se a partir de pátio central que se institui como elemento gerador de todo o programa, articulando axialmente o grande saguão de entrada com o corpo de escadas. Esta lógica de centralidade espelha-se na fachada principal pelo portal de entrada central ladeado simetricamente por duas janelas de peito que iluminam o saguão de entrada. O corpo principal da fachada é enquadrado por pilastras de ordem toscana sendo, por sua vez, ladeado por capela de desenho protobarroco.  

          

    De tendência horizontal a fachada principal é marcada por dois pisos, com andar nobre marcado por friso em cantaria sobre o piso térreo. Piso nobre marcado por sete janelas de sacada, assente em volutas interligadas por cornija recta convexa, com molduras de cantaria rematados em cornija. Os vãos são encimados por frontões triangulares sem retorno. O piso térreo é marcado por três portas de verga recta e moldura simples intercaladas por duas janelas de peitoril, molduradas e gradeadas que enquadram a porta principal.   

        

     

    Pátio do serviço

    A estrutura da casa compõe-se de um pátio lateral que dando entrada para a capela organiza um conjunto de edifícios de apoio agrícola. A entrada deste pátio faz-se por largo portal de verga recta moldurada inscrito num pano de muro terminado em friso e cornija, coroado por sua vez, com pináculos piramidais sobre plintos paralelepipédicos. Na zona nascente do pátio os edifícios de serviço apresentam-se em alvenaria de granito aparente, terminada em beirada simples e rasgada por janelas de peitoril rectilíneas.

          

     

    A capela

    A capela com invocação de São Jerónimo faz conjunto na fachada principal com um esquema de composição simples enquadrado por pilastras toscanas. Estas duas pilastras são rematadas ao alto por pináculos assentes em plintos, sendo o embasamento de cantaria e terminando em friso e cornija, sobreposta por beirado simples.

    O pano da capela é rasgado por portal de verga recta, com dupla moldura, a exterior formando pilastras molduradas, assentes em plintos com losango frontal, suportando friso, encimado por dupla cornija recta coroada por dois pináculos laterais sobre plintos;

    Ao centro o brasão de família destaca-se com paquife e coroa entre duas aletas, interligadas por friso, e pequeno nicho, em arco de volta perfeita, de abóbada concheada, entre dois pináculos assentes em cornija. O brasão é ainda enquadrado por dois óculos facetados e ovalados transparecendo uma influência militar que se repete nos pináculos em bola de canhão que encimam o segundo friso.

          

     

    As armas da família

    Com grande impacto na fachada principal da casa por cima do portal de entrada da capela, recortam-se as armas da família com escudo partido ao meio, com do lado esquerdo;  os Cunha  com nove cunhas postas em três palas, com a diferença de ter orla com cinco escudetes das quinas de Portugal. No lado esquerdo as antigas armas dos Pimentéis, com cinco vieiras, com orla semeada de pequenas cruzes. As armas são encimadas por elmo aberto e de perfil tendo como timbre uma águia estendida. O brasão é emoldurado por enrolamentos vegetalistas de expressão barraca e ladeado de cada lado por duas espirais afrontadas.

      

     

          

    Nos seus diferentes elementos arquitectónicos e decorativos na fachada principal destacam-se um conjunto de características do projecto da Casa da Calçada que aproximam este edifício de um classicismo tardio e da escola formada em Viana do Castelo no ciclo de Manuel Vila Lobos e da Provedoria de Obras Reais.  

    SAAVEDRA, José Augusto Pinto da Cunha, Provezende, Lisboa, 1935.

    Séc. 16, meados - a família já possuía uma casa na zona da Calçada;

    séc. 17, finais - construção da casa; segundo José Augusto Pinto da Cunha SAAVEDRA, a construção da casa, à excepção da capela e andar superior, custou 16 contos;

    1715 - morte do desembargador Jerónimo da Cunha Pimentel, instituidor do vínculo da Calçada com obrigação de um ofício anual na capela por sua alma; vinculou por testamento quase todos os seus bens, tendo-se tornado rapidamente uma das maiores casas da Província; no testamento ordena a seu irmão, o 1º morgado, 5º senhor da casa, que fizesse a capela junto da sua casa

    1º morgado, Luís da Cunha Pimentel, capitão-mor dos 3 coutos e irmão do instituidor casou em primeiras núpcias com D. Teresa Caetana de Azevedo e Melo, não tendo deixado geração, e em segundas núpcias com D. Ana Luísa Correia Pimentel; deste segundo casamento, tiveram António Cunha Pimentel, sucessor,

    2º morgado e 6 senhor da casa, António Cunha Pimentel o qual casaria com D. Ana Felíssima Leite Pereira de Melo e Alvim, filha dos senhores da quinta de Quebrantões;

    3º morgado e 7º senhor; Luís da Cunha, tenente de infantaria do Porto, que casou com D. Ana Emerenciana Pereira de Vasconcelos;

    4º morgado da Calçada, 8º senhor da casa  e 8º do vínculo de Atães, Francisco António da Cunha Leite Pereira de Melo, presidente da Câmara Municipal do Porto e guarda-mor da saúde nessa cidade; casou com D. Maria Antónia da Gama Lobo Pina e Melo;

    5º morgado Henrique da Cunha da Gama Leite Pereira, 9º senhor da casa e 9º do vínculo de Atães, que casou com sua prima D. Maria Augusta Pinto da Cunha; tiveram 7 filhos, tendo-lhe sucedido como

    10º senhor da Calçada e 6º morgado o Bacharel Jerónimo da Cunha Pimentel; este foi Governador Civil de Braga, presidente da Câmara daquela cidade, duas vezes deputado às cortes pelos vínculos de Sabrosa e de Barcelos, e par do reino vitalício; casou com D. Angelina Augusta da Costa Vasconcelos de Brito Roby Marinho Falcão;

    1853 - falecimento de Henrique da Cunha da Gama Leite Pereira;

    1875 - falecimento de D. Maria Augusta Pinto da Cunha, quase com 100 anos; Jerónimo da Cunha Pimentel e D. Angelina tiveram, entre outros filhos, Henrique da Cunha Pimentel de Vasconcelos, senhor da Casa da Calçada, que foi Governador Civil de Bragança, e que casou com D. Ana Luísa Angélica de Sá Pimentel; tiveram 5 filhos, sendo o primogénito Jerónimo da Cunha Pimentel, que casou com D. Maria Carolina da Cunha Pimentel;

    1935 - era senhor da casa Jerónimo da Cunha Pimentel;

    2006 - proposta da DR Porto para a Zona Especial de Protecção conjunta da Casa da Calçada, da Casa dos Belezas e da Casa do Fundo de Vila;

    2007 - despacho de homologação do processo de classificação e da definição de Zona Especial de Protecção conjunta da Casa da Calçada, da Casa dos Belezas e da Casa do Fundo de Vila do Secretário de Estado da Cultura.

    2022 – Falecimento de Jerónimo da Cunha Pimentel (jornalista do Público).

    O arquivo do Morgado da Casa da Calçada e da família Cunha Pimentel foi doado ao Arquivo Distrital de Vila Real com documentação relativa à família, nomeadamente documentos genealógicos; certidões de baptismos, casamento e óbito; declaração de autorização para matrimónio e declarações de justificação de idade.

     https://digitarq.advrl.arquivos.pt/details?id=1289493

          

          

    Em clara articulação com o esquema de grande racionalidade da fachada, o programa interior apresenta uma notável coerência inscrevendo-se num grande quadrado. De acordo com a inclinação do terreno o programa interior da casa apresenta um piso térreo junto da fachada principal mais estreito que o piso nobre. Este piso térreo é constituído por um grande vestíbulo de entrada ladeado por adega de um lado e lagar do outro. O piso nobre desenvolve-se em torno do pátio com três grandes salas de aparato em ligação com o a fachada principal e organizando-se três compartimentos mais íntimos nas traseiras interligados funcionalmente por um corredor.   

     

     

    Saguão de entrada

        

    Pelo seu impecável estado de conservação o vestíbulo de entrada, referido tradicionalmente como saguão é, sem dúvida uma dos mais interessantes compartimentos da casa. Este espaço organiza-se com um esquema de notável simetria com portal de entrada central ladeado por duas janelas com bancos de pedra. Em frente com porta central de acesso ao pátio interior desenham-se dois arcos cada um com um lance de escadas para o piso nobre. Digno de nota o pavimento é marcado por grandes lajes de granito e, por sua vez, o tecto é marcado por um sistema de grandes barrotes cruzados de grandes dimensões.  

     

     

    Escadaria nobre

            

    A escadaria nobre de acesso ao piso é um dos elementos mais originais da Casa da Calçada, estruturando-se a partir da entrada com dois lances simétricos que se reúnem por dois lances perpendiculares num patamar central. Este patamar central com pavimento de grandes lajes em granito é cercado de gradeamento em ferro de desenho pouco comum. As escadas recebem ampla iluminação de duas janelas sendo o tecto de madeira pintada em saia camisa

     

    Sala vaga

          

    Situada na sequência do patamar das escadarias de acesso ao piso nobre a Sala Vaga, como era referida até ao século XVIII era o lugar onde os convidados esperavam até serem conduzidos a diferentes compartimentos da casa conforme as situações e a sua condição social. De dimensões rectangulares e com três grandes janelas de sacada, este espaço liga-se, por portas localizadas ao centro da parede, com as duas salas de aparato situadas de cada lado formando uma unidade espacial que em França era denominada poe enfilade, mas que em Portugal era designada de galeria Por tradição este compartimento era marcado por uma certa sobriedade com grandes bancos de espaldar. Digno de nota é o tecto de masseira com aplicações de talha dourada que se integra no conjunto das salas de aparato da casa.  O soalho apresenta-se de tábua corrido de carvalho em grande proporções acrescentando uma certa austeridade rural.

     

     

    1º antecâmara

          

    Na sequência da Sala Vaga e como zona de receber privilegiada situava-se a 1ª antecâmara que aqui mantem as suas características originais. Digno de nota é mais uma vez o tecto de masseira com aplicações de talha dourada que se integra no conjunto das salas de aparato da casa a par do soalho corrido de carvalho em grandes tábuas e das portas e portadas das janelas que mantêm as suas características originais.

     

    Casa de Jantar

          

    Dado que o espaço de casa de jantar na história da casa senhorial em Portugal é um fenómeno que se desenvolve na segunda metade do século XVIII antes de ser casa de jantar que este compartimenta teria na sua origem funções de 2ª antecâmara. Esta interpretação é confirmada pela relação com a tribuna da capela que tinha acesso por este compartimento. Participando nos espaços de aparato do piso nobre este compartimento recebe também um esplêndido tecto de masseira com aplicações de talha dourada. O chão é de soalho corrido de carvalho em grandes tábuas que conferem sobriedade e coerência estética a este espaço.

     

     

    Casa das alcovas

            

    Organizadas na planta de forma simétrica situam-se duas saletas apoiadas, cada uma, por duas alcovas. Na organização dos espaços interiores da casa estas duas saletas faziam a transição com a zona interior da casa reservada aos aposentos mais íntimos da família onde se distribuíam as camaras e os guarda-roupas. Menos solenes que as salas de aparato estes espaços tinham função de receber de forma mais intima e de trabalho feminino bordar e cozer A indicar a importância relativa destes espaços verificamos que cada um destes compartimentos recebe tecto em masseira pintado com aplicações de talha dourada que se integra no conjunto das salas de aparato da casa.

     

    Corredor

      

    Indiciando uma certa erudição do projecto inicial da, casa datado de finais do século XVII, é a existência de um corredor recebendo ampla iluminação de três janelas viradas ao pátio interior e que dota a zona mais intima da casa de uma clara funcionalidade, muito rara até à segunda metade do século XVIII. De acordo com os parâmetros normais do século XVIII este espaço recebe cobertura de tecto em saia camisa e soalho de carvalho de grandes tabuas corridas.

     

    Tectos de masseira com aplicações de talha

           

      

    Distribuídos no conjunto das cinco salas situadas no piso nobre, os tectos de masseira desta casa constituem um das suas características mais assinaláveis. Decorados com aplicações de florões de talha de grande efeito plástico, estes tectos dividem-se em oito painéis assentando numa cornija interrompido por mísulas suportadas por acantos em talha. Os tectos assentam sobre um largo friso decorado de tríglifos de cantos cortados. 

     

        

    Sanefa da antecâmara com armas dos Cunha e Pimentel

        

    Armário copeiro do século XVIII da actual casa de jantar

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    PTCD/EAT-HAT/11229/2009

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