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    Descrição do Palácio Sobral, 1793

    Descrição do Palácio Sobral, 1793
    Portugal
    XVIII

    Descrição dos interiores do Palácio Sobral, em 1793

     

    in Meneses, Inácio de Sousa e – Memórias históricas dos aplausos com que a corte e Cidade de Lisboa celebrou o nascimento e baptismo da Sereníssima Senhora Princeza da Beira, Lisboa, 1793.Fl. 64-66. ( BN-HG. 5308V).

     

    “Os dois portoens do palácio dam entrada a qualquer coche por dois corredores, que se lhes seguem para o grande pateo, que occupa todo o interior d’este Palácio: no fim d’elle se levanta sobre quatro degráos um patamal coberto, em que se-achavam quatro Criados de libré promptos para acompanhar qualquer Fidalgo, eu chegava, athe sobir o primeiro lance de escada, com suas quatro tochas.

    Este lance de escada tem vinte, e dois degráos, athé o segundo patamal, em que pegam dois lances da mesma escada aos lados do primeiro, e em que se achavam quatro Escudeiros, com suas tochas, para succederem n’aquelle acompanhamento d’alli para cima aos Criados de escada abaixo: topam estes segundos lances em terceiro patamal, que vê por trez janelas de sacada ao dicto pateo, e tem nas duas extremidades duas portas para os interiores d’este andar nobre: há n’esta magnifica escada quatro alampioens; o tecto é de estuque, e tem no centro em boa p.ntura Vulcano, e Juno com os Ventos, que conseguio de Eolo contra os Troyanos, o qual alli se-vê de Coroa, e Sceptro como Rey dos Ventos.

    A primeira Sala, que é a de espera, tem seis bancos de encosto, nos intervalos das portas de todos os lados, e de duas janelas para a Rua da Roza, com uma banca por diante de um d’elles; tudo de pão sancto bem recortado, e entalhado: um Reposteiro com as Armas da caza, na porta da seguinte Sala, que é,

    A segunda, a qual tem outras duas janelas para a mesma rua, é armada com uma preciosa commoda de embutidos, e coberta de mármore, entre ellas, e seu relógio em cima: e com excelentes pannos de raz: d’estes mesmos sam as suas doze cadeiras, e canapé: o tecto é de estuque; d’elle pende um precioso lustre de cristal de vinte, e quatro luzes: nos ângulos quatro talhas de Macau de seis palmos de altura bem pintadas, e doiradas: nas portas, e janelas cortinas de damasco carmezim.

    A terceira Sala tem para a mesma rua dez janelas: é toda armada, isto é as suas vinte cadeiras, e canapé as cortinas das portas, e janelas, e as parecdes, tudo coberto de setim cor de goivo amarelo, e tudo bordado na Índia de flores, de cores, e de perfeiçoens, que admiram. Nos intervalos, e aos lados d’aquellas tem quatro magníficos tremós, doirados; cada espelho no meyo da sua altura tem duas serpentinas de trez luzes cada uma: sobre as suas mezas de mármore, tem nas do meyo um lustre de pé em casa uma; e nas duas exteriores dois relógios. O tecto é de estuque, d’ele pendem dois lustres de dez luzes cada um.

                A quarta sala, é que sérvio á Musica, tem duas janelas para a rua da Rosa, e trez para a rua larga, e quatro portas para os interiores do palácio; compõem-se de trez canapés, e dezaseis cadeiras tudo de precioso panno de raz, como tambem a armaçam dos quatro lados d’esta sala: as cortinas de todos os dictos vaons sam de setim cor de goivo amarelo bordado na Índia; o tecto é de estuque, e d’elle pendem dois lustres de doze luzes cada um: nos ângulos tem quatro apareaodres, como cada seu lustre de pé em sima. N’esta sala se-levantáram dois coretos para o instrumental, e no meyo d’elles um falquete para as vozes.

                As salas, que se-seguem, sam armadas á proporçam da grandeza de cada uma com igual riqueza, e gosto: por quanto a quinta sala se-arma de seda branca pintada na Índia, com cortinas em as trez janelas para o largo, e quatro portas para dentro de setim da mesma cor, bordado na Índia. A sexta é toda de setim azul claro bordado na Índia; e aqui já o palácio volta para a rua do Carvalho com uma das janelas d’esta sala: a sétima se-arma toda de damasco carmezim: a oitava de setim branco pintado na Índia, e bandinelas do mesmo em todos os seus vaons em lugar de cortinas.

    A nona de seda verde cor de bicho de couve, e suas cortinas do mesmo; sobre esta armaçam tem 42 payneis de molduras doiradas, e vidros dos mais preciosos que há; as pinturas do seu colorido, proporçam, naturalidade, e sentido, passam de perfeitas a admiráveis; no fundo correspondente ao da rua tem seu tremo com uam pintura no espelho, a qual é superior ao que póde expressar-se de perfeiçam: em sima da meza do mesmo um lustre de pé. A decima sala é de seda cor de oiro, pintada na Índia: todos os tectos d’estas cazas sam de estuque, e sua pintura no centro; do qual pendem lustres preciosos de crystal: a sala undécima é toda em roda de pilastras sobre seus pedestais, cobertas com uma simalha, que sustenta o tecto de estuque; a duodécima é semilhantemente de estuque, porêm as portas, e janelas sam de mármore, e os intervalos de bellas pinturas, com suas molduras de estuque: em ambas seus magníficos lustres.

    De todas estas salas servîram ao banquete as ultimas oito, pois todas se-occupáram com mezas, que se-adereçáram de prata riquissimamente; nam fallando na illuminaçam de cera em preciosas serpentinas, e castiçaes de prata em todas ellas: qual porêm fosse a abundância das iguarias, a variedade, e excellencia, é melhor calar-me, que dizer pouco.

                A serenata vinha a ser um Dramma por Musica, no qual foi representada:

    A Gloria                                                          pela Senhora Tódi

    A Inveja                                                          pelo Senhor Violani

    A Lusitania                                                     pelo Senhor Angelelli

    Hum Sacerdote por Nome Arsace                  pelo Senhor Forlivesi

    O Amor Pátrio                                                pelo Senhor Ferracuti

    O Tejo                                                             pelo Senhor António Puzzi.

    E o coro, que se-compunha de varias Pessoas.

    Tudo em Verso Italiano, de que foi Auctor o Senhor Caetano Martinelli, Poeta de actual serviço de S. Magestade Fidelíssima.

                O concurso foi o mais luzîdo, que podia ser; e de boa vontade logrou este divertimento a mayor parte da noite; porque havia n’aquella caza todos os refescos, e regalos, que podia dezejar-se para demorar a sociedade, e a fazer commoda, gostosa, e memorável: rematarei este discurso com uma noticia talvez nocva athé para os mesmos Senhores que lograram a funçam; e foi que teve o Senhor Anselmo Joxé da Cruz Sobral, a grandeza, e providencia de mandar apromptar uma cama imperial, para qualquer dos mesmos Senhores, que por algum inesperado accidente precisasse deitar-se; porêm foi Deos servido, que para todos fosse perfeito o gosto d’aquella alegre noite.”

    ttt
    PTCD/EAT-HAT/11229/2009

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