Filtrar

    Programa para Casa Nobre de Mateus do Couto, 1631

    Programa para Casa Nobre de Mateus do Couto, 1631
    Portugal
    XVII

    Programa para Casa Nobre de Mateus do Couto de 1631

    in Tratado de Arquitectura que leu o Mestre e Arquitecto Mateus do Couto, o velho, 1631

    BNP, Reservados. COTA: COD 946//1 (Microfilmado: F. 7752)

     

    Transcrição paleográfica realizada por Tiago Molarinho Antunes [1]

     

    (p. 55)

    Capitulo 6

    Sobre a repartição dos edifícios nobres

     

                O edificio nobre, hé razão que a distribuição dos apozentos diga com o nome do tal edificio. Edificauão os antigos com mais magestade do que hoje nós o fazemos, e fazião muitas obraz, que de nenhũa utilidade lhes erão, as mais dellas só por vaidades. Nos repartimentos dos apozentos em que hauião de viuer mostrauão tambem mais grandeza, que comodidade; e ainda essas antigualhas de Roma, a antiga, nos dão indicios do que digo. E pois temos tão particularmente tratado das fabricas, suas proporções, ornatos, e repartimentos dos membros, será razão agora dizemos algũa couza sobre a repartição dos apozentos que este tal edificio deve ter na forma que hoje uzamos.

                Este edificio terá no andar baixo sua entrada, e fachada, como hauemos dito no Livro 1º. Capitulo 15. E Livro 3º. Capitulo 4º. a que chamamos logea, zagão, ou pateo. O zagão, e a logea vem a ser hũa mesma couza; o pateo entenderemos que sempre he de seu aberto. O zagão será razão que seja largo, e comprido; e sendo a pessonagem tal, nelle possa entrar, e sahir com coche. E no andar deste zagão poderá haver cocheira, e apozentos dos criados mais humildez; e se tiuer correnteza o sitio que possa dar lugar a que as estreuarias, e palheiros, e mais cousas deste mester fiquem mais baixas que o zagão, seria muito bom; e hauendo de hauer cozinha fora, poderia ser no andar destez apozentos mais baixos, e sempre esta pessa a fizera de abobada, por se evitarem, e atalharem alguns incendios, com o serviço perto da escada principal; hauendo tambem de hauer seleiros, e outros almazens, tudo sera bom hauer neste andar mais baixo. E nestas pessas dos seleiros, e almazens sempre seria bom hauer escadas particulares para dos altos virem a elles as molheres, sem que sejão vistas da gente de fora; e sendo o sitio capaz, ou sobejando, e sendo em parte que valhão as cazaz, não será mao acomodar esses sobejos para se alugarem.

                Sempre este zagão, ou logea hé razão que seja alto, e que tenha boa proporção na dita altura, não nos descuidando de ver se as madeiras são capazez que possão trauejar toda a largura; e sendo nesta forma, sempre entre o pauimento do tecto do zagão, e do chão fica nas outras cazas altura para hauer antesolho nellas, em que se possão agazalhar (p. 56) criados mais graues, e cazados, tudo das portaz adentro. E tambem se neste andar houver sitio de mais, se poderá tambem alugar, como fizemos no de baixo; e poderá nestes antesolhos tambem hauer apozentos para o serviço das molheres, com suas efcadas por dentro. E hauendo filhos, tambem não ficarão aqui mal agazalhados, fazendo-lhe sempre o seruiço que demande a escada principal.

                Onde esta escada acabar de subir, sempre acabará com hum taboleiro, antes que entrem na sala; e este taboleiro entraremos em a dita sala: e posto que alguns as uzão hoje pequenas, sempre por meu voto as tomára grandez, e capazes de criados andarem nellas. A hum lado desta salla faremos a entrada da senhora da caza, que será hũa salleta mais pequena, que fique entre a salla, e a primeira antecamara de estrado; porque não he razão, que a antecamara de estrado fique tam vizinha da sala publica, porque se não esteja escutando o que numa, e noutra se falla, que ás vezes hé danozo. E sempre tomara que nestes edificios nobres houuera duas antecamaraz de estrado; Costuma-se quando as há, a primeira ser mayor que a segunda; e eu tomara que a 2.a fora mayor.

                Fora estas antecamaras em que se poem os estrados, ha de haver hũa camara em que durmão os senhores da caza, e em parte, se puder ser, que fique mais resguardada, e liure de ouuir as revoltas das ruas. Junto a esta camara he necessario hauer dous camarins pequenos, hum para se toucar a dona da caza, e outro para fabricas de toucados, e para vidros. Afastado desta camara hauera caza para dormirem filhas, e outras para criadas; e se a qualidade dos senhores for tal poderá hauer duas, ou trez destas cazas, para tambem lhe darem apozentos conforme sua qualidade. Não approuo retretez junto às camaras dos Senhores; ha de hauer mais hũa caza grande, em que estejão laurando estas criadas, e com os seruiços, de tal sorte, que assim desta caza, como dos seus apozentos possão hir á camara dos Senhores, sem deuasarem as antecamaraz, porque as vezes he isto muy necessario. E assi hirem ás antecamaras sem entrarem na camara. Hauerá mais neste andar (e não sendo possiuel, nos caramanchões) cazas para fato, e ás vezes la por cima se poderão acomodar seleiros, quando seja necessario e cozinha quando nella haja de hauer molheres.

                Tornando á salla; em outro lado ha de hauer serventia para o quarto do dono da caza, que tambem terá sua saleta; hum par (p. 57) de guardarroupas, hũa caza para escreuer, outra para livros, e papeis; hum camarim, ou hũa alcoba para dormir, quando for necessario; hũa caza para fato. Tambem he necessario que em apozento semelhante haja hum bom oratorio, e situado em tal lugar, que sendo possiuel, da camara, cazas de estrado, e salla publica, se possa ouvir missa. Parece-me que temos dito o que basta para hum apozento de hum Senhor, para ficar bem acomodado, deixo agora outras miudesas, que em cazas semelhantes são nessarias, como são despensas, caza de lenha, seus quintaes, fontes, cisternas, ou possos que nestas ocaziões o sitio he o que ensina o que havemos de fazer, que só por mayor tratámos o que temos dito, para que nas ocazioês semelhantes saybamos, como nos havemos de hauer.

     

    [1] Revisão da Transcrição realizada por Lina Oliveira.

    Normas de transcrição paleográfica seguidas: usou-se a transcrição paleográfica denominada de Tipo 1, fiel ao documento original, com as abreviaturas desenvolvidas. A ortografia, a pontuação e os acentos fonéticos e diacríticos foram integralmente respeitados, sem modernizações. Estas ocorrem apenas no que se refere à união e/ou separação de palavras, maiúsculas e minúsculas, e na colocação de hífen nas enclíticas e proclíticas e apóstrofo nas elisões e crases. Assinalaram-se os acidentes de texto e lacunas do suporte com […], a ilegibilidade de sílabas, palavras ou frases com (…) e as palavras entrelinhadas entre //. As letras ou sílabas ocasionalmente omitidas pelo escriba foram restituídas e assinaladas com <…>. As omissões e repetições de palavras ou frases foram referenciadas em nota de rodapé e utilizou-se  (sic.) para assinalar erros do escriba.

    Bibliografia: 

    ANTUNES, T. M., - A Repartição Dos Edifícios Nobres No “Tratado Do Arquitecto Mattheus Do Couto, Em 1631, In: V CONGRESSO INTERNACIONAL CASA NOBRE: UM PATRIMÓNIO PARA O FUTURO, Sessão Temática: Património Construído: Estudos, Defesa e Valorização, Arcos de Valdevez, 2019.

    Autoria: Tiago Molarinho Antunes

     

     

    ttt
    PTCD/EAT-HAT/11229/2009

    Please publish modules in offcanvas position.