Quinta das Torres

    Quinta das Torres
    Portugal

    Felipe Tercio (atribuído)

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    Sem dúvida, o exemplo mais erudito de arquitectura civil do Renascimento em Portugal, a Quinta das Torres destaca-se por programa de grande rigor geométrico.  Entre as  seus elementos arquitectónicos mais relevantes destaca-se a sua entrada sobre o pátio com uma “Serliana” de belas linhas. Sem paralelo é ainda o pequeno templete, que emerge ao centro do grande lago igualmente de apurado desenho  e delicadas proporções.  Estas qualidades, associadas ao facto de Filipe Tercio ter estado na região de Setúbal  para construção da fortaleza de São Filipe, permitem atribuir a este arquitecto o projecto deste edifício

     

    Situada entre Vila Fresca de Azeitão a nascente e Vila Nogueira de Azeitão a poente, o conjunto arquitectónico da Quinta das Torres estende-se no centro de uma parcela de matriz rural murada. Uma leitura de escala territorial, permite enquadrar o conjunto na zona de transição entre dois sistemas de paisagem, que a norte descobre a paisagem aberta e plana dos campos agrícolas e a sul apresenta a área da densa e montanhosa área florestal da Serra da Arrábida.

       

     

     

    A planta quadrangular de um piso desenvolve-se num esquema ortogonal e simétrico sobre um vasto pátio. A composição simétrica aparece evidente na organização dos quatro portões de entrada no centro de cada face que delimita o pátio e no chafariz que marca o centro do mesmo.

    O desenvolvimento horizontal do edificado integra-se na tipologia de Villa italiana ou na tradição romano – mediterrânea se se considerar o modelo de casa estruturada em volta de um pátio interior.

    Na volumetria do conjunto salienta-se as quatro torres de três pisos com telhados de quatro águas adossadas a cada canto denotam um gosto do século XVIII e as ameias que rematam as várias fachadas conferem um sentido militar do final da Idade Média.

    A norte, o corpo nobre demarca-se do restante conjunto arquitectónico pelo sistema de altos telhados de quatro águas que em oposição às outras alas da casa apresentam coberturas em terraço.

    Na parede do pátio, a entrada senhorial é assinalada por um patim com três degraus, que dando acesso a um átrio rectangular enquadrado por uma serliana caracterizada por vão central em arco de volta perfeita flanqueado por dois vão rectangulares separados por pilastras de secção circular.

     

    Orientada a sul, a fachada principal do edifício desenvolve-se num corpo de um piso rematado com ameias, que simetricamente apresenta ao centro um portão e lateralmente duas janelas. Ambas as fenestrações apresentam vãos em arco de volta perfeita com moldura em pedra almofadada.

    Adossadas a meia largura do edifício da fachada desenvolvem-se duas torres de secção quadrangular e telhado de quatro águas. Em cada uma delas abrem-se uma janela rectangular no piso nobre e um de forma circular no piso térreo.

    A marcar o limite superior do edifício salienta-se ao centro dois torreão simétricos de secção quadrangular.

       

     

    A fachada lateral orientada a norte desenvolve-se num corpo longitudinal de dois pisos com dois torreões de secção quadrangular de três pisos adossados lateralmente.

    O seu desenvolvimento simétrico apresenta no piso térreo uma porta com moldura com almofadas e arcos de volta perfeita em cada extremo, no piso nobre seis janelas de vão rectangular e varanda com guarda em balaústre de pedra.

    A cobertura apresenta-se nesta fachada como um conjunto de planos inclinados correspondentes aos cinco telhados de quatro águas organizados sob um eixo de simetria central, onde o do meio tem o dobro da proporção comparativamente aos restantes.

         

    O lago-espelho de água desenvolve-se como elemento fundamental e estruturante de todo o conjunto arquitectónico e paisagístico da Quinta das Torres. Este lago, para além das funções de tanque de rega, numa franca tradição dos jardins portugueses do sul do país, pela sua extensão, permite também o uso de um pequeno barco de recreio para desfrutar do fresco nas quentes tardes de verão.

    No centro do lago, uma pequena casa de fresco toma a forma de tiempeto coroado por zimbório sustentado por arquitrave e colunas toscanas ligadas por arcos de volta perfeita. Estas colunas tinham base num parapeito interrompido por dois pequenos ancoradouros que permitiam a chegada de pequenos barcos e permitiam este espaço servir como lugar de merenda ou calmo refúgio.

       

     

    Jardins

    O jardim desenvolve-se num longo rectângulo paralelo à fachada norte que se apresenta como um terraço, levantado 4 a 5 metros sobre o terreno adjacente. Este terraço delimitado por muros, onde se encostavam bancos e alegretes forrados de azulejos, separa o jardim dos terrenos agrícolas envolventes.

    O espaço do jardim divide-se longitudinalmente em três quadrados, sendo o elemento central e estruturante do conjunto paisagístico constituído por um lago (ou espelho de água).  

    Em continuidade com a tradição dos jardins portugueses do sul do país, este lago, aproveita a diferença topográfica relativamente ao terraço onde se localiza e integra funções, enquanto tanque de rega. Para além disto, a sua extensão permite funções associadas ao recreio e lazer como uso de um pequeno barco para desfrute do fresco nas quentes tardes de verão.

    Arquitectura característica de um estar intimista e privado próprio da vivência quotidiana dos jardins portugueses, no centro do lago apresenta-se uma casa de fresco. Este pequeno edifício em forma de tiempeto apresenta-se coroado por zimbório sustentado por arquitrave e colunas toscanas ligadas por arcos de volta perfeita. Na base das colunas um parapeito interrompido por dois pequenos ancoradouros que permitiam a chegada do esquife ou gôndola.

    No século XIX, em ambos os lados do tanque situavam-se dois jardins desenhados tal como o jardim inglês de forma labiríntica com buchos e ornamentados por vasos e estátuas.

                               

     

    IAN/TT – Morgados e Capelas, Núcleo Antigo 195 - fl. 11.

    Caetano de Sousa, D. António - História Genealógica da Casa Real Portuguesa, Tomo XI, págs. 407/8

    Simões, João Santos, “Panneaux de Majolique au Portugal”in Faenza, Ano de XXXII, 1946, pp. 76 e seguintes.

    AH da CML - Livro de Cordeamentos 1614-1699, fl.8. 

    Rasteiro, J. – “ Notícia Arqueológica da Península da Arrábida” in O Archeologo Português, Vol. III, Ns.º 1 e 2, Lisboa, Jan./fev., 1897, págs. 12, 18/9. 

    Oliveira Parreira, A. M. – “Quinta das Torres” in Revista Illustrada, nº60, Lisboa, 1892, págs. 232/7. 

    Rasteiro, J. – “Notícia Arqueologica da Peninsula da Arrábida” in O Archeologo Português, Vol. III, Nºs 1 e 2, Lisboa, Jan/Fev. 1897, pág. 19 -

     

    Nunes Ribeiro, J. – “Dois Palácios de sonho em Azeitão” in Revista Panorama, Lisboa, Vol. VI, 1947/9, págs.

    Quinta das Torres terá sido mandada construir pelos anos oitenta do séc. XVI, coincidindo com o período em que D. Diogo d’Eça era proprietário por herança de um morgadio instituído por sua tia Dona Filipa da Silva, do qual a Quinta das Torres pertencia.

    Dona Filipa da Silva, que não teve descendência, era irmã da mãe de D. Diogo, Dona Maria da Silva, filhas que eram de Vasco Anes Corte-Real, Alcaide-Mor de Tavira, Capitão Donatário da ilha Terceira, Vedor da Casa d’el-rei D. Manuel e do seu Conselho.

    Na sua origem o morgadio de D. Filipa da Silva fora instituído por testamento, recebendo uma 1ª aprovação em 1546; nele se especificando que era constituído por (...) uma quinta que está em Azeitão (...) junto com o Mosteiro de S. Domingos (...) com seu assento de casas, pomar, olival, terras e água (...).  Seguindo as pegadas da família Eça,  D. Diogo era filho de D. Pedro de Eça, de ascendência real, e da dita Dona Maria da Silva.

    D. Diogo, herdeiro da casa de seu pai, dissaboreado de algumas causas que teve com os seus validos (do Rei D. Sebastião), passou para Castela, e viveu muitos anos em Sevilha; depois voltou ao reino e se recolheu à sua quinta de Azeitão, onde acabou, fazendo vida de filósofo antigo, vindo a falecer em 1594.

    D. Diogo casou com Dona Leonor de Castro, filha de D. Jerónimo de Noronha, Governador da Casa do Cível e de Dona Joana da Castro, irmã do IV Vice-Rei da Índia (D. João de Castro).

    Nos inícios do séc. XVI: o morgadio é assim herdado pela filha de D. Diogo, D. Maria de Eça, filha do matrimónio do casal. Os outros três descendentes varões terão morrido na ou em consequência da batalha de Alcácer-Quibir.

    Seguidamente, por seu neto, D. João de Eça de Mendonça Henriques, casado com Dona Brites de Lencastre. Provavelmente, por essa altura, a quinta de Azeitão já não constituiria morada permanente dos seus proprietários, uma vez que o mesmo D. João manda edificar um palácio em Lisboa.

    Segue-se na sucessão a filha de D. João de Eça, Dona Luísa de Eça Corte-Real; esta bisneta de D. Diogo de Eça casa com seu primo co-irmão D. Cristóvão de Almada, Provedor da Casa da Índia e gentil-homem da Câmara do Infante D. Pedro. Do matrimónio de D. Cristóvão de Almada com D. Luiza  não há filhos.  Com a morte da proprietaria extingue-se toda a descendência de D. Diogo d’Eça o que determina a passagem do morgadio para um ramo muito afastado e colateral dos Eça Corte-Real.

    Já no século XVIII o morgadío da Quinta das Torres é herdado pelos Saldanha da Gama, mais concretamente por João de Saldanha da Gama (1674/1752), 41º vice-rei da Índia. O seu filho e sucessor no morgadio, Manuel de Saldanha da Gama (1715/1780), terá mesmo nascido na Quinta das Torres, freguesia de S. Lourenço de Azeitão.

    Na segunda metade do século XVIII, Fernando António Soares de Noronha (1742/1814), que ocupou importantes postos militares como Governador e Capitão General de Angola é mencionado como Senhor da Quinta das Torres.

    O morgadio será herdado, em seguida, por um seu sobrinho, Miguel António de Melo de Abreu Soares de Brito Barbosa Palha Vasconcelos Guedes, que virá mais tarde a ser o primeiro Conde de Murça. O século XVIII é a época das quintas de recreio por excelência, e é de crer que os Murças procederão a importantes alterações na estrutura da casa, adaptando-a a esse fim. Em Azeitão abundavam as quintas de recreio.

    Será o 3º Conde de Murça que, em 1877, venderá a Quinta e os seus excepcionais painéis de azulejo a um médico lisboeta, o Dr. Manuel Bento de Sousa. A Quinta encontra-se hoje na posse dos seus descendentes.

    A descrição mais antiga que possuímos do palácio data de 1892. É da autoria do erudito azeitonense Oliveira Parreira que, num artigo dá conta de substanciais alterações na casa levadas a cabo pelo então proprietário. De que se podem enunciar o arranque dos plátanos e olmos que ensombravam o pátio central e o abrir janelas nas faces interiores do edifício e na fachada oriental que anteriormente só apresentavam as torres e pequenas frestas.

    Em 1839, as duas áreas quadrangulares que ladeavam o lago eram desenhadas regulares num jardim à inglesa com labirínticos bustos e ornamentado com estatuetas de deuses da mitologia.

         

    Em 1947, a família Bento de Sousa, consciente de possuir um admirável edifício de valor turístico de 1ª classe, decide facultar ao público o acesso a uma parte das numerosas dependências, adaptando a ala voltada a norte, a uma Casa de Chá e pequeno hotel.

    Apesar de D. Diogo d’Eça ser apontado como seu construtor, os seus conhecimentos como arquitecto não poderiam garantir a coerência do programa arquitectónico apresentado, pensando-se o projecto ser da autoria do arquitecto Filipe Tercio. Este manteve estreitos contactos com Itália, e sobretudo com a zona de Urbino local de proveniência dos painéis de azulejos da antiga loggia.

     

     

    (...) O portão do lado oriental ostentava soberbo os brasões dos Eças, Guedes, Saldanhas da Gama, Soares, Noronhas, Mellos e Costas (...) tantos e mais tinham sido os apelidos dos proprietários (...).

    Nota

    Coordenação - Helder Carita

    Texto:Helder Carita

    Fotografia: Helder Carita e Tiago Molarinho Antunes

    A lógica arquitectónica interior apresenta, segundo um esquema ortogonal e simétrico, as áreas de serviço localizadas a norte do pátio central, em contraponto com a entrada e o corpo de habitação senhorial a sul.

    A entrada para área de serviço dá acesso a um grande vestíbulo abobadado, que permitia a circulação de cavalos, liteiras e conches. Em ambos os lados desta dois grandes portões serviam de passagem para os cavalos e outras duas para os servos e criados passarem às áreas de apoio e serviço.

    A norte do pátio central, a entrada e o corpo de habitação senhorial desenvolve-se independente do restante conjunto arquitectónico, servindo o conjunto da antiga loggia e salla  como espaços interiores de distribuição tanto para os compartimentos a nascente como a poente.

    Os portais e portas marcam na organização e desenho do programa do conjunto arquitectónico uma clara hierarquia das funções dos espaços. Os portais que marcam entradas ou passagens mais importantes, como os da sequência do portal de entrada para a salla e da salla para a antiga loggia apresentam-se ornamentados por arquitrave com cornija clássica dividida com friso e moldura.

     

    Corredor

    Um longo corredor percorre o alçado nascente, abrindo portas para o conjunto de quartos organizados lateralmente a poente e ligando o corpo nobre com a zona de serviços.

           

     

     

    Pátio

    O pátio desenvolve-se sob a forma de uma planta quadrangular com centro marcado por chafariz de pedra e uma laranjeira em cada canto. Cada uma das suas faces apresenta um portão de entrada que marca uma simetria e permite acesso a várias alas do corpo do edifício.  

           

     

     

    Pátio  (átrio de entrada da ala este)

    A face este do pátio da quinta  desenvolve-se sob um corpo com quatro janelas de vão rectangular e um pórtico ao centro com arco de volta perfeita e moldura em pedra. Como remate superior apresenta ameias. Este pórtico com abóboda em cruzaria de quatro arestas dá acesso a um portão rectangular com desenho em ferro.

         

     

     

    Pátio  (átrio de entrada da ala oeste)

    De forma semelhante à ala este, a face oeste do pátio também apresenta-se sob um corpo com quatro janelas de vão rectangular e um pórtico ao centro com arco de volta perfeita e moldura em pedra que dá acesso a uma porta rectangular de madeira elevada por três degraus de pedra e destacada por frontão. No centro do átrio apresenta-se uma baixa fonte circular em pedra e na parede nascente surge uma mesa de pedra incrustada.

           

     

     

    Pátio  (átrio de entrada da ala norte)

    No pátio a face da ala norte é constituída por um corpo com seis janelas de vão rectangular e um átrio central com entrada em pórtico simétrico e tripartido constituída ao centro por um arco de volta perfeita sustentado por colunas de secção circular e lateralmente por  vãos rectangulares de igual pé direito. Este pórtico apresenta-se elevado por uma escadas de três degraus, dando acesso a um átrio de planta rectangular com três portas no plano da fachada e duas organizadas nas paredes laterais.

    Embora todas as portas apresentem molduras simples em pedra, a principal situada ao centro destaca-se pela moldura composta.

               

     

     

    Vestíbulo entrada sul – Antigo saguão

    A primeira entrada do edifício dá acesso a um grande vestíbulo abobadado que permitia, pelas suas proporções, a entrada de cavalos, coches e liteiras. Neste grande vestíbulo rasgam-se, ainda hoje, dois largos portais para a esquerda e direita onde se fazia o encaminhamento dos cavalos para as cavalariças e os coches ou seges para as cocheiras. Neste vestíbulo de entrada outras portas serviam a passagem de servos e criados, situando-se nesta zona as áreas, de serviço e apoio à casa.

       

     

     

    Salla  – a sul da antiga galeria este

    De planta rectangular, a salla apresenta pavimento em mosaico hidráulico com padrão geométrico sob linhas diagonais à ortogonalidade da planta e no labrim painéis de azulejos. A parede virada para o pátio apresenta no vão das janelas bancos encrostados. Molduras e arquitraves de pedra nas portas que fazem ligação com o interior da zona nobre da casa e moldura rectangular de madeira no vão da porta para o exterior.

               

     

     

    Vestíbulo

    Entre o espaço da antiga loggia e o atrium a norte, situa-se o vestíbulo de planta rectangular onde conjuntos de sofás organizam espaços de espaços de estar. Vários quadros estão dispostos nas várias paredes assimetricamente e um painel geométrico de azulejos verde e branco apresentam-se no lambrim.

         

     

     

    Antiga loggia

    A planta longa e rectangular da antiga loggia apresenta entrada localizada no centro da fachada virada a norte e sobranceira ao lago.

    Este espaço constitui um elemento fundamental da composição e lógica do programa distributivo interior do edifício, uma vez que em conjunto com a sala grande e átrio de entrada estrutura espacialmente o edifício tanto a nascente como poente.

    As portas de articulação entre estes espaços apresentam por isso molduras sobrepujadas por arquitrave e cornija próprias da sua importância e sua relação com o exterior.

    Os painéis de azulejos do século XVIII que se desenvolvem na parede da galeria virada sobre o lago para além do seu valor artístico que representam, deixam legível a antiga estrutura arquitectónica da quinta pois delimitavam o fecho da antiga arcada da loggia.

               

     

     

     

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