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    Galeria do Palacete Pombal em Queluz

    Galeria do Palacete Pombal em Queluz
    Portugal
    XIX

    Localização:

    Largo do Palácio de Queluz 7, 2745-191 Queluz

    38.73254, -9,155074

     

     

    Apresentação

    A Galeria ou Sala Elíptica do Palacete Pombal apresenta-se como um caso notável do gosto neoclássico do final do século XVIII ao associar, ao mesmo tempo um desenho de grande pureza e elegância com uma escala intimista e um forte sentido palaciano. De planta elíptica em duplo pé direito esta galeria estrutura-se ao centro da casa constituindo o núcleo gerador de todo o programa interior do edifício. As características de grande erudição formal manifestam-se, ainda, num programa decorativo com pinturas de influência pompeiana de clara influência inglesa onde os tons suaves e o rigor do desenho salientam as linhas arquitectónicas, contribuindo para tornar este espaço numa das mais bem conseguidas realizações dos interiores portugueses

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    Enquadramento Histórico

    Fazendo parte do conjunto arquitectónico e urbanístico do Palácio de Queluz a edificação deste palácio-pavilhão coincide com a reabilitação da família Pombal por D. Maria I, que em 1786 reconfirma todos os antigos direitos e privilégios concedidos ao primeiro marquês.

    Nomeado gentil-homem da rainha, Henrique José de Carvalho e Melo é finalmente nomeado, em 1796, membro do Conselho de Estado, ascendo assim a um dos mais altos cargos do reino. Dispondo de vários palácios em Lisboa e uma das mais notáveis quintas de recreio do País, em Oeiras, a edificação deste requintado pavilhão simboliza claramente a intenção de marcar uma posição junto da família real, que elegera a real Quinta de Queluz como sua residência permanente, após o incêndio da Barraca Rica na Ajuda.

    Estando as obras do palacete a terminarem em 1807 e tendo a família real e toda a corte partido para o Brasil no final desse mesmo ano o palacete não terá chegado a ser usado como habitação do Camareiro-Mor nas suas estadias em Queluz  junto da rainha. Na realidade Henrique José, pelas suas funções, parte para o Brasil tendo falecido no Rio de Janeiro a 26 de Maio de 1812. Tendo Queluz perdido significado politico  o pequeno pavilhão de Queluz é relegado para. Em 1863, o Archivo Pittoresco fazia uma descrição do edifício “…o abandono tem-lhe feito sentir cruelmente as injúrias do tempo, não nas paredes que são de excelente cantaria, mas sim nas portas e janelas e em tudo o mais que é de madeira (…) faz pena ver assim desprezada esta habitação…”[1]. Pouco tempo depois o 6º marquês de Pombal vende o palacete ao Comendador Joaquim Almeida Araújo ( Visconde de Almeida Araújo em 1898, e Conde de Almeida Araujo, em 1901). O palacete continua na família Almeida Araújo até cerca de 1969 , ano que é vendido a D. Luis de Sousa e Holstein Beck, Duque de Palmela. O palacete permanece pouco tempo na família Palmela pois, em1978, é vendido ao Exército português passando a residência do seu Chefe de Estado Maior.  

     

    [1]  VILHENA BARBOSA, “A Casa de Campo dos Marqueses de Pombal em Queluz”, in Archivo Pittoresco, 1963, nº46, p. 365.

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    Legenda: Planta da Real Quinta de Queluz com projecto de ampliação urbana não executada. Desenho aguarelado, c. 1795. Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Vista aérea da implantação do Palacete Pombal. Postal com o palacete nos inícios do século XX.

     

     

    Arquitectura e Composição

    Caso raro confrontamo-nos com um edifício que conhecemos, não só os encomendadores, como o seu arquitecto, José da Costa e Silva. Formado na Academia Clementina de Bolonha, este arquitecto foi o autor do Teatro Nacional de São Carlos, realizado num curto espaço de tempo (1792-1793) como do Palácio-Hospital de Runa ou da versão neoclássica do Palácio da Ajuda. Da cronologia da obra sabemos que projecto do palacete Pombal terá sido elaborado no ano 1803[1], como atesta o contrato realizado entre o proprietário e o empreiteiro José da Motta . As obras estariam a terminar pelo ano de 15 de Março de 1807 como comprova um documento de pagamentos finais, guardado pelo autor publicado por Aires de Carvalho[2].

    Na sua linguagem claramente neoclássica com um forte depuramento de linhas e uma contenção formal, o palacete integra-se numa tradição francesa, com claras referências aos pavilhões de Jacques Gabriel, cuja caso mais emblemático é o conhecido Petit Trianon, construído entre 1762-1768 que Henrique José Carvalho e Mello terá visitado no se encontro com Maria Antonieta durante a sua estadia em Versailles.

     Estas afinidades transparecem numa carta enviada pelo 2º Marquês ao arquitecto José da Costa e Silva e hoje, na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, onde o palacete é referido como “o meu pavilhão”. Esta denominação do proprietário remete para uma tipologia de gosto iluminista marcada por uma elegância e delicadeza de proporções associado a um certo depuramento formal. Afastando-se da opulência monumentalidade barroca, estes requintados pavilhões permitiam uma vivência sofisticada  e descontraída.   

    Na sua concepção, o edifício apresenta uma sábia articulação entre a morfologia e o desenho dos alçados com a estrutura interior e os jardins, dotando o projecto de uma apreciável unidade e coerência intrínseca.

    Na fachada principal, com um portal ao centro encimado pelo brasão de armas e ladeado por duas estátuas reclinadas, transparece um certo gosto de transição, ao acentuar-se o aparato da entrada, o que retira alguma contenção e pureza de linhas ao conjunto.

    [1] ANTT, Cartório Notarial de Lisboa, antigo 5, Actual 12, Livro 135, Caixa 27, “Contrato de Obra, Anno de 1803, O Ex.mo Marquez de Pombal com José da Motta”.

    [2] Aires de Carvalho, Os três Arquitectos da Ajuda, do “Rocaille” ao Neoclássico, Lisboa, Academia Nacional de Belas Artes,1979, p.120 (mapa da obra do palácio do Exmo. Marquês de Pombal).

           

    Legenda: Fachada principal sobre terreiro da entrada. Portal de entrada com brasão de armas ladeadas de figuras escultóricas de Francisco Leal Garcia representando Urânia musa da astronomia e Thaleia, musa da comédia. Pormenor de cartela com baixo-relevo encimando as janelas da fachada principal. Fachada lateral sobre o jardim de buxo.

     
     
     
     

     

     

    Estrutura espacial

    Na sua lógica arquitectónica e conceptual esta galeria situa-se rigorosamente no centro da planta estruturando-se como núcleo gerador de toda a planta. Estruturando-se em dois pisos coroados, ainda por uma clarabóia este espaço manifesta uma escala ao mesmo tempo grandiosa mas intimista que lhe confere um claro clima palaciano. Uma falsa cúpula rematada por clarabóia permite uma iluminação de luz natural a todo este espaço que, ao funcionar como área de circulação não só dos salões do piso nobre como dos quartos do primeiro piso, dota o quotidiano dessas dependências de uma inequívoca qualidade estética e vivencial. Este um núcleo central formado por um átrio em duplo pé-direito rematado por cúpula com clarabóia, bem como a concepção arquitectónica deste edifício, apresentam claras afinidades ao projecto de Costa e Silva para o Erário Público, datado de 1789.  

     

     

     

    Programa pictórico e decorativo

    Em clara articulação com o desenho arquitectónico, o programa de pinturas decorativas assume neste espaço um claro protagonismo num conceito de “pavilhão-palácio” onde as pequenas proporções destes edifícios contrastavam com um forte investimento interior em pintura azulejaria e mobiliário. Por carta enviada pelo 2abemos que o 2º Marquês encomenda inicialmente a uma equipe de pintores que mais tarde é substituída pela equipe do pintor Manuel da Costa.

    Este pintor que recebe inicialmente formação na tradição da escola portuguesa de pintores de ornato pombalinos, recebe segundo Cyrillo foi discípulo de Jean Pillement quando escreve nas suas Memórias,fez os tectos de Domingos Mendes (mais tarde conhecido como Palácio do Manteigueiro) aonde mudou a palheta, segundo o sistema de Pillement, isto he usando geralmente dos escuros cinzentos em todas as cores, e até nas flores, cousa que lhe tirava a transparência, e o agrado”[1]. Manuel da Costa tinha trabalhado com o arquitecto José da Costa e Silva no Teatro de São Carlos c onde este pintou o teto da Sala, como na renovação da capela do Palácio de Vila Viçosa. Deve-se sem dúvida à relação do arquitecto com o pintor Manuel da Costa a qualidade do programa pictórico dos interiores do pavilhão cujas linhas depuradas associadas a uma paleta de tons suaves estabelecem uma clara adequação à arquitectura. Sobre a inspiração das figuras elas encontram a sua referência na obra de Simon Thomassin, Recueil Recueil des Statues, Groupes, Fontaines, Termes, Vases et outres magnifiques Ornements du Chateaux e Parc de Versailles, paris, Rue St. Jaques, 1694. (2ª ed. La Haie, 1723). Na realidade  só na galeria elíptica como na sala de visitas encontramos O estado de abandono que o palacete esteve votado durante décadas até ser comprado pelo mais tarde Visconde de Almeida Araújo terá contribuído para uma certa deteorização do desenho de algumas figuras que restauradas perderam no nosso ponto de vista detalhe anatómico.

     

    [1] MACHADO, Cyrillo Volkmar, Collecção de Memórias Relativas á Vida de Pintores …, Lisboa: Vitorino Rodrigues da Silva, 1823, p.180

     

     

    Piso térreo

     

    Nas  bandeiras da portas da galeria do piso térreo vemos representadas quatro cenas Vertumno e a Pomona, Cèfalo e a Aurora a Abundância,  A Vitórias sobre o Império , inspiradas na obra  in Thomassin, Simon, Recueil des statues, Groupes, fontaines, Termes, vases et outres magnifiques Ornements du Chateaux e Parc de Versailles, La Haie, 1723

     

     

    Piso superior

     

        

     

         

    No primeiro piso a galeria central é enquadrada por um varandim com delicada guarda  de desenho neoclássico.   Os panos de parede entre portas  são decorados com  figuras humanas que sustentam um medalhão envolvido, por sua vez, por lanças e volutas. As figuras são inspiradas mais uma vez na obra de Simon Thomassin representando” Jupiter Trovejante”, “Fauno das Uvas”, “Flora de Farnese”. A 4 com manto cobrindo a cabeça  parece e o que na nossa interpretação  uma variante de Bacante, não apresentando uma clara inspiração nas gravuras de Thomassin.                                                                                                                                                                                         

     

     

    Estandartes entre portas

     

    As ombreiras das portas o piso terreo da galeria apresentam alternadamente festão pendente com flores e estandartes encimados com coroa de louros e águia. Estes estandartes apresentam em placas os simbolos usados pelas legiões romanas: um com “JVC” iniciais de Júlio Cesar e o outro com as iniciais “SPQR” significando; “ao Senado e Povo de Roma”.

     

     

    Cúpula

    A decoração do interior da cúpula encontra-se dividida em quadros rectangulares respeitando a composição existente dos dois pisos . A temática de urnas, incensórios, associados a figuras vestidas á grega e sentadas numa mesa sugere uma temática ligada aos mistérios. Encontramos uma temática idêntica no tecto da sala pompeiana do palácio dos Maqueses de Belas em Lisboa.

      

     

     

    Documentação

    Segundo o Semanário ilustrado. Archivo Pittoresco nº 46 de 1863 podemos confirmar que o palacete encontrava-se em semiabandono neste período.

     

     

    Cronologia e proprietários

    1803 - “Contrato de Obra, Anno de 1803, Do Ex.mo Marquez de Pombal com José da      Motta”. ANTT, Cartório Notarial de Lisboa, antigo 5, Actual 12, Livro 135, Caixa 27,

    1807 – Medições de obra de arquitectura (15 de Março). Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, Documentos de Costa e Silva, Caixa 620, Pacote nº2.

    1807 –Partida ( 29 de Novembro) do 2º Marquês de Pombal para o Brasil acompanhando a Família Real 

    1863 – O palacete encontrava-se em semiabandono, segundo o Semanário ilustrado.     Archivo Pittoresco nº 46 de 1863.

    1866 (c.) – Venda do edifício pelo 6º Marquês de Pombal, António Carvalho e Mello ao Comendador Joaquim Almeida Araújo ( Visconde de Almeida Araújo em 1898, e Conde              de Almeida Araujo, em 1901).

    1969 (C.) venda do edifício à família Palmela

    1978 –Venda do palacete pelo Duque de Palmela, D. Luis de Sousa e Holstein Beck ao    Exército português.

     

     

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