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    Sala Arcádia, Palácio Pombeiro

    Sala Arcádia, Palácio Pombeiro
    Portugal
    XVIII

    Enquadramento urbano e arquitectónico

           

    A Sala Arcádia integra-se na sequência de salas do piso nobre do palácio Pombeiro tendo recebido uma excepcional decoração pictórica pela instalação nesta sala da Academia Nova Arcádia, em 1790. O edifício foi mandado construir, em 1702[1], por Dona Luísa Ponces de Leão casada com o conde de Pombeiro e açafata da rainha D. Catarina de Bragança. O pedido ao Senado da Camara de Lisboa é feito por Dona Luísa o que permite enquadrar o palácio na nobilitação de toda a zona na sequência da instalação, aqui, da rainha D. Catarina de Bragança que aqui vêem constituir como uma espécie de pequena corte. Pelo terramoto o palácio terá sofrido graves danos tendo sido objecto de grandes obras, na década de oitenta, efectuadas pelo D. José Luís Vasconcellos e Sousa embaixador em Londres, 6º conde de Pombeiro, por casamento com D. Maria Rita de Castelo Branco e mais tarde 1º Marquês de Belas, em 1801. Pela análise da planta de Lisboa Ocidental podemos confirmar que o palácio na sua estrutura original era formado por uma planta em U com grande pátio de recebimento à entrada, que terá sido transformado nas grandes obras efectuadas D. José 6º conde de Pombeiro, com a inclusão de um novo corpo arquitectónico na zona do muro de entrada. Toda a lógica tardo rococó que vemos desenvolver-se nas suas diferentes fachadas inscreve-se neste período dos finais do século XVIII coincidindo com outras obras assinadas por Manuel Caetano de Sousa caso do Palácio do Manteigueiro ao Chiado. Cerca de 1870 o palácio foi vendido ao Duque de Saldanha e pouco tempo depois ao 1º Visconde de Azarujinha, que por sua vez o vendeu, nos inícios do século XX ao governo italiano para aqui instalar a sua delegação. 

     Legenda

    Pormenor na Planta do Projecto de Lisboa Ocidental de 1757. Com a zona da Bemposta e o Palácio Pombeiro. MC.DES. 098. Vista geral da fachada principal do Palácio Conde de Pombeiro, virada para o Largo Conde de Pombeiro, e a fachada lateral que dá para a Calçada Conde de Pombeiro. Pormenor do frontão com as armas dos condes de Pombeiro.

     

    [1] O pedido para a construção do palácio encontra-se Arquivo Municipal de Lisboa: AML, Livro de Cordeamentos 1700-1705, s.n.

     

    Academia e Sala da Nova Arcádia

       

    Na sua origem a Sala Arcádia resulta da instalação neste palácio da Academia Nova Arcádia fundada pelo D. José Luis 6º conde de Pombeiro. Figura de elevada cultura, D. José Luís era formado em cânones, com o título de bacharel outorgado pela Universidade de Coimbra. Sendo muito dedicado à literatura, e entusiasta da poesia, D. José Luís traduziu do francês o poema épico: Henrique IV e a Henriada, de Voltaire. 

    É neste contexto que, ainda como conde de Pombeiro, D. José Luís funda, em 1790, a Nova Arcádia chamada inicialmente de Academia de Belas Artes. Domingos Caldas Barbosa, poeta e protegido do Conde, assumia a direcção da Academia sendo principais membros; Belchior Manuel Curvo Semedo, Joaquim Severino Ferraz de Campos e Francisco Joaquim Bingre. A estes membros juntou-se o padre José Agostinho de Macedo que troce, por sua vez, o seu amigo Bocage ( que assume o nome de Elmano)

    Nos seus objectivos esta Academia de oratória e poesia pretendia sob a forma de tertúlias - com carácter algo mundano - defender os princípios da Arcádia Lusitana, entre os quais se destacava a oposição à exuberância do estilo barroco, o retorno à simplicidade, ao estilo bucólico e à imitação da tradição normativa dos greco-latinos.

    Os desentendimentos pessoais entre poetas, sobretudo entre Bocage e José Agostinho de Macedo, levaram a Nova Arcádia a uma vida curta pois é encerrada em 1794, deixando apenas uma obra publicada, o Almanaque das Musas.

    Tendo a Nova Arcádia como sede o palácio Pombeiro, D. José Luís promove a decoração de uma das salas para lugar de encontro dos seus sócios que se reuniam nas quartas feiras, com um copioso almoço. 

     

     

     

    Morfologia e composição

       

    Ao nível da sua concepção arquitectónica, a Sala Arcádia do Palácio Pombeiro foi concebida com uma planta rectangular, sendo composta por diversos vãos que permitem aceder a espaços privativos, sociais e ao jardim do palácio. O lado sul possui quatro portas de sacada que acedem ao terraço da casa e para a calçada do Conde de Pombeiro; a nascente foram inseridas duas portas de sacada, articuladas com o jardim privativo. A parede norte é formada por dois vãos, um acede a zonas privadas e o outro é uma porta falsa. A poente ficam duas portas que se podem identificar como sociais; a porta que se situa relativamente perto do lado sul, acede à antiga Sala dos Festins, e a outra encontra-se no enfiamento que acede à zona nobre do palácio. A parte superior das portas é decorada com pinturas murais figurativas.

    Legenda: Panorâmica geral do interior da Sala Arcádia, com a pintura de tecto O Triunfo das Artes, e os grottesche que envolvem a pintura central

     

     

     

    Triunfo das artes

               

    Possui uma notável pintura de tecto que representa o Triunfo das Artes, no qual se observam a pintura e a poesia conduzidas em glória por um carro triunfal, puxado por Pégaso, indo em direcção ao Palácio de Júpiter. Segue-se um cortejo de monarcas europeus: Maria Teresa de Áustria, Frederico da Prússia e Catarina a Grande da Rússia, personalidades distintas do Iluminismo Esclarecido europeu. No eixo central podem ver-se D. Manuel I de Portugal, o Papa Leão X e Francisco I de França. O conjunto de personalidades é ainda constituído por Alexandre o Grande e o seu cavalo Bucéfalo, bem como o imperador romano Augusto. No final do cortejo de celebridades encontram-se Eneias e um grupo de guerreiros gregos. Por fim, uma interessante interpretação da escultura clássica greco-romana na personagem do Gladiador, provavelmente concebido com base em fontes gráficas, talvez na emblemática obra de François Perrier (Cents Statues antiques dessinées et gravées par François Perrier, 1638). O Triunfo das Artes é ainda preenchido por deuses da mitologia clássica, tais como Mercúrio, aqui exposto como Psicopompo, Juno, a rainha dos céus, Hércules, Vénus, Marte, Diana, e ainda os deuses marítimos, Neptuno e Anfitrite. As pinturas da Sala Arcádia podem ser datadas de c. 1788-1790.

    Legenda: O Triunfo das Artes de Cyrillo Volkmar Machado, visualização geral; o grupo dos bárbaros, com uma figura de um Celo na parte detrás; Apolo e Minerva rodeando a pintura e a poesia; Catarina II da Rússia, Maria Teresa de Áustria e Frederico II da Prússia; D. Manuel I, Francisco I de França e o Papa Leão X.

     

    Alexandre o Grande e Bucéfalo; O Gladiador

         

    Imperador Augusto e Eneias; Neptuno e Anfitrite; Vénus, Diana, Marte, Hércules e Cupido; Juno e Mercúrio psicopompo

     

    Grottesche do tecto

       

    A pintura é envolvida por ampla sanca decorada com grottesche de derivação rafaelesca (mais especificamente da obra Loggia di Rafaelle de Giovanni Ottaviani e Giovanni Volpato), a traço fino e delicado, da responsabilidade de Cyrillo Volkmar Machado

     

     

     

    Galeria de Retratos

    Esta sala é ainda formada por uma distinta galeria de personalidades do universo artístico e literário europeu e português: Virgílio, Homero, Camões, Voltaire, Rafael Sanzio, Ticiano, Corregio e Vieira Lusitano.

         

    Virgilio e Homero

          

    Luís de Camões e François-Marie Arouet (Voltaire)

         

    Rafael Sanzio e Ticiano Vecellio

         

    Antonio da Corregio e Vieira Lusitano

     

    Coordenação - Helder Carita

    Textos -Sofia Braga

    Fevereiro de 2019

     

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