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    Palacete do 4.º Duque de Lafões

    Palacete do 4.º Duque de Lafões
    XX
    1914-1921
    Portugal

    Luiz dos Santos Pinhão (Construtor Civil)

    Rua dos Anjos, 82 e 82 A, 1150-040 Lisboa
    38.725843
    - 9.136066
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    O Palacete do 4.º Duque de Lafões é um bom exemplo de casa apalaçada do início do século XX, mantendo as características de um palacete do século XIX, não só devido às suas pequenas dimensões, como pela sua arquitectura ligada ao ecletismo historicista, evidenciando-se ainda pela presença do brasão dos Duques de Lafões no tímpano do frontão que coroa a varanda.

                                                                                                                     

                                              

    Situado na freguesia de Arroios (dos Anjos até 2012), fica perto do Largo de Santa Bárbara, numa zona de Lisboa que era sobretudo constituída por quintas até ao primeiro quartel do século XX, mas que é hoje em dia densamente urbanizada. Com frente para a Rua dos Anjos e traseiras para o Regueirão dos Anjos, no lado Ocidental da Avenida Almirante Reis, nas suas imediações subsistem muito poucos edifícios semelhantes. Acresce notar que está assente numa zona alta da cidade, num terreno em declive (na direção Ocidente / Oriente), o que influencia a sua configuração arquitetónica, pois é mais alto do lado oriental (traseiras) do que no ocidental.

         

    Assente numa planta de formato retangular irregular, é mais alto e ligeiramente mais largo do lado oriental (traseiras) do que do lado ocidental (fachada principal). A sua arquitetura insere-se na tipologia do palacete do final do século XIX e início do século XX, apresentando-se como um pequeno palácio com a fachada principal voltada para a Rua dos Anjos. Desenhado num estilo eclético e historicista de linhas clássicas, a nobilitação da casa é sobretudo conseguida pela demarcação do piso nobre, o qual possui, numa sacada do lado esquerdo, um balcão sobrepujado por frontão semicircular, em cujo tímpano se veem as armas dos Duques de Lafões.

           

    A fachada principal voltada para a Rua dos Anjos é definida por quatro pisos à largura de seis vãos, com um corpo central mais avançado, de quatro vãos, no alinhamento da rua, e dois recuados, um de cada lado, simetricamente – muito embora do lado Norte seja mais recuado que do lado Sul. As portas situam-se nos corpos laterais, sendo a da direita (Sul), com o número 82, a mais nobilitada, assumindo o papel de portal do Palacete. Sobre ela está uma janela de peito com cornija sobre-elevada, decorada com uma cartela onde se encontra um baixo-relevo com uma pomba de asas abertas, junto de um ramo de flores, uma Bíblia e um terço. Esta janela iluminava o oratório da casa. Sobre a cornija vemos outra cartela mais larga, onde está o retrato em perfil do 2.º Duque de Lafões, D. João Carlos de Bragança (1719-1806), dentro de moldura redonda, encimada por grinalda, tendo, em baixo, a frase: «Qui mores hominum multorum vidit et urbes». Trata-se do terceiro verso da Odisseia de Homero, que se traduz por «De muitos homens viu as cidades e a mente conheceu» (Homero, Odisseia, I, 43). Essa frase surge no retrato gravado por Juste Chevillet (1729-1802) do 2.º Duque, feito a partir do retrato pintado por Louis Rolland Trinquesse (c. 1746-1800) (1779).

    O piso inferior é revestido por cantaria de junta fendida, numa sugestão de herança palladiana, característica dos palacetes lisboetas oitocentistas. Numa distribuição assimétrica, mas que recorda a tradicional marcação palaciana do eixo portal sacada, temos do lado esquerdo uma janela de sacada com balaustrada, sobrepujada por balcão também protegido por balaustrada, ladeado por duas colunas de ordem jónica, que sustentam um frontão em arco abatido, em cujo tímpano se vê o brasão da Casa de Lafões. De destacar o último andar de mezzanino, onde se veem cartelas decoradas com grinaldas e florões. Todo o conjunto é coroado por balaustrada interrompida, que serve de proteção para o terraço.

            

    As fachadas laterais correspondem às reentrâncias da fachada principal.

    A fachada oriental, voltada para a rua do Regueirão dos Anjos, é mais simples, praticamente sem elementos decorativos, muito embora o projeto inicial desse a entender uma aproximação à Arte Nova, pelos arcos abatidos das portas com janelões ao nível do Piso -1; com um friso de azulejos junto da platibanda; e também pela marquise de ferro no andar nobre (Piso 0), sobrepujada por varanda. Este cuidado decorativo provavelmente não passou do projeto, sabendo-se que a marquise foi alterada numa cronologia recente.

         

    Fachada principal

             

    Na fachada há diversos elementos decorativos de teor neoclássico, destacando-se o tímpano do frontão em arco abatido preenchido pelo brasão dos Duques de Lafões com escudos e cadernas de crescentes, sobreposto com a coroa ducal. Os lados são preenchidos com ramos de loureiro. Balcão com colunas de ordem jónica (com volutas e fuste com caneluras). No primeiro piso janelas de avental em que a cantaria inferior simula um balcão através de caneluras; na janela central as caneluras são decoradas com uma grinalda. Consola que sustenta o balcão decorada com flores e fitas.

    Arquivo Contemporâneo do Ministério das Finanças, Processo n.º 2056, Ano de 1927-1928.

    Arquivo Municipal de Lisboa, Processo de Obra N.º 18519, Rua dos Anjos, 82 e 82 A – Traz Regueirão dos Anjos, 51 e 53.

    Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Casa de Lafões.

    AFFONSO, Domingos de Araújo, VALDEZ, Ruy Dique Travassos, Livro de Oiro da Nobreza, Vol. II, Braga, Tipografia da «Pax», 1933.

    CLUNY, Isabel, «SILVA, D. Caetano Segismundo de Bragança e Ligne Sousa Tavares Mascarenhas da (1856-1927), 10.º conde de Miranda do Corvo, 6.º marquês de Arronches e 4.º duque de Lafões», in MÓNICA, Maria Filomena (Dir.), Dicionário Biográfico Parlamentar, 1834-1910, N-Z, Imprensa de Ciências Sociais, Assembleia da República, 2006, p. 670.

    Diário de Lisboa, 8 de Outubro de 1927.

    Diário de Notícias, 8 de Outubro de 1927.

    FERNANDES, José Manuel, JANEIRO, Maria de Lurdes, TOSTÕES, Ana Cristina, CÂMARA, Fernanda Dália Moniz da, Arquitetura do Princípio do Século em Lisboa, (1900-1925), Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, 1991.

    HOMERO, Odisseia, tradução de Frederico Lourenço, Quetzal Editores, 2018.

    PEREIRA, Esteves, RODRIGUES, Guilherme, Portugal, Dicionário Histórico, Chorographico, Biographico, Bibliographico, Heraldico, Numismático e Artístico, Vol. IV – L-M, Lisboa, João Romano Torres & C.ª – Editores, 1909, pp. 26-28.

    Século, 8 de Outubro de 1927.

    Século XIX

    1856 – Nasce D. Caetano Sigesmundo de Bragança e Ligne Sousa Tavares Mascarenhas da Silva na freguesia do Beato António, batizado na capela do Palácio do Grilo.

    1882 - D. Caetano de Bragança ascende ao pariato na qualidade se sucessor do seu avô, D. Segismundo Caetano Alvares Pereira de Melo (1800-1867), filho segundo do 5.º Duque do Cadaval.

    1897 – D. Caetano adquire uma casa na Rua dos Anjos (na altura com os n.ºs 228 a 234, possivelmente o atual n.º 84), onde irá fazer obras em 1907, deixando de viver no Palácio do Grilo.

    Século XX

    1904 - D. Caetano casou com D. Leonor de Osete y del Alamo (1871-1921), madrilena. O casal já tinha cinco filhos, que foram legitimados na altura do casamento: D. Afonso de Bragança, futuro 5º duque de Lafões; D. Henriqueta de Bragança (1894-1975); D. Joana de Bragança (1895-1973), D. Luísa de Bragança (1896-1981) e D. Mariana de Bragança (1900-1913).

    1914 – Projeto do Palacete da Rua dos Anjos, cujo pedido foi entregue à Câmara Municipal de Lisboa. O Construtor Civil (n.º 171), Luiz dos Santos Pinhão, tomou responsabilidade de construção da obra. Nesse mesmo ano foi apresentado um projeto de alteração para os dois pavimentos inferiores, passando a garagem para a Cave (Piso -1).

    1917 - Apresentado novo projeto de alteração da cave, do coroamento da fachada principal (passando a ter balaustrada) e do «pavilhão -claraboia», situado no terraço.

    1918 - Projeto de terraço sobre o pavilhão, para aproveitar a cobertura do Pavilhão-claraboia.

    1919 - Alteração no projeto de escada de serviço que iria substituir a inicialmente planeada.

    1921 – D. Caetano de Bragança pede a vistoria para a habitação do prédio (que tinha o n.ºs 128 e 130), podendo este ser habitado a partir de Abril. Nesse mesmo ano (Outubro) dá-se o falecimento de D. Leonor, que já morava no Palacete. D. Caetano habita no Palacete com as duas filhas solteiras: D. Henriqueta e D. Joana.

    1927 – D. Caetano de Bragança falece no Hospital de São Luís. A casa passa para D. Henriqueta e D. Joana de Bragança.

    1931 - D. Henriqueta e D. Joana apresentam na Câmara de Lisboa um projeto para demolir duas divisórias e mudar uma porta, no canto Sudeste da casa.

    1936 - As proprietárias procedem a alterações nas escadas para a copa.

    1938 - As portas 128-130 da Rua dos Anjos passaram a ter os n.ºs 82-82 A.

    1973 – Morte de D. Joana de Bragança.

    1975 – Morte de D. Henriqueta de Bragança. A casa passa para o sobrinho D. Pedro de Bragança (n. 1936), filho de D. Afonso.

    1979 – A casa estava arrendada ao Sindicato dos Trabalhadores Técnicos de Vendas.

    Século XXI

    O edifício foi vendido a particulares, estando a primeira cave transformada num pequeno apartamento destinado a aluguer para alojamento temporário. 

                                   

    Plantas e detalhes do projeto apresentados no Arquivo Municipal de Lisboa em 1914, tendo existido alteração ao primeiro projeto com a passagem da garagem do piso inferior para a cave, de modo a fazer a entrada pela Rua dos Anjos. Os detalhes decorativos do projeto foram seguidos, no essencial, no edifício que ficou construído em 1921.

    Autoria do texto: Margarida Elias, Novembro, 2022

    Piso -2

    Piso de nível com entrada pela rua do Regueirão dos Anjos. Estavam inicialmente projetadas três portas para o exterior, mas a mais a Norte foi fechada. Era destinado a armazéns, tendo uma escada de acesso ao Piso -1 do lado Sul.

     

    Piso -1

     

    Cave, com janelas voltadas a Oeste (Rua dos Anjos) e Este (Regueirão dos Anjos), era um piso destinado aos criados e suas dependências. Do lado Norte está uma rampa de acesso à garagem e uma porta que acede a uma entrada de serviço para a casa, ao lado da qual estava um espaço para o «Criado». Tendo ao centro a escada de serviço que ligava aos pisos superiores, possuía, do lado da fachada principal um quarto, um gabinete e um atelier, e nas traseiras um quarto para «Lavadouro e engomados» e quarto das criadas.

     

    Piso 0

          

    Piso Nobre com entrada pela porta do lado Sul (Rua dos Anjos). Subindo uma pequena escada acede-se a uma primeira «Entrada» e só depois dela se entra propriamente para a casa, para o átrio de onde parte a escadaria principal. Numa distribuição funcional das divisões, as salas dedicadas à sociabilização e recepção («Sala», «Saleta» e «Bilhar») estão voltadas para a Rua dos Anjos, acessíveis pelo corredor e comunicando entre si. Do lado Norte, comunicando com o Bilhar, ficava um «Gabinete», que por sua vez ligava à «Sala de Jantar», voltada para o Regueirão dos Anjos. Desse lado situava-se também a copa e a «Cozinha», próximas da «Despensa» e da escada de serviço central. No canto Sudeste ficavam uma sala de «Costura» e um «Escritório» (depois transformados numa só divisão), sendo de assumir que este lado da casa, mais resguardado, era o mais usado no quotidiano da família.

     

    Piso 1

        

    Piso privado, acessível pela escadaria principal ou pela escada de serviço. Pela escadaria principal desemboca-se num patamar com três portas, a mais a Sul dando lugar a um pequeno «Oratório», situado sobre a entrada da casa. Além do corredor, os quartos do lado Ocidental são também intercomunicantes. O 1.º quarto, mais a Sul, tem ligação ao «Oratório», seguido de uma «Toilete», desembocando, a Norte, no quarto maior, que seria o do Duque de Lafões, visto que tem usufruto da varanda (brasonada) e se situa sobre o «Bilhar». Entre esse quarto e lado Oriental da casa há outra «Toilete» com porta para o quarto Nordeste, já no lado do Regueirão dos Anjos, onde existiriam mais dois quartos (hoje apenas um), com uma casa de banho situada sobre a cozinha.

    Entrada

            

    Dois painéis de azulejos figurativos azuis e brancos, do século XX, mostrando, em moldura circular, vistas do Palácio do Grilo (dos Duques de Lafões, Séc. XVIII), o da esquerda com a legenda: «TRECHO DOS JARDINS DO PALACIO DO GRILLO»; o da direita com a legenda: «FACHADA DA SALA NOBRE DO PALACIO DO GRILLO, ONDE SE CELEBRARAM AS SESSÕES PRELIMINARES PARA A FUNDAÇÃO DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS (DE PORTUGAL)». Ests vista apresenta a fachada exterior com a entrada para a Sala da Academia.

     

    Átrio

            

     Painéis de azulejos figurativos azuis e brancos, do século XX, mostrando, em moldura de perfil contracurvado, paisagens alusivas à Quinta da Torre Bela (dos Duques de Lafões, na Azambuja). Uma mostra a entrada da Quinta, com um campino, e tem a legenda «PORTÃO DA TAPADA DA TORRE BELA» - vendo-se sobre o portão o brasão dos Duques de Lafões. O outro apresenta uma cena de caça, e tem por baixo o brasão dos Duques de Lafões e a legenda: «VEADO REAL ALANCEADO NA TAPADA DA TORRE BELLA NO DIA 25 DE JANEIRO DE 1893». Está assinado A. Santos, F. V. Lamego.

    Porta de entrada (átrio)

          

     Grinalda de rosas suspensas de olhais, tendo ao centro um medalhão com um busto feminino de perfil.

    Sala de Bilhar

          

    Tecto com inspiração na pintura neoclássica, nomeadamente nos grotescos e nas cartelas com putti a brincar e a fazer tiro ao alvo. Na cercadura vêem-se mascarões e bustos de perfil clássico.

     

    Sala de Jantar

          

    Tecto com motivos decorativos clássicos, com fitas e frutos na zona central; na cercadura vêem-se medalhões com símbolos de caça: cabeças de veado e javali, setas, cornetas e cestos com pássaros.

     

    Tecto da Escadaria

          

    Brasão dos Duques de Lafões, com escudo de Portugal, cadernas de crescentes e coroa ducal.

     

    Patamar do 1.º Andar

      

    Três brasões sobre as portas, segurados por anjos; o primeiro (de acesso ao oratório) é o brasão dos Duques de Cadaval (evocando D. Segismundo Pereira de Melo, 3.º Duque de Lafões, casado com a 3.ª Duquesa, avó de D. Caetano de Bragança); o segundo é o da Casa de Ligne (evocando D. Luísa Nassau e Ligne, 1.ª Duquesa de Lafões, mãe de D. Pedro de Bragança e de D. João Carlos de Bragança); o último, voltado a Norte, dos Marqueses de Marialva (evocando D. Henriqueta Lorena e Meneses, 2. ª Duquesa de Lafões, mulher de D. João Carlos de Bragança).

     

    Oratório

          

    Decoração em tons de azul, com flores, folhas e fitas, ao centro uma Bíblia, uma cruz e um cálice, junto de rosas. Ao redor, a cercadura é feita por uma grinalda com folhas de palma e ramos de oliveira com azeitonas, numa iconografia cristã ligada ao simbolismo da paz.

     

    Quarto Nordeste

          

    Decoração em tons de rosa, de cariz clássico, vendo-se ao centro um pequeno guarda-sol aberto (efeito umbrella). Na moldura, fitas e flores, formando grinaldas nos cantos.

    Porta exterior da entrada

        

    Ferragem com flores e um cesto.

     

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    PTCD/EAT-HAT/11229/2009

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