Filtrar

    Fazenda Ubá

    Fazenda Ubá
    XIX
    Brasil
    Vassouras
    -22.25611
    -43.44140
    COM_CCK_hhh

    A sesmaria de Ubá, a que deu origem a esta fazenda, surgiu no século XVIII e essas terras se estendiam pelo vale do rio Paraíba do Sul, uma área que seguia desde o Caminho Novo até a região banhada pelos rios Paraibunas e Preto. Foi uma área que serviu para abastecimento dos viajantes que por ali passavam e possuíam lavouras de cana de açúcar, milho e mandioca.

    A fazenda fica situada em Andrade Pinto, 3º distrito do município de Vassouras. Seu principal acesso se faz pela rodovia BR-393 e segue em estrada de saibro e  presença de arborização que adensa conforme se aproxima da casa sede. O relevo é de característica plana com leves ondulações e grandes áreas de pasto.

    A casa, em sua conformidade original, possuía apenas um corpo principal retangular que recebia as áreas social e íntima e, aos fundos, o setor de serviços, formando um “T”. Porém, adiante foi construído uma ampliação da área de serviços fora do alinhamento da casa. A cobertura vista na fachada principal, em função da construção de uma nova ala, não sofreu grandes impactos visto que a linha de cumeeira do telhado do corpo original é mais alta. O acesso principal se dá pela fachada de maior lado do retângulo principal.

    A fachada principal possui uma extensa varanda aberta com guarda corpo de madeira trabalhada e onze portas duplas de duas folhas cada, em madeira almofadada, permitindo variados acessos. O acesso principal à varanda se dá por uma escadaria em semicírculo localizada ao centro da edificação que dá para três portas centrais que levam para a grande sala de jantar.

    A fachada lateral esquerda possui acesso por um pequeno alpendre e fica desse lado uma das extremidades da varanda em que se insere a capela. A fachada lateral direita, também de acesso por um alpendre, dá para o pátio estreito em que separa as duas alas da casa e onde se localiza o chafariz de pedra.

    O embasamento é marcado por um friso horizontal abaulado em pedra. As esquadrias, portas e janelas, e o guarda corpo da varanda são em madeira pintada em azul claro. As janelas possuem guilhotinas internas em caixilhos de vidro e folhas de abrir externas em treliça de madeira e cercaduras em madeira pintadas na cor tijolo. O telhado é de telha capa e canal, com beiral largo com fechamento em cimalha de madeira. Os pisos na área original são de tábua corrida e em cerâmica na ala nova.

    Elementos de Composição, Portas e Portais

    A entrada da fazenda se dá pela estrada de saibro e arborizada, que percorre por baixo da rodovia em direção ao sul. O acesso principal da sede se dá pelos três vãos centrais que levam a sala de estar. Os acessos laterais feitos por alpendres que dão para a sala de jantar possuem, respectivamente, à esquerda uma escada de um lance e, à direita, uma escada de dois lances simétricos.

     

    Jardim e Horto

    A fazenda possui extensos gramados, árvores centenárias e uma diversificada arborização. No jardim da lateral direita, encontra-se uma pequena fonte antiga separando as duas alas da casa. Os antigos terreiros de café localizavam-se onde hoje estão as quadras esportivas em que ainda preservam as canaletas de drenagem ao redor, assim como o calçamento em pedra em torno da casa.

     

    Fazendas Antigas. Casarão bem preservado guarda uma relíquia (Parte 01). Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=hqxMs1p4jYU&ab_channel=FazendasAntigas>. Acesso em: 01 nov. 2021.

    Fazendas Antigas. Muitos achados incríveis nessa fazenda histórica preservada (Parte 02). Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=speYDGW4pt4&ab_channel=FazendasAntigas>. Acesso em: 03 nov. 2021.

    MOTTA, Aline. Filha natural - Natural daughter. Disponível em: <http://alinemotta.com/Filha-Natural-Natural-Daughter>. Acesso em: 05 nov. 2021.

    MUAZE, Mariana. As Memórias da Viscondessa. Família e poder no Brasil Império. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2008.

    PIRES, Fernando Tasso Fragoso. Fazendas: As grandes casas rurais do Brasil. Rio de Janeiro: Abbville Press, 1995. p.69-75.

    PIRES, Fernando Tasso Fragoso. Fazendas - Solares Da Regiao Cafeeira Do Brasil Imperial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004. p. 200

    Saint-Hilaire, Auguste (1830). Voyage dans les provinces de Rio de Janeiro et de Minas Geraes. Paris: Grimbert et Dorez

    Secretaria de Estado da Cultura - RJ, Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (2009). «Inventário das Fazendas do Vale do Paraíba Fluminense» (PDF). Instituto Cidade Viva. Consultado em 16 de outubro de 2020

    1801 - José Rodrigues da Cruz funde a Fazenda Ubá

    1806 - Cruz vende a fazenda a seu sobrinho, João Rodrigues Pereira de Almeida, que promove a edificação da casa sede

    1828 - João Rodrigues recebe o título de barão de Ubá

    1830 - Faleceu o barão de Ubá e seu filho, José Pereira de Almeida, herda a fazenda

    1874 - Falece José Pereira de Almeida

    Séc XX - Pertenceu a Companhia Centros Pastoris

    1970 - Passou a José Luiz de Magalhães Lins

     

    José Rodrigues da Cruz

    José Rodrigues da Cruz era natural de Lisboa e foi considerado o fundador da cidade de Valença. Foi colonizador e proprietário de terras nas vizinhanças (“Fazenda de Nossa Senhora da Glória da Paraíba do Sul”, depois chamada de Fazenda Ubá), em 1789, deu início à catequização dos índios que viviam entre os rios Paraíba e Preto, por ordem do Vice-Rei Luiz de Vasconcelos e Souza. Com seu irmão e cunhado fundou a "Companhia Comercial Avellar e Santos", importante casa comercial do Rio de Janeiro.  Juntos reuniram dezessete sesmarias e possuidor de um terço da sociedade foi o único a viver na fazenda Ubá com a esposa e os filhos. Foi responsável pela criação do Aldeamento de Nossa Senhora da Glória de Valença e obteve o cargo de Diretor dos Índios da região. Unindo-se a Francisco Dionísio Fortes Bustamante, Guarda-Mor de Rio Preto e próspero fazendeiro, visavam terras, ouro e, principalmente, os índios como mão de obra na extração do ouro. Além do título de “Senhores do Descoberto da Mantiqueira”, após a abertura do “Sertão Prohibido do Rio Preto” à mineração e povoamento junto ao comandante do Presídio de Rio Preto, Capitão Miguel Rodrigues da Costa, e o irmão deste, contratador proprietário do Registro do Rio Preto, Francisco Rodrigues da Costa.

    João Rodrigues Pereira de Almeida

    João Rodrigues Pereira de Almeida foi comerciante, banqueiro, industrial, armador, “cortesão e manipulador político”, se tornou barão pela Junta do Comércio do Rio de Janeiro em 1828 e foi um dos maiores comerciantes da Corte durante o período da Independência do Brasil. O tráfico de escravos permitiu que o mesmo obtivesse diversos investimentos como a compra de imóveis e o financiamento de escravos. Pereira de Almeida colaborou com a construção da fábrica de pólvora, foi nomeado major do Regimento de Milícias da Candelária, contribuiu para a constituição do Banco Real, do qual se tornou diretor, e recebeu a comenda de Cavaleiro da Ordem de Cristo. Em 1811 cobrava impostos no Rio Grande do Sul. Ganhou sesmarias de difícil acesso em que surgiu a Estrada do Comércio com início no perímetro urbano da Vila de Iguassu até as sesmarias onde passou a cultivar o café, em Paraíba do Sul. Passou uma temporada na Europa até que precisou retornar em busca dos seus bens sequestrados durante o período da Independência. Seus negócios eram administrados de um casarão da Rua Direita que também era residência dos empregados, depósito de mercadorias, loja, escritório e local de reunião. Possuía treze embarcações que faziam a rota Rio de Janeiro - Luanda. Com a extinção do tráfico negreiro, liquidou seus ativos para pagar dívidas e salvar o patrimônio investido em imóveis e fazendas. O barão faleceu em 1830 em sua fazenda.

    "Tendo deixado para traz Pao Grande, atravessamos novas mattas, e dentro em pouco chegamos a Ubá. Essa habitação, situada bem proxima ao Parahyba, e na bacia desse rio, ergue-se apenas a seiscentos pés acima do nivel do mar; o calôr é ahi quasi tão forte como no Rio de Janeiro, e as terras muito boas para o cultivo de assucar. O nome de Ubá é o de uma graminea bastante elevada, que cresce á beira d'água e é comum nas margens de um rio vizinho á fazenda em que eu estava no então. Durante a minha estadia no Brasil, não passei em parte alguma momentos mais felizes; diariamente fazia longas excursões pelas florestas ou margens do rio; trazia uma multidão de objectos que me eram desconhecidos, e entregava-me tranquillamente aos trabalhos, sem experimentar uma só dessas difficuldades e privações que tornaram tantas vezes penosas as minhas viagens.
    Não ha muitos annos que essa habitação d'ubá, hoje tão bella e florescente, não existia ainda. Foi o tio do Sr. Almeida que a mandou construir. Esse tio, o Sr. José Rodrigues, possuia originariamente uma legua de terras incultas em Pao Grande; associou-se a dois commerciantes do Rio de Janeiro que lhe forneceram capitaes; levantou em suas terras o engenho que ainda existe ahi, e começou a administral-o. Ubá era então habitada por Indios selvagens, e apenas dois negros de Pao Grande se aventuravam a atravessar a floresta para ir pescar ás margens do Parahyba. Entretanto, o sr. José Rodrigues vivia em boas relações com os Indios: iam visital-o em Pao Grande; dava-lhes de comer, regalava-os com aguardente, e estes acabaram por convencel-o a se ir estabelecer entre elles. Entrementes, os associados do Sr. José Rodrigues falleceram; este desgostado pelos embaraços de uma tutoria que deveria ser muito prolongada, abandonou Pao Grande, e, aproveitando-se do offerecimento dos indios, foi abrir fazenda em Ubá. O sr. José Rodrigues contrahira para com o selvagens a amizade mais tocante; projectou civiliza-los e fazel-os abraçar o christianismo. In Vêl-os nas suas choupanas, recebia-os em sua casa, e dependia sommas consideraveis para ganhar-lhes a confiança."

    Saint-Hilaire, Auguste (1830). Voyage dans les provinces de Rio de Janeiro et de Minas Geraes. Paris: Grimbert et Dorez

     

    Brasão de João Rodrigues Pereira de Almeida, Barão de Ubá, 1830. Arquivo Nacional. Fundo Brasões. BR_RJANRIO_0D_0_0_0150

     

    Estereoscopia na varanda da casa grande da Fazenda Ubá, Vassouras. Fotografia de Revert Henrique Klumb, 1860 (acervo particular)

     

     

    Estereoscopia retratando a família com a presença de duas escravas. De acordo com Aline Motta¹, "por comparação com quadros que fazem parte da coleção do Museu Nacional de Belas Artes, é possível que os retratados parcialmente identificados sejam Maria Julia, segunda esposa de José Pereira de Almeida, e sua mãe, D. Jeronyma." E que "partindo da leitura do testamento de José, é possível inferir que as duas escravizadas se chamem Joana e Rachel, pois ele as concede alforria." Também de Revert Henrique Klumb, 1860 (acervo particular)

     

    Fazenda Ubá, Vassouras. Fotografia de Maria Werneck, c. 1950 (acervo particular)

     

    TELLES, Augusto Silva. Fazenda Ubá - terreiro de café e edificação. 1970. Fotografia 017BRRJ005-027.jpg. Acervo Instituto Moreira Salles. 2,4 x 3,6 cm. Disponível em: <https://acervos.ims.com.br/portals/#/detailpage/79506>

    Coordenação: Ana Pessoa (FCRB), 2021

    Texto: Sávia Pontes Paz (Faperj/FCRB)

    Fotografias: Paulo Victor Figueiredo Alves responsável pela página “Fazendas Antigas”.

     

    Programa geral, tipologia e planta

    A casa passou por modificações como a construção da ala nova e outras interiores também percebidas na planta. No geral, seu programa interior possui à direita os quartos, sala íntima e salas de jogo. À esquerda ficam localizados outra sala íntima e mais quartos. No eixo central do corpo principal, um corredor dá acesso para a sala de jantar onde nela encontram-se duas portas ligando a ala original à ala nova, possuindo acesso pelos dois lados. Na ala nova localizam-se a cozinha e uma ampla copa com guarda corpo parecido ao da varanda principal.

     

     Piso 1, Área Social

    A área social da casa é composta pela sala de estar (4) acessada pela entrada principal e que leva por um corredor (13) até os fundos da casa para a sala de jantar (18). Na lateral esquerda, a varanda termina em uma capela (17), com altar de caixão em dois patamares, decorado com frisos azuis e dourados.

     

    Piso 1, Área Íntima

    Um dos quartos como encontra-se atualmente. O mobiliário existente não é o original da época.

     

    Piso 1, Área de Serviço

    A área de serviço (17) encontra-se na ala nova que foi construída afim de abrigar uma infraestrutura que atendesse às necessidades da cozinha, despensas, depósitos, lavanderias e aposentos. 

    ttt
    COM_CCK_Validar
    PTCD/EAT-HAT/11229/2009

    Please publish modules in offcanvas position.