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    Palácio do Ramalhete

    Palácio do Ramalhete
    XVIII
    1767
    Portugal
    Rua das Janelas Verdes, 96, 1200—690, Lisboa
    38.705437
    -9.160643
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    Caso pouco estudado, o Palácio Ramalhete, como é normalmente referido,  inclui-se numa rara tipologia de palacete pombalino, ligada a uma burguesia de altos funcionários e grandes comerciantes. Com uma linguagem pombalina de sobriedade e rigor de linhas, o Palacete Ramalhete emerge no seu programa arquitectónico como uma casa nobre, com o piso térreo para a entrada e serviços, o primeiro andar para piso nobre, o segundo piso para quartos, e o piso de águas furtadas para criadagem e arrumos. Numa linha contínua de heranças, o edifico permaneceu na família durante mais de dois séculos, mantendo os seus interiores um programa distributivo com poucas alterações, o que confere a este palacete um forte valor patrimonial.

     

    Inserido na malha da cidade, o palácio está em contacto directo com a rua das Janelas Verdes, junto ao Museu Nacional de Arte Antiga. Integra o canto sudeste do quarteirão limitado pela rua das Janelas Verdes, a Sul, a rua de São Domingos, a Nascente, o largo Dr. José Figueiredo, a Poente, e a rua do Olival, a Norte. É confinado a Poente por edifício contíguo e a Norte por um terreno murado pertencente a outra propriedade. A entrada da cocheira situava-se a Sul, na fachada principal. Pertence à freguesia de Santos-o-Velho e está implantado num terreno ascendente de Sul para Norte.

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    A morfologia do edifício assenta na composição de um prisma regular em “L”. A totalidade do edifício apresenta três pisos e cobertura (0, 1, 2 e 3). O aproveitamento da cobertura de duas e quatro águas, é pronunciado por quatro janelas trapeiras voltadas a Sul. O piso térreo compreende um conjunto de divisões ortogonais que comunicam quase exclusivamente para a Rua das Janelas Verdes. A comunicação com os pisos superiores faz-se por uma escada de pedra com dois lanços e um patamar, situada no canto direito do vestíbulo. O piso Nobre situado no primeiro andar, integra as salas de aparato junto à fachada Sul e um pequeno número de divisões no interior do palácio. No conjunto, as divisões são ortogonais e intercomunicantes, tendo ainda um corredor junto à caixa de escadas de comunicação com os pisos superiores. Este piso ocupa uma maior área do lote pelas características do terreno em que se insere, tendo na zona posterior um pátio que acresce de dimensão no piso 2. O último andar (2) corresponde a uma manutenção das divisões do andar Nobre com algumas divisões subdivididas. Mantém-se igualmente o pátio já referido e as divisões destinadas à antiga cozinha, situada no topo esquerdo, voltadas para o pátio. O piso da cobertura não é visitável pelo que não está inserido neste registo.

    morfo

    Frontaria voltada a Sul, para a rua das Janelas Verdes, em declive suave descendente para Este. É constituída por pano único, delimitado por cunhais de aparelho regular, com três pisos e águas-furtadas.

    O piso térreo, percorrido por embasamento pouco saliente, é marcado pela alternância de cinco vãos de moldura rectangular e quatro em arco rebaixado. Dos primeiros, o da esquerda é uma porta e os restantes são janelas inferiormente cegas e com o vão gradeado; os outros vãos são portas.

    No 2º piso abrem-se nove janelas de sacada com varandins de ferro forjado, salientes do friso separador, sendo alternadamente cinco de moldura rectangular e quatro de lintel com recortes laterais curvos.

    A separação para o 3º piso é igualmente feita por um friso liso e neste localizam-se nove janelas de moldura rectangular, no eixo das anteriores.

    Remate em cornija sob beiral.

    Sobre o telhado avultam os corpos de quatro trapeiras com janelas rectangulares.

    Fachada lateral oeste: adossada a edifício.

    Fachada lateral este voltada a uma escadaria que dá princípio à rua de S. Domingos, subindo de Sul para Norte com acentuada inclinação, sendo o embasamento oblíquo.

    É de pano único, delimitado à esquerda por cunhal e à direita por pilastra onde encosta o pano de muro do jardim com uma única porta rectangular.

    No piso térreo abre-se uma janela quadrangular e uma rectangular, esta quase ao nível das quatro janelas que marcam o 2º piso, à esquerda, em virtude do desnível do arruamento, sendo as duas primeiras cegas e todas de moldura rectangular. No piso superior quatro janelas rectangulares.

    Fachada posterior voltada a Norte, de frente para o jardim, com portas e janelas rectangulares.

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    CARITA, Hélder – “O Palácio Ramalhete, nas Janelas Verdes: uma tipologia de palacete pombalino”, in A Casa Senhorial em Lisboa e no Rio de Janeiro. Anatomia dos Interiores (dir. Isabel Mendonça, Hélder Carita e Marize Malta), Lisboa, Instituto de História da Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Rio de Janeiro, e Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio, 2014, pp. 190-207.

    FLORY, Suely Fadul – O Ramalhete e o Código Mítico: uma Leitura do espaço em Os Maias de Eça de Queirós, Lisboa, Ed. Caminho, 1984, pp. 69-114.

    Século XVIII

    1767 - o ouvidor e desembargador João Tavares de Abreu, casado com D. Maria Aldonsa Pereira de Aguirre, mandou edificar o palacete às Janelas Verdes, num local elevado voltado ao rio Tejo, onde existiam quatro pequenos edifícios, para o que dirigiu ao Senado da Câmara de Lisboa um pedido de cordeamento para realizar a obra. A obra foi concretizada segundo projecto atribuído a Reinaldo Manuel, dada a tipologia arquitectónica inovadora, e após vistoria da Câmara chefiada por Mateus Vicente de Oliveira.

    Década de 70 - decoração das salas do piso nobre com estuques relevados e azulejos da Real Fábrica do Rato.

    1779 - o palacete foi herdado por um sobrinho do primeiro proprietário, o desembargador Luís António de Sousa Tavares Abreu, habitando o andar nobre e arrendando o 2º a Henrique Pope, comerciante holandês.

    Século XIX

    1802 - após o falecimento do proprietário, a propriedade passou para a posse da viúva e prima D. isabel Joaquina Pereira Aguirre e o 2º andar foi alugado ao desembargador João Anastácio Ferreira Raposo.

    1820 - o palacete, herdado pela irmã da anterior proprietária, D. Angelina Inácia Pereira de Aguirre passou, após a sua morte, para as mãos do marido, Inácio José de Sampaio Freire de Andrade e foi alugado ao cônsul da Nação Britânica.

    Década de 40 - o edifício foi herdado por Manuel Inácio de Sampaio e Pina, governador-geral da capitania do Ceará, 1º visconde da Lançada.

    2ª metade - o então proprietário, 2º visconde da Lançada, morreu sem descendência e o palacete foi herdado pelo seu irmão, António de Sampaio e Pina de Brederode, casado com D. Maria Luísa de Sousa e Holstein, 3ª duquesa de Palmela, ficando o edifício a integrar os bens da Casa Palmela.

    1888 - publicação de Os Maias da autoria de Eça de Queirós, que, embora ficcionalmente, descreve assim o palacete - “A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no Outono de 1875, era conhecida na vizinhança da Rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela casa do Ramalhete ou simplesmente o Ramalhete. Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tímida fila de janelinhas abrigadas à beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de residência eclesiástica que competia a uma edificação do reinado da Sr.ª D. Maria I: com uma sineta e com uma cruz no topo assimilar-se-ia a um colégio de jesuítas. O nome de Ramalhete provinha decerto dum revestimento quadrado de azulejos fazendo painel no lugar heráldico do escudo de armas, que nunca chegara a ser colocado, e representando um grande ramo de girassóis atado por uma fita onde se distinguiam letras e números duma data."

    Século XX

    1910 – o edifício passou para a posse do 10º visconde da Asseca pelo seu casamento com D. Maria Luísa de Sousa e Holstein Beck, irmã do duque de Palmela, que aqui residiu até ao seu falecimento.

    Finais – o palacete foi herdado pela filha destes, Helena Maria Correia de Sá, casada com Vasco Scazzola Taborda Ferreira.

    Século XXI

    2011 – O edifício, ainda na posse da família dos viscondes de Asseca, foi transformado numa unidade hoteleira.

    CML, Arquivo Histórico Municipal de Lisboa, Livro de Cordeamentos de 1760-1789, processo (pedido de obra)de 2 de Maio de 1767.

    Coordenação: Isabel Mendonça / Helder Carita

    Julho de 2014

     

    Autoria dos textos referentes aos campos da ficha:

    Isabel Mendonça – Estuques

    Lina Oliveira – Arquitectura (Fachadas, Cronologia, Bibliografia) Azulejaria / Pintura Decorativa

    Tiago Molarinho Antunes – Arquitectura (Enquadramento Urbano e Paisagístico, Morfologia e Composição) / Programa Interior

    Piso 0

    O piso térreo possui um vestíbulo, com acesso ao piso nobre, através de uma escada em pedra, de dois lanços. O restante conjunto das divisões com desenho ortogonal destinadas a serviços, comunica quase exclusivamente com a rua das Janelas Verdes.

     

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    Piso Nobre (1)

    O primeiro andar e piso nobre desta residência corresponde a um conjunto de divisões de aparato, ortogonais e intercomunicantes, voltadas para a fachada principal com a rua das Janelas Verdes. O desenvolvimento deste piso faz-se com o aproveitamento do terreno onde o palácio se insere, acrescendo o número de divisões para a zona posterior, a Poente, onde se encontra o pátio. Os acessos a este piso correspondem à escada principal que liga o vestíbulo do piso térreo a uma divisão de distribuição, no piso 1, e uma entrada de serviço situada na parede nascente. O pátio tem ainda um conjunto de lanços de escadas, uma para aceder ao piso 2 e outras duas para aceder a espaços exteriores.

     

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    Piso 2

    O piso é composto por um conjunto de divisões ortogonais e intercomunicantes que de certo modo mantém o desenho em planta do piso 1, bastante claro nas divisões situadas junto á fachada principal. As restantes divisões que se desenvolvem para a zona posterior são, em alguns casos, subdivididas. O pátio aumenta a sua dimensão pelas características da implantação do edifício e algumas divisões da zona posterior voltam-se para o interior deste. Como exemplo, refiram-se as divisões afectas à cozinha, situadas a Poente do pátio, com acesso por uma escada exterior.

     

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    Piso 0, divisão 1

    Lambril de azulejos formando painéis rectangulares centrados por girassol amarelo dentro de medalhão circular com fundos marmoreados em manganês e azul, delimitados por cercadura de óvulos e motivos vegetalistas e intercalados por faixas verticais marmoreadas em azul, filetadas de amarelo, sobre rodapé marmoreado policromado com florões em manganês. Sobre a porta registo de azulejos recortados, figurando ao centro uma cabeça de anjo envolto por uma guarnição vegetalista de caules, folhas e flores em manganês sobre fundo azul marmoreado. No início da escada faixa vertical com motivo vegetalista estilizado de entrelaços em amarelo, seguindo-se painel triangular marmoreado em manganês e azul e dos lados da escada painéis oblíquos marmoreados das mesmas cores, centrados por girassóis amarelos. Último quartel do século XVIII.

     

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    Piso 1, divisão 1

    Lambris oblíquos de azulejos ladeando a escada, formando painéis marmoreados em manganês centrados por girassóis amarelos com molduras e fundos marmoreados em azul, encimados por frisos com série de volutas vegetalistas em amarelo e ladeados por faixas verticais de marmoreado azul, filetadas em amarelo. Na sala, lambris de azulejos formando painéis rectangulares marmoreados em manganês, com molduras azul-cobalto em fundo marmoreado azul-claro, delimitados por cercaduras de óvulos e motivos vegetalistas e intercaladas por faixas verticais azuis filetadas de amarelo. Último quartel do século XVIII.

     

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    Piso 1, divisão 2

    Lambris de azulejos de composição ornamental de padrão floral, de rosetas em azul alternando com pequenos quadrifólios dentro de molduras curvas, formando composição enxaquetada acantonada por florões amarelos, delimitados por barra composta por friso enastrado de azul com flores amarelas, seguido de marmoreado manganês e friso de óvulos em azul-cobalto, sobre rodapés marmoreados em manganês. Nos cantos, painéis estreitos formados pelos elementos das barras, rematados por pequenos florões amarelos. Último quartel do século XVIII.

     

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    Piso 1, divisão 3

    Lambril de azulejos polícromos formando painéis de composição ornamental, com padrão floral em manganês formando enxaquetado, sobreposto superiormente por festões polícromos, ladeados por consolas em azul-cobalto decoradas com folhagem em amarelo e delimitados por frisos arquitectónicos, o superior com palmetas em azul-cobalto encimado por motivos ovulados em amarelo. Os painéis maiores são centrados por grande florão em azul-cobalto, em moldura elíptica encimada por laço amarelo que segura os festões. Tudo sobre rodapés de azulejos marmoreados em manganês.

     

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    Piso 1, divisão 2

    Tecto de um plano, com sanca envolvente, compartimentado por molduras concêntricas que enquadram concheados e motivos vegetalistas entrelaçados. Relevos em branco sobre fundo branco. Estuques, de gosto rococó, atribuíveis ao 3º quartel do século XVIII.

     

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    Piso 1, divisão 3

    O tecto, de um plano e sanca envolvente, é decorado com concheados e motivos vegetalistas entrelaçados, enquadrados por moldura central de perfil oval. Relevos em branco sobre fundo branco. Estuques, de gosto rococó, atribuíveis ao 3º quartel do século XVIII.

     

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    Piso 1, divisão 4

    Tecto pintado com girassol central em cor-de-rosa, envolto em entrelaços volutados de folhagem estilizada e ramos de oliveira frutados, dentro de uma moldura circular contornada por cairelado fino com pequenas folhas de oliveira e azeitonas, em creme, cinzento, verde-seco e castanho, motivo que se repete ao redor da sanca, acantonado por florão que reproduz ¼ da composição central do tecto. Último quartel do século XVIII.

     

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    PTCD/EAT-HAT/11229/2009

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