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    Palácio da Ega

    Palácio da Ega
    XVII,XVIII
    Portugal

    José Manuel de Carvalho Negreiros (arquitecto); Manuel Caetano da Silva Girão (arquitecto); Fortunato Lodi (arquitecto); Cornelius Bourmeester (pintor de azulejos, atrib.); André Monteiro da Cruz (pintor decorador)

    Calçada da Boa Hora 30, 1300-095 Lisboa
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    Embora muito alterada no seu enquadramento urbano, a Quinta do Pateo do Saldanha, ou do Conde da Ega, foi durante séculos umas mais marcantes quintas dos arredores de Lisboa. Do seu programa arquitectónico destaca-se um conjunto de três portais de linhas clássicas e influência italiana que pela beleza de linhas testemunham a erudição da quinta no século XVI. Dos interiores a casa guarda uma das mais elaboradas salas da arquitectura senhorial em Portugal. De planta centralizada e coberta por uma vasta cúpula, a sala recebe um programa pictórico neoclássico de notável qualidade estética que se conjunta com um sequência de raros painéis de azulejos flamengos representando diversas cidades da Europa.    

     

    Inserido na malha da cidade no interior de um lote murado, o edifício é envolvido pelo jardim a Poente, fronteiro à fachada principal, a Sul e a Norte. Está localizado dentro do lote, na zona nordeste, afastado 40m. da calçada da Boa Hora, onde está o acesso ao interior do conjunto. Pertence à freguesia de Alcântara.

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    A morfologia do edifício assenta na composição de um prisma regular em “L”. O edifício apresenta hoje dois pisos com cobertura de duas e quatro águas. O andar Nobre situa-se no piso 1 e o acesso a este faz-se pela escada de aparato situada a Poente, a eixo do edifício, junto à fachada principal. A implantação do edifício no desnível do terreno limita o piso térreo a cerca de dois terços do volume de implantação do palácio que no piso 1 se estende para Nascente. O edifício é maioritariamente organizado por divisões ortogonais intercomunicantes e tem pontualmente alguns corredores, cujo mais significativo se situa no volume Nascente do piso Nobre.

    Voltada ao poente, para o pátio de entrada, arborizado e cercado por murete gradeado com portão de ferro forjado com motivos vegetalistas e geométricos. É composta por três corpos rectangulares percorridos por embasamento e delimitados por cunhais de cantaria, com dois pisos divididos por friso de cantaria, salientando-se o corpo central pelo recuo do piso superior dos laterais e sendo o da direita prolongado por um passadiço.

    Ao centro abre-se portal em arco pleno sobre pilastras e encimado por pedra de armas onde se inscreve porta de madeira com bandeira de ferro vazada e envidraçada. Ladeiam-no duas janelas de peitoril de moldura rectangular recortada e perfilada, encimadas por espelhos curvos com medalhões elípticos envoltos em decoração vegetalista sob dupla cornija e frontão curvo concheado, encimado por pináculo bojudo e ladeadas por colunas toscanas sobre plintos duplos e rematadas por pináculos piramidais. No eixo de cada janela, no piso 1, outra de moldura rectangular, de sacada com varandim de ferro forjado. Remate em beiral sobre cornija.

    Nos corpos laterais o piso 0 é marcado por uma arcada serliana centrada por arco pleno sobre colunas, entre dois vãos menores de verga recta encimados por aberturas rectangulares transversais; de cada lado abre-se uma janela de moldura rectangular. O piso superior é recuado e antecedido de terraço ladrilhado, com guardas de ferro intercaladas por balaústres de pedra para o qual se abrem cinco portas-janelas de moldura rectangular simples em cada fachada frontal e uma de cada lado do corpo central.

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    Fachada lateral Sul

    Voltada ao jardim, provido de grande tanque de rebordo curvilíneo, com acesso por passadiço elevado com conversadeiras, três portas e um alpendre. Possui dois corpos alinhados e separados por pilastra: o da esquerda, extenso, com dois pisos, e o da direita, mais estreito, correspondente à sala Pompeia, que possui mais um piso.

    No corpo da esquerda, o piso 0 é percorrido por embasamento pouco saliente e possui oito janelas de peito gradeadas de moldura rectangular simples, seguindo-se mais três janelas idênticas no corpo da direita. No piso 1 abre-se, a eixo dos vãos inferiores, o mesmo número de janelas de sacada, com varandins de ferro rectangulares sob cornija diminuta em cada corpo, encimando as do corpo da direita três janelas rectangulares transversais que marcam o piso 3. O remate é em beiral sobre cornija e o corpo da direita, superiormente delimitado por cunhais encimados por grandes urnas de pedra, eleva-se num alto telhado de quatro águas contracurvadas, encimado por um lanternim paralelepipédico vazado por seis janelas. A fachada posterior do corpo da sala Pompeia, voltada a Nascente, tem um piso visível correspondente ao andar nobre, dividido em dois panos, o da esquerda saliente, rasgado por uma janela rectangular, e o da direita com duas janelas; no ângulo, abre-se uma porta-janela de moldura rectangular.

     

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    Fachada lateral Norte

    Voltada para um pequeno pátio longitudinal calcetado e parcialmente ajardinado, provido de um estreito corredor lateral rebaixado que percorre a fachada do corpo da esquerda, saliente, com três panos, simétricos em área, divididos por pilastras, sendo os extremos mais estreitos. O pano central tem dois pisos com sete portas-janelas de moldura rectangular, encimadas pelo mesmo número de janelas transversais; no pano da esquerda apenas uma porta-janela rectangular e no da direita, de três pisos, sobre a porta-janela abrem-se duas janelas transversais a eixo. O remate é em cornija.

    Na parede do mesmo corpo, voltada a Oeste, abre-se no piso 0 uma porta-janela e em cada piso superior uma janela rectangular transversal.

    O pano correspondente à sala Pompeia, delimitado por cunhais rematados por urnas, possui embasamento e três portas-janelas rectangulares rematadas por cornijas diminutas e duas janelas transversais gradeadas rentes ao chão, que iluminam o piso 0.

    Corpo à direita com dois panos, no 1º, três portas-janelas rectangulares sob pequenas cornijas; rente ao chão o mesmo número de janelas gradeadas transversais; no piso superior uma janela de peito rectangular; no 2º pano, duas janelas de peito gradeadas e uma rente ao chão. Na parede voltada a Nascente, uma janela rectangular sob cornija. Remates em beiral.

    Apoio

    Instituto de Investigação Científica Tropical/Arquivo Histórico Ultramarino.

     

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    AA.VV. – Relatórios da intervenção nas pinturas decorativas do Salão Pompeia, no Palácio da Ega, Cacém, Escola Profissional de Recuperação do Património de Sintra, 1996-1999.

    ABRANTES, Maria Luísa – “Arquivo Histórico Ultramarino”, in Dicionário da História de Lisboa (dir. de Francisco Santana e Eduardo Sucena, Lisboa, 1994, pp. 89-91.

    ALVES, Artur da Mota – “O Palácio do Páteo do Saldanha. Alguns documentos para a sua história”, in Anais das Bibliotecas, Museus e Arquivo Histórico Municipais, nº 16,Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, 1935, pp. 31-33.

    ARAÚJO, Norberto de – Inventário de Lisboa, fasc. 4, Lisboa, 1946.

    BRAGA, Helena Sofia Ferreira – “A pintura mural do Salão Pompeia: estudo histórico, artístico e programático”, in Estudos de História da Arte: novos contributos, Lisboa, Câmara Municipal / Departamento do Património Cultural, 2002.

    BRAGA, Helena Sofia Ferreira – “Sobre a Sala Pompeia do Antigo Palácio da Ega”, in A Casa Senhorial em Lisboa e no Rio de Janeiro – Anatomia dos Espaços Interiores (dir. de Isabel Mendonça, Hélder Carita e Marize Malta), Lisboa, Instituto de História da Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Rio de Janeiro, Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2014, pp. 382-403.

    COSTA, Pe. António Carvalho da – Corografia Portuguesa. Braga: Tipografia de Domingos Gonçalves Gouvea, 1869.

    CRUZ, Maria Cristina de Carvalho Barbosa da – A Casa Nobre dos Saldanhas no sítio da Junqueira, dissertação de mestrado em História da Arte apresentada à Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, 2006.

    IRIA, Alberto – “A instalação definitiva no palácio da Ega: História e Descrição do Edifício”, in Boletim do Arquivo Histórico Colonial, Lisboa, Junta de Investigação do Ultramar, vol. I, 1950, pp. 19-54.

    SIMÕES, J. M. dos Santos – “Os Azulejos Holandeses do Palácio Saldanha”, in Revista e Boletim da Academia Nacional de Belas-Artes, Lisboa, nº 1, 1949, pp. 48-79.

    VALE, Teresa e GOMES, Carlos e Figueiredo, Paula (2007) – Palácio da Ega / Arquivo Histórico Ultramarino; ficha IPA.00006536, IHRU, 1994. http://www.monumentos.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=6536

    Século XVII

    1600, 24 Março – Aires de Saldanha, recém-nomeado vice-rei da Índia, instituiu o morgado da Junqueira nas casas nobres que fez construir em terrenos do dote de sua mulher, D. Joana de Albuquerque.

    1604 – após o falecimento de Aires de Saldanha no regresso da Índia, sucedeu-lhe no morgadio o seu herdeiro, António Francisco de Saldanha.

    1683 – João de Saldanha e Albuquerque deu início a uma longa campanha de obras de transformação e ampliação do seu palácio.

    1695 – o arquitecto João Antunes surgiu como tracista de umas casas de João de Saldanha de Albuquerque na Junqueira.

    Século XVIII

    1701/1710 – continuação das obras: demolição da antiga capela, construção do salão nobre.

    1712 – conclusão das obras do palácio, com casas amplas, duas varandas, um jardim no meio e outro em baixo, com muitas fontes artificiais e naturais e amplos pomares, segundo descrição de Carvalho da Costa.

    1715 – data provável da colocação no salão nobre dos painéis de azulejos representando portos marítimos europeus, atribuídos a Cornelis Boumeester.

    1750 – execução dos azulejos figurativos azuis e brancos, existentes num gabinete.

    1758 ­ Manuel de Saldanha e Albuquerque foi nomeado vice-rei do Estado da Índia por D. José, dele recebendo o título de 1º conde da Ega.

    1779 – o filho do 1º conde, Aires José Maria de Saldanha e Albuquerque Coutinho Matos e Noronha, recebeu de D. Maria I o título que fora de seu pai, com direito a auferir de rendas e mercês por serviços prestados pelos seus antepassados, recuperando comendas, alcaidarias-mores, capelas e tenças, o que lhe permitiu proceder à recuperação do seu palácio que estava em estado de ruína.

    1780 – a direcção das obras coube ao arquitecto José Manuel de Carvalho Negreiros que assinou contratos com mestres-pedreiros, carpinteiros e cantoneiros para a reedificação do palácio, introduzindo-lhe profundas modificações no exterior e interior.

    1783 – início das obras, para as quais o conde solicitou e obteve da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Freguesia dos Mártires um empréstimo de 4.800.000 réis. Parte das estruturas pré-existentes no salão nobre foi adaptada para colocação de uma cúpula elíptica apoiada em oito colunas de madeira, ficando então este espaço a ser conhecido por sala das colunas.

    1789 / 1795 – data provável de execução de estuques e de pinturas decorativas na sala das colunas e noutras salas do palácio, algumas a cargo do pintor André Monteiro da Cruz. A temática iconográfica pintada no salão nobre colheu inspiração nas gravuras reproduzidas em livros dedicados às escavações arqueológicas de Herculano e Pompeia e levou à nova denominação deste espaço como sala Pompeia.

    Século XIX

    1808 – acusado de colaborar com os franceses, o conde da Ega foi obrigado a abandonar o país, partindo com a família para o exílio. O palácio foi então sequestrado pelo Juízo da Inconfidência e utilizado como Hospital Militar.

    1813 – o estado de conservação do palácio era muito mau: chovia no seu interior e os madeiramentos estavam podres; neste ano realizaram-se importantes obras custeadas pela Fazenda e dirigidas pelo arquitecto Manuel Caetano da Silva Girão, com o objectivo de transformar o Palácio em residência e quartel-general do marechal William Beresford.

    1814: – o Arsenal Real das Obras Militares pagou 11:220$566 em peças de mobiliário.

    1815, Julho – Beresford dirigiu uma petição ao rei, no Rio de Janeiro, para que lhe fizesse doação da propriedade, mas esta não se concretizou.

    1838 – após prolongada demanda jurídica, os Saldanha, absolvidos e regressados a Portugal, são finalmente autorizados a retomar a propriedade.

    1842 – aquisição da quinta pelo conselheiro Jerónimo de Almeida Brandão e Sousa, futuro barão da Folgosa.

    1843 / 1846 – execução de obras significativas, da responsabilidade do arquitecto Fortunato Lodi, incluindo acessos pedonais e obras nos interiores.

    Século XX

    1919 – o palácio foi comprado pelo Ministério das Colónias para instalação da Escola de Medicina Tropical do Hospital Colonial.

    1931 ­ o Arquivo Histórico Colonial instalou-se no edifício.

    Coordenação: Isabel Mendonça / Helder Carita

    Julho de 2014

     

    Autoria dos textos referentes aos campos da ficha:

    Alexandre Lousada – Azulejaria

    Lina Oliveira – Arquitectura (Fachadas, Cronologia, Bibliografia) / Pintura Decorativa

    Tiago Molarinho Antunes – Arquitectura (Enquadramento Urbano e Paisagístico, Morfologia e Composição) / Programa Interior

    Piso 0

    O piso 0 ocupa cerca de dois terços da implantação do palácio no terreno. É composto por diversas divisões ortogonais intercomunicantes, sendo excepção uma divisão cujo desenho de meia-circunferência se situa junto à fachada principal. Junto a esta, situa-se a escada de aparato, de lanços rectos. Esta escada tem dois lanços paralelos que se unem no patamar intermédio de onde partem dois outros lanços a eixo, para Nascente e Poente. Sobre o lanço de escada superior situa-se uma pequena fonte. As divisões situadas a Norte da escada estão voltadas para um pátio interior, enquanto as divisões voltadas a Sul comunicam directamente com o jardim.

     

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    Piso 1

    O andar Nobre mantém de forma geral a organização do piso inferior, seguindo a organização das paredes-mestras, por divisões ortogonais intercomunicantes. Neste piso, o palácio desenvolve a sua composição com um acrescento de volume a Nascente. O andar nobre apresenta-se elevado em relação ao jardim junto à fachada Sul, sendo que na fachada Norte se encontra à cota do terreno, situação que se verifica no volume Nascente a Sul.

     

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    Piso 1, divisão 1

    Painéis em azul e branco com vistas dos portos de Antuérpia, Roterdão, Midelburgo, Hamburgo, Veneza, Londres, Colónia e Constantinopla, atribuídos ao pintor flamengo Cornelius Bourmeester. Inícios do século XVIII.

     

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    Piso 1, divisão 3

    Painéis em azul e branco com cenas de caça ao javali e cenas galantes em paisagens campestres e marinhas, delimitados por uma cercadura com concheados e folhagens. Rodapé com azulejos esponjados. 2ª metade do século XVIII.

     

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    Piso 1, divisão 1

    Tecto abobadado, paredes e colunas com pintura decorativa “pompeiana” da década de 1810, atribuída a Nicolas-Louis Albert Delerive com restauros efectuados em 1843-1846, por Fortunato Lodi. Composição centrada por um anjo rodeado por uma reserva com doze secções decorada com grutescos. Interior da abóbada dividida em oito secções com frisos de grinaldas de frutos e quadrículas com florões e mascarões. Remate inferior com uma platibanda decorada com reservas com figuras de dançarinos, encimada por anjos com instrumentos musicais e urnas com flores. Base da cúpula com um friso de enrolamentos vegetalistas, cabeças de cão e grifos. Painéis enquadrados por grutescos com cenas do poema “Metamorfoses” de Ovídio, inseridas em medalhões, intercaladas por figuras mitológicas (Penélope, Leda e o Cisne, Deméter e Dafne). Remate superior da parede com um friso decorado com enrolamentos vegetalistas estilizados. Pilastras com grutescos alternados por painéis com figuras femininas e outros painéis com grutescos que encimam vãos de portas e janelas e um nicho. Sobreportas com painéis decorados com cenas mitológicas. Oito colunas com pintura decorativa sobre tela com um friso em espiral de grinaldas de flores e marmoreados.

     

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    Piso 1, divisão 2

    Tecto em caixotões com molduras, formando uma reserva central, oito planos esconsos e quatro cantos, com pintura decorativa da 1ª metade do século XIX. Painel central com uma cena composta por anjos segurando uma rede e pombos, beijando-se. Painéis laterais com alegorias mitológicas enquadradas por arabescos e reservas com flechas, mascarões e grinaldas.

     

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    PTCD/EAT-HAT/11229/2009

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