Palacete da Quinta dos Lilases

    Palacete da Quinta dos Lilases
    Academia Portuguesas de História
    XIX
    1886-1897
    Portugal

    Manuel Norte Júnior (arquiteto); José Maria Simões Júnior, Carlos Francisco Rufino, António Vitorino da Costa (construtores); Manuel Chibante (pedreiro)

    Alameda das Linhas de Torres, 198-220 Lisboa
    38.7707298632496
    -9.15966819236292
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    Apresentação

    O palacete da Quinta dos Lilases é um edifício situado no lado oriental da Alameda das Linhas de Torres, artéria para a qual está voltada a fachada principal. Na origem era uma casa de habitação que fazia parte de uma quinta de recreio, que corresponde hoje ao lado noroeste do parque recreativo das Quintas das Conchas e dos Lilases. Tendo sido objeto de obras de ampliação e embelezamento, realizadas entre o final do século XIX e o início do século XX, nele se destacam a fachada principal de estilo eclético, forrada de azulejos de cor turquesa (já não os originais). O mais relevante fica no lado voltado para a Quinta, correspondendo a uma construção em ferro e vidro, com um passadiço desenhado pelo arquiteto Norte Júnior, em 1916.

        

     

    Enquadramento Urbano e Paisagístico

    O palacete ergue-se numa área urbana, com a fachada principal voltada para a Alameda das Linhas de Torres. A área envolvente, a oeste e a sul, está inserida no Parque das Quintas das Conchas e dos Lilases, ficando o palacete no ângulo noroeste desse parque. Na altura da aquisição da quinta, por parte de Francisco Mantero, em 1897, confrontava com a Quinta de Pimentel Leão (a norte), com a vinha de Aurora Francisca Ribeiro Ferreira (a nascente) e com os terrenos da Quinta das Conchas (a sul). Nessa época, a estrutura da quinta compreendia duas zonas: a social, com casa principal, picadeiro, jardim de inverno, cavalariças (demolidas), pavilhões do lago e campo de ténis; e a agrícola, a nascente, com celeiros e abegoarias. Existia ainda um extenso roseiral e uma área florestal. O palacete conserva ainda grande parte da arquitetura original, mas, em seu torno, com exceção da Quinta das Conchas, foram surgindo urbanizações que alteraram o carácter inicialmente rural e de veraneio, sobretudo a partir das últimas décadas do século XX.

        

    [1] Alameda das Linhas de Torres, fot. Armando Serôdio, 1968, © AML – Ref. PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-SER-009071

     

    Morfologia e Composição

    Embora apresente uma fachada principal praticamente simétrica, o edifício desenvolve-se para trás de forma orgânica, articulando vários corpos de dimensões diferenciadas, construídas em épocas diferentes. O núcleo original da casa, de carácter habitacional, é aquele que se situa junto da rua, desenhando uma planta em T. Este corpo é prolongado para oriente com um outro corpo em L, formando um pátio interior ajardinado do lado norte. Juntando todas as partes da casa, a sua planta forma um U aberto a norte.

    A parte principal da casa corresponde sobretudo ao núcleo mais antigo, junto à rua. Com três pisos, o Piso 0, tem acessos em todas as fachadas, sendo o principal feito pela Alameda das Linhas de Torres. Ao centro da casa fica a escada principal que permite a passagem para os pisos superiores. O Piso 1 é acessível por essa escada, mas tinha também porta para as traseiras, com uma escada exterior; para além de outra escada na fachada sul que acede a uma varanda, onde está outra porta.  Posteriormente, recebeu duas outras passagens, uma delas pelo corpo em L que prolonga a fachada sul da casa; a outra pelo passadiço envidraçado que liga a zona central da casa à marquise nordeste. O Piso 2 corresponde ao sótão, sendo somente acessível pela escada central. Não existindo dados que confirmem as funções de cada piso, é de assumir que as áreas sociais se distribuíssem entre os pisos 0 e 1, e que a zona privada da família estivesse remetida para o piso 2.

    O corpo em L tem apenas dois pisos, sendo formado por um corpo mais longo e estreito (sentido oeste-este), que desemboca numa construção retangular mais larga (sentido sul-norte). As divisões do Piso 0 eram destinadas a serviços da casa e da quinta, incluindo, nessa época, uma capoeira e uma adega. Em cima, do lado nordeste, foi construída uma marquise envidraçada, que servia como jardim de inverno. Em 1916, esta marquise foi ligada ao núcleo central por um passadiço em ferro e vidro desenhado pelo arquiteto Norte Júnior.

          

    Núcleo Habitacional

     

    Fachada Principal

    Dentro de um estilo eclético, revestida a azulejos de padrão de cor turquesa, a fachada principal desenvolve-se em três pisos, ao qual se sobrepõe o sótão. A fachada é ladeada por cunhais e divide-se simetricamente em cinco panos separados por pilastras lisas de cantaria. Um lambril de cantaria percorre toda a área inferior da fachada; um soco de cantaria marca a separação entre os pisos. Os pisos inferiores são os mais largos, com doze vãos, quatro no pano lateral norte, três no lado sul; um vão em cada pano intermédio; e três vãos no pano central.

    Os panos laterais têm dois pisos, sendo coroados por cornija saliente, sobrepujada por um friso de esferas e merlões escalonados de inspiração mudéjar, atribuído ao pedreiro Manuel Chibante (FERREIRA, 2006). Sob a cornija está um friso em banda denticulada, interrompido por mísulas sob os merlões com esferas. Os panos intermédios elevam-se por mais um piso, com um óculo elíptico. O pano central, mais elevado, é coroado por frontão triangular, tendo também um óculo elítico no tímpano. Na junção dos panos intermédios com o central, estão aletas onduladas, remetendo para a arquitetura barroca.

    Os vãos do Piso 0 têm moldura reta, chanfrada nos panos laterais, com exceção da porta principal, com moldura em arco abatido (ladeada por duas janelas de peito), assim como os vãos dos panos intermédios, com janelas de peito, cujas ombreiras descem até ao chão. Estas molduras em arco abatido são decoradas por um fecho, que recorda as molduras dos vãos da arquitetura pombalina. Segundo Rosa Ferreira, a porta principal apresentava a pedra de armas da família Mantero: escudo esquartelado com o lema: «Éste es Velarde, que la sierpe mató y con la infanta casó», associado a Calderón e Boca Negra, de 1502 (FERREIRA, 2003). É de referir que no passado, as três primeiras janelas da ala norte eram janelas fingidas, com pinturas exteriores de dissimulação de grades.

    No Piso 1, os vãos dos panos laterais e intermédios são de peito, sendo de volta inteira nos laterais e retos nos panos intermédios. No pano central, sobre a porta, estão três janelas de sacada, de moldura reta, com varanda de cantaria de secção curva, sustentada por seis modilhões de cantaria, com guarda de ferro forjado. Sobre este piso, no pano central, está o Piso 2, com três vãos, o central de sacada e os laterais de peito, todos de moldura reta. A janela de sacada é protegida por uma varanda, idêntica à do Piso 1, embora mais estreita.

          

     

    Fachada Sudeste

    Formando um L, com dois pisos, esta fachada corresponde à parte mais antiga da casa. O Piso 0 é antecedido por um alpendre com colunas de capitéis toscanos, sendo sobrepujado por uma varanda com guarda de ferro forjado. Esta varanda é hoje descoberta, mas foi uma marquise onde ficava o oratório da família, que possuía um retábulo neorrenascença, removido antes da demolição da estrutura metálica, o que terá ocorrido entre 1963 e 1968 (FERREIRA, 2003). A marquise possuía um telhado de duas águas e, na fachada sul, era encimada com um frontão triangular, cujo tímpano exibia a palavra: «Lilases».

    No Piso 0 há duas portas e dois vãos de sacada, estes com moldura em arco abatido, voltados a oriente; uma das portas, voltada a sul, é ladeada por duas janelas de peito. No Piso 1, há seis vãos, um deles sendo também uma porta. A varanda é acessível por uma escada que parte do Piso 0, no lado sul. Do lado este, a fachada é rematada por cornija sobreposta por merlões semelhantes aos da fachada principal; do lado sul é rematada por beiral.

        

    [1] Palacete da quinta dos Lilases, fot. Artur Goulart, 1963, © AML – Ref. PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/AJG/004968

     

    Fachada Este e Norte

    A fachada este do núcleo principal está voltada para o pátio interior, começando a partir do corpo em L (a sudoeste) e sendo novamente interrompida a norte pelo passadiço em ferro e vidro que vai dar à marquise. Ao centro tem três pisos, tendo o Piso 0 uma porta ao centro. O Piso 1 tem três vãos de peito, mas tinha inicialmente uma escadaria com dois lanços simétricos de ligação ao exterior. No lado norte tem uma marquise em ferro e vidro, que, no Piso 0, é sustentada por colunas também de ferro. O Piso 2, correspondendo ao sótão, possui cinco vãos de peito, existindo ainda um vão na empena situada sobre esse piso.

    A fachada norte do núcleo principal, segue na continuação da fachada oeste do mesmo núcleo. Os arcos de volta inteira, que preenchem parte dessa fachada, foram realizados nos anos 80 do século XX.

          [2]

    [2] Imagem retirada do Google Earth

     

    Fachadas do Corpo em L

    Fachada Sul

    O lado sul, datado de 1907, é mais sóbrio e teria uma função de apoio à casa. Dividido em dois corpos, o primeiro é mais largo que o segundo, estando também mais recuado.  No Piso 0, tem uma fonte decorada com azulejos e, do lado direito, um arco que permite a passagem para o pátio interior a norte. As dez janelas do Piso 1 são todas de peito e de moldura reta. O corpo mais a oriente é mais saliente e mais elevado, sendo acessível através de um curto lanço de escadas que vai dar a um terraço, para o qual se abre uma porta da casa. As cinco janelas de sacada do Piso 1 são protegidas por guarda em ferro forjado. No andar inferior foi instalada uma cozinha, tendo, sobre ela, um salão (Piso1) (MECO, 2000). Ambos os corpos (central e oriental) são rematados por beiral saliente.

          

     

    Fachada Este

    Mais interessante é a fachada onde está a marquise, do corpo em L, que data de 1897 e 1907. Divide-se em três corpos, sendo o do lado esquerdo a continuação da fachada sul. Apresenta um cunhal de cantaria sobre a esquina, tendo três frestas na parte correspondente ao Piso 0 (onde foi instalada a cozinha); no Piso1 apresenta três janelas de sacada com varanda saliente sustentada por mísulas, com guarda de ferro forjado (que iluminavam um salão).

    O corpo central tem também dois pisos, apresentando o Piso 0 uma porta em arco abatido, com batentes de ferro forjado com ornamentação geométrica simulando uma arcatura neomedieval. A porta é ladeada por duas janelas de peito e, adossados às paredes, de cada lado da porta, estão dois bancos de pedra afrontados. O Piso 1 deste corpo é composto por uma marquise de ferro e vidro (Jardim de Inverno), sobreposta por claraboia ao centro, um pouco mais elevada. Ao nível das guardas da marquise, o ferro desenha uma decoração com flores de lis estilizadas. Nos vidros, os motivos em ferro simulam arcos trilobados. O desenho da fachada da marquise prolonga-se para as restantes fachadas deste corpo. Sobre as fachadas está um beiral de ferro saliente, que, na ligação às colunas, desenha motivos espiralados, dentro do gosto Arte Nova. O corpo mais a norte desta fachada tem apenas um piso, sendo sobreposto por um terraço, com guarda de ferro, que é acessível pela marquise.

        

     

    Fachadas Oeste e Norte

    As fachadas oeste e norte do corpo em L estão ambas viradas para o pátio interior. A oeste está a fachada que acomoda o terraço e a marquise, que é interrompido pelo passadiço em ferro forjado que une a marquise ao núcleo principal. De assinalar, uma escada que desce da marquise para o nível térreo, formada por dois lanços curvos convergentes, partindo de cada lado do passadiço. Do lado sul desta fachada fica o início do corpo em L, com dois pisos e telhado de beiral. Passando à fachada norte do corpo em L, esta é idêntica à fachada sul deste mesmo corpo, embora com menor número de vãos.

            

     

    Passagem envidraçada

    Situada no exterior da casa, na área do jardim interior, esta passagem em vidro e ferro forjado une o núcleo habitacional da casa à marquise, pelo lado norte. O Piso 0 é composto por uma sucessão de arcos abatidos, sustentados por colunas, de capitel coríntio, sendo o tímpano preenchido com volutas. No Piso 1 a área correspondente à guarda é decorada com formas quadrangulares ornamentadas por pequenas rosetas ao centro. A faixa superior envidraçada insere-se numa moldura composta por uma sucessão de arcos que formam janelas geminadas com vidro transparente (que inicialmente seria martelado e trabalhado). Superiormente é rematado por elementos em espigão com volutas. O conjunto rítmico e modular faz corresponder a cada arco quatro quadrados e a cada quadrado dois arcos. A ornamentação dá continuidade à marquise do corpo em L e à marquise do núcleo principal.

          

     

    Documentação

    Arquivo Municipal de Lisboa

    As plantas da casa, que estão disponíveis no Arquivo Municipal de Lisboa, dão conta das alterações realizadas ao longo do tempo, começando em 1897, no núcleo principal, com a proposta de criação de uma marquise do lado norte, sendo posterior a varanda sobre um alpendre do lado sul (1898). É nesta fase que a casa assume a configuração de um T (com simetria da fachada principal). Data ainda de 1897 a construção de um segundo edifício a oriente da casa, mas dela separado. Este será ligado ao corpo principal em 1907. Por fim, já em 1916, é construído um passadiço que duplica, a norte, a ligação entre o núcleo principal e a marquise nordeste.

    1)

    «Projecto d’um terraço que o Ex.mo Snr. Francisco Mantero deseja construir ao lado do seu predio N.ºs 268-269 e 270 da Estrada do Lumiar alteração da frente para o jardim e muros de vedação», © Obra: 29393, Processo: 3682/1.ªREP/PG/1897, folha 2.

    A ala norte da casa (que faz simetria com a ala sul) não existia, sendo a fachada oeste do corpo intermédio diferente do que é atualmente. Onde hoje está uma janela era uma porta; terminava no Piso 1 e era rematada por uma platibanda com balaustrada. A proposta de Francisco Mantero foi de construção de um corpo que forma uma marquise no Piso 1, adossada à parede norte, sustentada, no piso 0, por quatro arcos abatidos sobre colunas. A marquise era visível sobre o muro virado para a rua. Este corpo foi alargado e transformado em área habitável depois de 1950, como se depreende da cartografia de Lisboa datada entre 1950 e 1970 [cf. Lisboa Interactiva, https://websig.cm-lisboa.pt/].

    2)

    «Alteração na fachada da marquise contigua ao predio n.º 269 da Alameda do Lumiar», © Obra: 29393, Processo: 517/1.ªREP/PG/1898, folha 2.

    Este documento mostra que a marquise inicialmente prevista, que era visível na rua do lado noroeste, é agora ocultada por um muro de cantaria. O trabalho é entregue ao pedreiro Manuel Chibante.

    3)

    «Projecto de um terraço que o Ex.mo Snr. Francisco Mantero deseja levantar junto do seu prédio na estrada do Lumiar», © Obra: 29393, Processo: 4823/1.ªREP/PG/1899, folha 2.

    Este documento refere-se a uma construção adossada à fachada sul, com um alpendre ao nível do piso térreo, e uma varanda no Piso 1, com seis colunas, sobreposta por um telhado de duas águas. Na frente sul, a varanda é rematada por um frontão triangular, que teria a inscrição: «Lilazes».

    4)

    «Ampliação do predio n.º 269 da Estrada do Lumiar, requerida pelo Ex.mo Snr. Francisco Mantero», © Obra: 29393, Processo: 2328/1.ªREP/PG/1899, folha 2.

    Este documento corresponde a um pedido de Francisco Mantero para ampliar o prédio para sul, com um corpo semelhante ao que mandara construir a norte. Nele podemos observar que mandou colocar uma «varanda envidraçada» (que foi retirada entre 1963-1968) (cf. fot. Artur Goulart, 1963).

    5)

    «Ampliação do predio n.º 269 da Estrada do Lumiar, requerida pelo Ex.mo Snr. Francisco Mantero», © Obra: 29393, Processo: 4036/1.ªREP/PG/1907, folha 2.

    Memória Descritiva: «Esta obra consiste em ampliar a casa designada na planta geral pela letra A e construir uma marquise em ferro e vidro sobre um terraço existente, construir um novo terraço e dois anexos destinados a gaiolas, ampliar a casa destinada ao porteiro designada pela letra B, ficando tanto as construções como a canalisação de esgôto em conformidade com as posturas em vigor».

    Corresponde este documento à construção do corpo em L, que fecha o jardim junto da casa, a sul, aproveitando construções pré-existentes. A anterior construção data de setembro de 1897, correspondendo a um Piso 0 destinado a capoeiras, com escadas de acesso ao nível superior onde ficaria um terraço. Com esta alteração, o Piso 0 é votado a espaços de apoio à casa, incluindo uma adega (nordeste), duas gaiolas (sudeste), um tanque e uma carvoeira (sudoeste). Neste documento assinalam-se os alçados referentes à marquise, bem como as gaiolas, depois demolidas.

    «Projecto de substituição de sotão que Francisco Mantero pretende fazer na sua casa situada na Alameda das Linhas de Torres, N.º 66, Quinta dos Lilases ao Lumiar», © Obra: 29393, Processo: 4198/1.ªREP/PG/1914, folha 3.

    Documento referente à alteração do sótão, que foi ampliado, o que conferiu ao edifício a aparência actual. Do lado norte, sobre o corpo central, o Piso 2 (sótão) foi alteado, sendo acrescentado o frontão triangular na fachada principal. Sobre os corpos intermédios foi acrescentado um piso de menor altura.

    «Projecto de passagem envidraçada de comunicação que o Ex. Sr. Francisco Mantero deseja faser na sua casa situada na Quinta dos Lilazes - Alameda das Linhas de Torres no 3.º bairro, © Obra: 29393, Processo: 5708/1.ªREP/PG/1916, folha 3.

    Documento com o selo de Norte Júnior no canto superior esquerdo. Apresenta o projecto da passagem em ferro e vidro que vai unir a marquise do corpo em L com o núcleo habitacional da casa. De destacar o desenho do ferro forjado, com motivos decorativos clássicos cruzados com elementos Arte Nova.

     

     

    Bibliografia

    Arquivo Municipal de Lisboa, Obra n.º 29393.

    FERREIRA, Rosa Trindade (2003). O Lumiar a História e a Arte; Subsídios para o Estudo do Património Artístico dos Séculos XVI a XIX, Vol. II. Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa (Tese de Doutoramento).

    Ferreira, Rosa Trindade (2006). Quinta dos Lilases, Contributos para a sua história. Lisboa: Academia Portuguesa de História.

    FERREIRA, Rosa Trindade, LEMOS, Fernando (2008). Nova Monografia do Lumiar. Junta de Freguesia do Lumiar.

    MECO, José (2000). «Quinta dos Lilases». In Monumentos e Edifícios Notáveis do Distrito de Lisboa, Vol. V, 4.º Tomo, 2.ª Parte. Assembleia Distrital de Lisboa, pp. 288-289.

    TERENO, Paula (2018), «Edifício da Quinta dos Lilases / Academia Portuguesas de História». In SIPA [http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=35946], cons. 27 de Janeiro de 2024.

     

     

    Cronologia e Proprietários

    Século XIX

    1886, 11 de Maio - Pedido de Francisco Cesar Batalha (proprietário), à Câmara Municipal de Lisboa, para, no seu prédio, sito na Alameda do Lumiar n.ºs 268, 269 e 270, alterar as dimensões da porta n.º 268, tornando-a em tudo igual à porta de entrada.

    1897 – A casa foi adquirida por Francisco Mantero e Velarde, nascido em Porto Real (Cádis), a 4 de Outubro de 1853. Com o seu tio Francisco de Assis fundara a Companhia da Ilha do Príncipe e a Sociedade de Agricultura Colonial. Fora também fundador das Companhias de Cabinda, do Cazengo (Angola), de Timor, dos Prazos do Lujela (Moçambique). Foi presidente da Câmara do Comércio Espanhol em Lisboa.

    1897, 2 de Agosto - Francisco Mantero pede à Câmara Municipal de Lisboa autorização para construir «um terraço contiguo ao prédio que possue na Estrada do Lumiar (…), bem como fazer alteração na fachada do jardim metendo novo lanço de escada, ampliar retrete e fazer muros de vedação (…)». A obra é entregue ao engenheiro José Maria Simões Júnior.

    1897, 24 de Agosto - Francisco Mantero diz à Câmara Municipal de Lisboa que adquiriu um «trato de terreno à Quinta das Conchas» e «resolveu ampliar o seu prédio».

    1897, 3 de Setembro - Francisco Mantero pede à Câmara Municipal autorização para edificar, no terreno «situado no tardoz» da casa, uma construção destinada a capoeiras, com um terraço no Piso 1. Essa construção é o primeiro componente do corpo em L, que depois seria unido ao núcleo habitacional da casa.

    1897, 13 de Setembro - Francisco Mantero pede à Câmara Municipal de Lisboa autorização para construir uma cocheira, cavalariça e casa para caseiro. As obras ficam a cargo do construtor José Maria Simões Júnior.

    1898, 28 de Janeiro – Projeto de alteração do alçado da marquise que fica do lado norte da fachada, cuja obra fica a cargo do pedreiro Manuel Chibante.

    1898, 21 de Junho - Francisco Mantero pede à Câmara Municipal de Lisboa autorização para transformar as portas dos corpos intermédios em janelas.

    1899, 31 de Maio - Francisco Mantero pede à Câmara Municipal de Lisboa autorização para ampliar o prédio para Sul, com um corpo semelhante ao que mandou construir a Norte.

    1899, 7 de Novembro - Francisco Mantero pede à Câmara Municipal de Lisboa autorização para construir um terraço com varanda, com colunas suportando um frontão, com a inscrição “Lilazes”, que fica no lado voltado a sul.

    1907, 3 de Junho - Novo projeto, para construção da marquise em ferro e vidro sobre o terraço existente (Jardim de Inverno).

    1912, 29 de Abril – Fase de conclusão da obra, com a construção de um muro, a cargo do construtor Carlos Francisco Rufino.

    1914, 3 de Junho - Alteração e ampliação do sótão.

    1916, 24 de Setembro - Francisco Mantero pede à Câmara Municipal de Lisboa autorização para construir, na parte traseira do imóvel, uma passagem envidraçada entre a casa e a marquise, ao nível do segundo andar, com projeto de Norte Júnior, ficando a obra a cargo do construtor António Vitorino da Costa.

    1928, 23 de Abril – Morte de Francisco Mantero.

    1942, 6 de Junho – A casa pertence à viúva, Maria Amélia Belard Mantero (1870-1952), que pede à Câmara Municipal de Lisboa autorização para «que as três falsas janelas do rez-do-chão do seu palacete sejam pintadas e fingidas de forma a ficarem parecidas com as verdadeiras janelas do mesmo andar que têm grades, como sempre se fez e é tradicional no dito palacete». Nesse pedido, ela diz que «tambem como meus filhos consideramos solar de família e desejamos conservar com o seu primitivo aspecto».

    1963, 16 de Outubro - A propriedade pertence ao filho Carlos Mantero Belard (1895-1980) (residente em Cascais) e está em estado de abandono.

    1968 – Os herdeiros procederam à venda das quintas dos Lilases e das Conchas à Câmara Municipal de Lisboa.

    2007, 23 de Março - Despacho do diretor municipal de Cultura da Câmara Municipal de Lisboa a determinar a abertura do processo de classificação. Em 10 de Maio desse ano é publicado no Boletim Municipal n.º 690, o Edital n.º 34/2007 classificando como Imóvel de Interesse Municipal.

    2010 – Pertence à EPUL (Empresa Pública de Urbanização de Lisboa).

    Atualidade – A EMEL (Empresa de Mobilidade e Estacionamento de Lisboa) ocupa o Piso 0; e o Piso 1 é ocupado pela Academia Portuguesa de História.

     

     

    Observações

    Coordenação Helder Carita

    Autoria dos textos: Margarida Elias Junho, 2024

     

     

    Piso 0

      

    Pode considerar-se que há uma solução labiríntica na distribuição das divisões da casa nos seus três pisos (FERREIRA, 2003). O Piso 0, tem acessos em todas as fachadas, sendo o acesso principal feito pela Alameda das Linhas de Torres. Da porta principal chega-se a um corredor que atravessa a casa na direção oeste-este, tendo ao centro a escada que permite a passagem para os pisos superiores. De ambos os lados ficam várias divisões, mais amplas a norte, intercomunicantes a sul – sendo que do lado norte ficava uma sala designada “dos retratos” e a sala do bilhar; a sul ficava o escritório de Francisco Mantero (FERREIRA, 2003). A maioria das divisões tem iluminação vinda do exterior, sendo a escada iluminada por claraboia. A entrada principal da casa dá lugar a um pequeno vestíbulo, que tem dois arcos de volta inteira, um deles dando passagem para o corredor que atravessa este piso; o outro dando acesso à escada.

        

     

    Piso 1

      

    O Piso 1 apresenta uma configuração relativamente diferente, visto que há mais um corredor perpendicular ao corredor central na direção norte-sul. Há também uma maior subdivisão das salas, sendo todas elas intercomunicantes, duas delas interiores. Duas divisões, a oriente, seriam a cozinha e a casa de banho, com acesso ao exterior, por um terraço (depois marquise) com escadas para o nível térreo. Mais tarde, foram criados o corpo em L e o passadiço, formando uma ligação entre o núcleo habitacional da casa e o núcleo da marquise. Ao nível do Piso 1, entrando por uma porta do lado sul, temos um pequeno vestíbulo, com um lanço de escadas, que permite a passagem para um corredor, que distribui para as restantes divisões. No tempo da família Mantero este seria o andar nobre, onde ficava o salão principal. Segundo Rosa Ferreira, os tetos deste salão «patenteavam a harmonia entre estuques ornamentais e pinturas a fresco, objecto de contemplação dos convidados para acontecimentos sociais promovidos pela família. Testemunhas oculares descrevem com agrado as cenas representadas com figuras humanas voando entre mantos de nuvens» (FERREIRA; 2006).

          

     

     

    Piso 2

    O Piso 2 corresponde ao sótão, que é mais estreito que os pisos anteriores. Depois de uma ampliação em 1914, ficou com maior número de divisões, distribuídas em torno da escada central, quatro delas (a ocidente) iluminadas por claraboias, para compensar o facto de não terem janelas para o exterior. Sobre este piso existe mais um andar, ao nível da empena, que corresponderá a um segundo sótão mais pequeno.

     

     

    Do revestimento original de azulejos resta apenas o que ficou nas paredes interiores do piso térreo. É talvez de fabrico lisboeta ou da Fábrica das Devesas. São azulejos de padrão relevados com motivos vegetalistas e florais, vidrados, monocromáticos e de cor turquesa. O lambril é superiormente rematado por um friso de inspiração Arte Nova, em verde azeitona sobre fundo branco, com estilização de motivo flor-de-lis. Os azulejos que revestem a fachada principal datam de 1973, sendo provenientes da fábrica Viúva Lamego.

    O alto espaldar de azulejos de uma fonte da fachada sul, foi criado em 1974 por João Segurado (n. 1920) (MECO, 2000). Tratam-se de azulejos azuis e brancos formando motivos vegetalistas estilizados. Este fontanário substituiu um que antes ali existia, que era de embrechados, composto de elementos marítimos, como conchas, búzios, estrelas do mar e pequenas pedras (cf. FERREIRA & LEMOS, 2008).

        

     

    Cantaria decorativa

    Cantaria que se encontra sobre uma porta da marquise, na fachada oriente do núcleo principal, que originalmente seria numa porta para o exterior. Corresponde a uma moldura circular, hoje vazia, sobre um arco quebrado, decorada com volutas e elementos vegetalistas. Rosa Trindade Ferreira atribuiu a autoria desta cantaria a Norte Júnior (FERREIRA, 2003).

     

    Ferro forjado

    No salão (Piso 1) destacam-se as portas com decoração em ferro, pintadas de vermelho, na mesma cor do lambril de madeira que contorna a sala. O ferro desenha motivos geométricos e vegetalistas estilizados.

    As marquises (núcleo principal nordeste e marquise oriental do corpo em L) e o passadiço são construídos em ferro e vidro. Dentro de um espírito eclético, o ferro desenha alguns motivos decorativos que remetem sobretudo para uma ornamentação clássica. Destacam-se os capitéis coríntios das colunas e as flores de lis das guardas na marquise do corpo em L. De estilo Arte Nova serão as volutas que preenchem os tímpanos dos arcos do passadiço.

        

     

     

    Ladrilho hidráulico

    O ladrilho hidráulico na escada do lado sul, forma um lambril ao longo da escada e reveste o pavimento da varanda. Apresenta uma decoração simples com um padrão de estrelas de oito pontas em amarelo e vermelho.

      

     

     

    Vitral

    Vitral da porta do lado oriental do corpo em L. É de uma tipologia comum nas construções dos finais do século XIX e início do século XX, cujo desenho é inspirado nos modelos Arte Nova, mas remete também para uma arcatura medieval.

     

     

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    PTCD/EAT-HAT/11229/2009

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