Casa Piedade Costa

    Casa Piedade Costa
    XVII,XVIII,XIX
    Goa
    Majorda, Goa
    15.279939212607847
    73.96277191779104
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    Apresentação

    Localizada em Goa na região de Majorda, a Casa Piedade Costa constitui, pela sua complexidade, um notável exemplo de arquitetura civil, integrável nos mais antigos programas de casa goesa dos séculos XVI e XVII.  Localizada numa zona de terreiro, a Casa Piedade Costa é envolvida por densa mata tropical, onde se destacam os elementos arquitetónicos que compõe o complexo arquitetónico da Casa Piedade Costa, respetivamente um cruzeiro, um tanque sagrado, uma capela, e duas habitações de períodos distintos.

     

     

    Enquadramento Urbano Paisagístico

    Estabelecendo-se a capela como o núcleo central do conjunto arquitetónico, no seu eixo de entrada alinham-se o cruzeiro e o tanque sagrado, desenvolvendo-se simetricamente nas áreas laterais duas habitações. A habitação com uma estrutura recuável ao século XVII, localizada ao lado direito da capela, é complementada por um corpo arquitetónico axial enquanto alpendre. No mesmo lado, e de forma a marcar a entrada na habitação, o pátio de recebimento encontra-se entre a casa e a capela, cuja área é fulcral para a receção dos convidados.

            

     Complexo arquitetónico Piedade Costa: a) Alçado da capela e corpo residencial do século XVII/XVIII - b) Cruzeiro e Capela da Nossa Senhora da Piedade - c) Casa do século XVII/XVIII - d) Casa do Século XIX - e) Terreiro

     

    Cruzeiro

    Os cruzeiros presentes nas igrejas e capelas goesas assumem uma morfologia muito caraterística, fortemente influenciados pelas stebas, o que lhes permite diferenciar dos cruzeiros portugueses. As bases dos cruzeiros eram consideradas como a área de receção da divindade, e para tal eram idealizadas enquanto sacrário, o que contribuía para a monumentalidade deste elemento arquitetónico. Não obstante da importância arquitetónica do cruzeiro, esta estrutura era incluída no culto cristão, pois os fiéis podiam andar em torno do cruzeiro, ou colocavam uma vela nos nichos inseridos na base do cruzeiro.

                

    a) e b): Cruzeiro da Casa Piedade Costa – c): Vista para o cruzeiro a partir da capela - d) Cruzeiro da Igreja de Kaloopara Tiruvala – e): Ritual cristão em torno do cruzeiro - f): Steba do Templo de Tripunituzha em Kerala – g): Steba do Templo de Kali em Kerala

     

    Tanque Sagrado

    Caso único na arquitetura indo-portuguesa, em frente à Capela da Nossa Senhora da Piedade está localizado um tanque de água, integrável numa tradição tanques sagrados dos templos hindus. Considerando o eixo axial entre composto pelo cruzeiro, tanque de água e capela, o tanque sagrado sugere existência de um templo hindu na área ocupada por este terreiro.

              

    a), b), c): Tanque sagrado em frente à Capela da Nossa Senhora da Piedade, d): Tanque sagrado do Templo de Kanchipuram Talmil Nadu no sul da Índia, e) Tanque sagrado do Templo de Velinka em Goa, f) Tanque sagrado do Templo de Mahalsa em Goa

     

    Capela

    Estabelecendo-se como núcleo central do complexo arquitetónico, a capela está localizada entre as duas habitações, incluindo-se no eixo axial formado pelo cruzeiro, tanque sagrado e entrada da capela. A fachada é composta por uma matriz maneirista com apontamentos barrocos, atestado pelo frontão contracurvado e o pelos bolbos. Esta capela repete a fachada de três tramos, um central e dois laterais compostos por torres ligeiramente recuadas.

            

    a), b), c): Capela da Nossa Senhora da Piedade - d): Capela em Bardez, Goa - e): Capela dos Pintos de Arporá - f): Capela do Monte em Chandor

     

    Pátio de Recebimento

    Localizado entre a capela e a habitação do século XVII/XVIII, situa-se um elemento caraterístico das casas senhoriais portuguesas e indo-portuguesas, o pátio de recebimento. Este elemento era um espaço de transição para o interior da residência, adequando-se à hierarquia presente nas relações sociais das castas. Embora esteja presente na arquitetura civil goesa, este elemento foi importado a partir do programa arquitetónico português, tendo como exemplos os pátios de recebimento do Palácio de Palhavã ou da Quinta das Carrafochas.

              

    a) b): Pátio de recebimento da Casa Piedade Costa – c): Pátio de recebimento do Palácio de Palhavã, d): Pátio de Recebimento da Quinta das Carrafouchas, e): Pátio de Recebimento do Palácio dos Condes de Nova Goa; f): Pátio de Recebimento da Casa dos Pintos de Santa Cruz

     

    Casa do século XVII / XVIII

    No lado direito da capela, situa-se o corpo residencial que remonta ao século XVII e é um exemplo a presença do programa arquitetónico português aplicado no contexto indo-português. Um dos exemplos que atesta tal facto, é a justaposição das janelas de sacada sem a alternância de pilastras, tal como se encontra nos palácios contemporâneos de Portugal. O piso térreo é marcado pelas janelas de carepas, cuja tipologia é recorrente nas casas indo-portuguesas, e o primeiro pelas janelas de sacada pautadas pelas guardas.

    A par da presença das guardas, por debaixo das sacadas localizam-se as mísulas, enquanto elemento de suporte, e são também um elemento marcante do programa arquitetónico português em Goa. Nas mesmas janelas, localiza-se na área superior um apontamento de influência barroca, tal como se encontram nos palácios portugueses.

        

    a) b): Casa da família Piedade Costa do século XVII/XVIII – c): Janelas de Carepas da habitação do século XVII/XVIII

     

    Casa do Século XIX

    Articulada simetricamente no complexo arquitetónico com o outro corpo residencial, este edifício do século XIX é composto por dois pisos com uma varanda corrida ao longo do piso nobre. No primeiro piso, a varanda corrida apresenta guardas de madeira sissó com a tonalidade azul e branca, contudo a decoração é marcada por motivos vegetalistas e florais, ao gosto do século XIX. O arco que remata a janela de sacada é o arco quebrado, apontando para a presença da vertente neogótica.

        

    a) b): Casa da família Piedade Costa do século XIX – c): Janela da varanda corrida da habitação do século XIX

     

    Pormenores

    Janelas de carepas

    A tipologia de carepa marca uma presença assídua na paisagem urbanística goesa, pois é possível encontrá-la nas casas abastadas desta região. As janelas de carepas são instaladas em caixilharia de madeira com fasquias verticais, e preenchidas com placas de ostra.

    Devido ao clima tropical húmido e quente do Sul da Índia, a ventilação nas habitações era um aspeto a considerar, e as janelas de carepa tinham um papel relevante na solução desta problemática. As placas de ostra eram sobrepostas em escama, de modo a aumentar a ventilação nestas habitações.

            

    a), b), c), d), e): Janelas de carepas no complexo arquitetónico da família Piedade de Costa

     

    Guardas das janelas de sacada e varanda

    As guardas das janelas são elaboradas em madeira sissó, uma espécie autóctone caraterizada pela sua qualidade e durabilidade. Ambas são entalhadas, e apresentam uma temática vegetalista e floral sob a tonalidade azul e branca.

            

    a), b), c): Guardas da janela de sacada da habitação do século XVII/XVIII – e), f): Guardas da varanda corrida da habitação do século XIX

     

    CARITA, H. (1999). The Palaces of Goa: Models and Types of Indo-Portuguese Civil Architecture. Londres: Cartago Ed.

    CARITA, H. (2008). Arquitectura Indo-Portuguesa na região de Cochim e Kerala. Lisboa: Fundação Oriente

    CARITA, H. (2023).  Janelas de Carepas em Goa: Origens e Variantes Tipológicas. In 4º Congresso Internacional de História da Construção Luso-Brasileira, 13-17. Lisboa: Universidade do Minho

    DALGADO, S. (1919). Machila. in Glossário Luso-Asiático. Coimbra: Universidade de Coimbra

    MENDES, A. (1886). A India Portugueza – Breve descripção das possessões portuguezas na Asia. Lisboa: Imprensa Nacional

    Coordenação: Helder carita

    Texto: Marcelo Varandas

    Fotografia: Helder carita e Joaquim Santos

    Piso 0

    Corredor

    Na sequência de entrada do piso térreo, desenvolve-se um largo espaço enquanto núcleo de distribuição da casa, localizando-se ao fundo um lanço de escada de forma a aceder ao piso nobre. Do lado direito do corredor, estão localizadas duas entradas, em que a primeira dá acesso a um quarto, e a segunda dá entrada até à sala de jantar. Ao fundo do corredor encontra-se uma porta, em que permite entrar noutro quarto da casa. No lado esquerdo, situam-se três entradas, onde a primeira dá acesso a uma área de serviço, utilizada pelos criados da família, a segunda é direcionada até um segundo pátio, e a terceira garante a entrada para o alpendre da casa, também usado como área de serviço.

    a): Corredor do piso térreo da habitação do século XVII/XVIII

     

    Sala de Jantar

    Ao corredor de entrada, entre as zonas de serviço localizam-se a sala de jantar. O teto desta sala é caraterizado pelos barrotes pintados de branco, cuja função era suportar o pavimento do piso nobre.

          

    a), b), c) e d): Sala de jantar da habitação do século XVII/XVIII

     

    Alpendre

    Anexado à fachada norte da habitação e posicionado numa área exterior da casa, o alpendre é uma extensão da habitação e era utilizado pela criadagem da família. A proximidade entre esta área de serviço e outras divisões do piso térreo, tais como os quartos ou sala de jantar, era propositado de forma a agilizar os movimentos entre estas áreas.

    a): Alpendre da habitação do século XVII/XVIII 

     

     

    Piso 1

    Varanda

    Depois de subir as escadas, a primeira divisão a que se acede é a varanda. Devido à extensão longitudinal deste espaço, o que presentemente é apresentado como varanda, é provável que esta área tivesse sido o vasary. O vasary era uma das divisões mais importantes das casas indianas, pois era utilizado pelas altas castas para realizar rituais. Nesta divisão é possível encontrar uma diversidade de mobiliário, como por exemplo o móvel que remonta ao estilo setecentista.

            

    a): Área da varanda na planta do primeiro piso da casa do século XVII/XVIII – b), c), d), e): Varanda da casa do século XVII/XVIII

     

    Quartos e guarda-roupas

    Localizados a nascente e a poente na fachada norte, os guarda-roupas e os quartos são divisões simbióticas. Os guarda-roupas podiam ser equipados com mobiliário utilitário, como por exemplo arcas, um tocador, ou um bengaleiro. Através dos guarda-roupa era possível aceder aos quartos da família, localizados na fachada sul. Sendo uma das divisões exclusivas aos elementos familiares, era no quarto onde repousavam é onde se encontra o mobiliário de conforto para tal efeito, como por exemplo as camas.

          

          

    a), b), e), f): Área dos quartos e guarda-roupa na planta do primeiro piso da casa do século XVII/XVIII, – c), d), g), h): Áreas de guarda-roupa e quartos da casa do século XVII/XVIII

     

    Sala Grande

    Localizado entre os quartos e a varanda, a sala grande é caraterizada pelas suas dimensões e era utilizada como zona social, embora estivesse localizada no andar reservado à família. É possível encontrar nesta divisão algum mobiliário de conforto, como por exemplo cadeiras, canapé ou mesas. O teto desta sala é elaborado em madeira, onde se encontra uma moldura oval ao centro, e é complementada pelas pinturas nas extremidades superiores das paredes. Esta pintura foi executada através da técnica de estampilha, e é disposta sob a forma de lambrequim, que por sua vez é idêntica à pintura da Casa Santana da Silva.

        

    a), b), c): Sala grande da habitação do século XVII / XVIII

     

    Capela

    Caraterizada pela sua nave única, a Capela da Nossa Senhora da Piedade é pautada pela gramática arquitetónica maneirista. Composta pelo altar-mor e um lateral, os arcos de volta perfeita delineiam a sua entrada e são decorados pela pintura. O teto do altar-mor contrasta com a gramática arquitetónica da capela, uma vez que a abóboda de aresta foi considerada em detrimento da abóboda recorrente da época maneirista, a abóboda de canhão, e é marcada pela conjugação de duas vertentes decorativas, a pintura e o estuque. Simetricamente alinhados nas laterais da capela-mor, situam-se dois óculos que atestam a vertente classicista da capela, e compunham uma parte da iluminação do altar-mor.

            

    a), b): Capela da Nossa Senhora da Piedade – c): Altar lateral – d): Altar-mor – e): Abóboda de aresta do altar-mor

     

    Pintura

    Estampilha

    O ornato sob a forma de estampilha está presente nos arcos de volta perfeita da capela, e na extremidade superior das paredes da sala grande. Através da temática vegetalista, a pintura delineia a forma do arco de volta perfeita da capela, onde o vermelho contrasta com o amarelo. A pintura de estampilha da sala grande do corpo residencial mais remoto é representada sob a forma de lambrequim, e através da cor castanha.

    As pinturas de estampilha da capela e da sala grande assemelham-se às pinturas presentes em outra casa goesa, o Palácio Santana da Silva.

          

    a): Pormenor da pintura de estampilha no arco de volta perfeita do altar-mor, b) Arco de volta perfeita do altar-mor, c): Pormenor da pintura de estampilha na Sala Grande, d): Pintura de estampilha na Sala Grande

     

    Padrão

    Aplicada nas abóbodas de aresta do altar-mor, esta pintura é baseada na alternância entre a forma de cruz e quadrada, sob o fundo pintado com o castanho. A forma da cruz é pautada pela cromática castanha e amarela, em que ao centro situa-se duas formas semicirculares dispostas em espelho, e rematadas nas extremidades verticais por folhagens. A figura quadrada é marcada pela decoração pautada pela alternância cromática azul e branca. 

        

    a), b): Pormenor da pintura de padrão na abóboda de aresta do altar-mor – c): Abóboda de aresta do altar-mor

     

    Estuque

    Na Capela da Nossa Senhora da Piedade o estuque encontra-se no arco de volta perfeita, delineando o seu formato, e é pintado de forma a representar os veios do material pétreo. Este tipo de representação, idêntica ao material pétreo, também marca a sua presença nas casas senhoriais portuguesas. Ainda no mesmo elemento arquitetónico, e elaborados com o mesmo material, estão localizados nas áreas laterais o ornato sob a forma de querubim.

    Na cobertura do altar-mor, é possível observar a conjugação do estuque com a pintura nas abóbodas de aresta. Neste caso, o estuque relevado é utilizado para delinear as duas formas presentes, nomeadamente as linhas exteriores da cruz, e, de menores dimensões, a forma quadrada delineia as linhas exteriores da representação da cruz.

          

    a): Pormenor vegetalista em estuque, b): Pormenor de querubim em estuque, c) e d): Estuque relevado na abóboda de aresta

     

    Mesa de encosto

    Na varanda é possível encontrar um móvel de século XVII/XVIII, nomeadamente uma mesa de encosto. A madeira de sissó foi utilizada na sua elaboração, e a gramática decorativa aplicada ao estilo barroco, especificamente tardo-joanino. Esta decoração é sustentada pelos pés em garra, pelos motivos vegetalista e pela voluta. Nas faces deste móvel, é possível encontrar uma decoração talhada composta por folhagens, conchas, e duas figuras semicirculares dispostas em espelho.

    a): Mesa de encosto ao estilo João V

     

    Machila

    De acordo com Sebastião Rodolfo Dalgado, a machila é um meio de transporte utilizado pela alta sociedade na Índia e também na África Oriental. Com a forma de um leito portátil, as machilas eram produzidas em madeira e suspensas por um varal de bambu espinhoso, e era segurado por quatro machileiros. A fim de proteger a pessoa transportada das condições climatéricas, a machila podia dispor de um «tenda», em caso de chuva, ou «tendilhão», em caso de calor.

        

    a) e b): Machila – c): Desenho de machila por Lopes Mendes

     

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    PTCD/EAT-HAT/11229/2009

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