Palacete da Rua Mouzinho da Silveira

    Palacete da Rua Mouzinho da Silveira
    Sede do Instituto da Vinha e do Vinho
    XIX
    1887
    Portugal

    Frederico Augusto Ribeiro (Construtor Civil) (1896)

    Mouzinho da Silveira, 5, 1250-165 Lisboa
    38.72211
    -9.15010
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    O Palacete da Rua Mouzinho da Silveira, n.º 5, é um edifício construído no final do século XIX, no Bairro Barata Salgueiro. Edifício de gaveto, entre as ruas Mouzinho da Silveira e Alexandre Herculano, é um Palacete relativamente discreto, de estilo eclético, conjugando elementos da arquitectura neorrenascentista de estilo francês com uma torre de inspiração gótica, no ângulo inicialmente voltado para o jardim.

                                                                        

    Situado na freguesia de Santo António, é um prédio de gaveto, ocupando a esquina entre a Rua Mouzinho da Silveira e a Rua Alexandre Herculano. Insere-se no Bairro Barata Salgueiro, cujos arruamentos começaram a ser abertos em 1882, formando uma malha ortogonal que articula a Avenida da Liberdade com os lugares de São Mamede e do Rato. Era inicialmente um bairro destinado à alta burguesia, cuja arquitectura se caracterizava sobretudo por palacetes de estilo eclético e inspiração francesa, de que hoje ainda subsistem alguns exemplares, como o caso presente.

    Originalmente o edifício integrava um jardim que se estendia até à Rua Rosa Araújo, onde existia uma cocheira. O espaço em torno do jardim seria murado, com um portão na Rua Mouzinho da Silveira que dava acesso à entrada do Palacete. A entrada nobre da casa fazia-se pela fachada voltada a Sul, resguardada da rua pelo jardim, inserindo-se na tipologia de Pátio de Recebimento.

    O Palacete é um edifício de gaveto, sem qualquer porta directa para a rua. O piso inferior (Piso 0), apresenta-se como cave do lado das ruas Mouzinho da Silveira e Alexandre Herculano, e piso térreo do lado Sul, devido ao ligeiro declive da Rua Mouzinho da Silveira nessa direcção. A planta é de base rectangular, com a frente mais larga voltada para a Rua Mouzinho da Silveira, sendo o canto exterior (Nordeste) em curva. No canto oposto (Sudoeste) está uma torre de secção circular, remetendo para os castelos medievais, reforçando o ecletismo da arquitectura do edifício.

       

    Sendo um edifício de gaveto, os alçados das ruas Mouzinho da Silveira e Alexandre Herculano são complementares e idênticos, apresentando uma arquitectura sóbria, embora eclética e inspirada no estilo neorrenascentista francês. Ambas as fachadas apresentam dois pisos principais com janelas de sacada, com recorte em arco abatido, tendo ainda um piso de cave e um de mansarda. Cada piso é separado dos restantes por cornija saliente. Pilastras, unindo os pisos no sentido vertical, sublinham os cunhais, e separam ou unem as sacadas. Lendo a fachada a partir da Rua Mouzinho da Silveira, esta apresenta uma largura de quatro vãos, ficando na esquina outros três vãos, que continuam para a Rua Alexandre Herculano, mais estreita, com apenas três vãos. Ao nível da cave (Piso 0), o número de vãos é o mesmo, correspondendo a aberturas simples no revestimento de cantaria. As janelas do piso nobre (Piso 1) apresentam protecção de balaustrada de pedra, as do piso superior (Piso 2), de balaustrada de ferro forjado. Do lado direito, na Rua Alexandre Herculano, vê-se um muro que corresponde ao terraço, que tem também uma balaustrada de pedra. O muro termina com um segundo portão de acesso ao jardim pelas traseiras.

       

    Importa aqui destacar a fachada voltada a Sul, que corresponde à entrada principal da casa. Apresenta o mesmo número de pisos, mas, neste caso, o piso inferior (Piso 0), não é revestido de cantaria. Todos os pisos têm a largura de três vãos. Um elemento significativo desta fachada é a torre do lado esquerdo, que se ergue um piso acima do último andar, servindo de mirante. Tanto na torre, como no rés-do-chão (menos no último piso), os vãos das janelas têm uma moldura de jambas de dimensões alternadas, que acentuam a simulação de uma fortificação medieval. Um aspecto a considerar na leitura deste edifício é o facto de ele ser mais alto do lado Sul do que do lado Norte. Deste modo, o Piso 0, está ao nível térreo na fachada Sul, permitindo a abertura de uma porta para a rua. Contudo, originalmente, a entrada fazia-se através de uma escadaria que dava acesso ao Piso 1.

    A fachada ocidental é a menos visível, por estar voltada para o jardim, tendo o mesmo número de pisos, com a largura de seis vãos, dos quais, os mais à esquerda são mais largos; entre as sacadas do lado direiro estão dois vãos mais estreitos. O vão mais largo do Piso 1 dá acesso ao terraço. Sobre este vão, encontram-se três mísulas que sustentam um balcão com guarda de ferro forjado.

       

              

    O edifício apresenta detalhes construtivos e decorativos com algum interesse estético, que o integram no estilo eclético historicista típico do fim de século XIX. Destacam-se os florões nos topos das pilastras; bem como as consolas em voluta que sustentam a varanda da esquina Nordeste. Outro detalhe interessante é a carranca masculina que decora o fecho da moldura da janela da varanda do canto Noroeste, voltada para o terraço. Sobressaem ainda os vãos da mansarda, sobrepujadas por um pequeno frontão triangular, unido à moldura da janela através de uma cartela barroca. O elemento mais diferenciador é a torre neogótica no canto Sudoeste, coroada por um telhado cónico sobrepujado de catavento. As janelas do último piso da torre têm uma moldura de recorte neomanuelino.

    Arquivo Contemporâneo do Ministério das Finanças, «Distrito de Lisboa, Freguesia de Coração de Jesus, Ano de 1907 a 1908, Autos de Liquidação, para registo por título gratuito por transmissão de herança de D. Amelia Leite Ferreira, residente que foi na Rua Mouzinho da Silveira n.º 7, Falecido em 17 de fevereiro de 1908».

    Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Paróquia do Campo Grande, Livro de Registo de Casamentos, 1855-1887.

    Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Paróquia do Coração de Jesus, Livro de Registo de Óbitos, 1895, 1908.

    Arquivo Nacional da Torre do Tombo, 7.ª Conservatória do Registo Civil de Lisboa, Registo de Óbitos, 1934.

    CARITA, Hélder, «Casa de Pátio de Recebimento: Uma Tipologia de Casa Nobre dos Séculos XVI e XVII», in Actas do 5.º Congresso Internacional Casa Nobre – Um património para o futuro, Município de Arcos de Valdevez, 2020, pp. 785-799.

    FEVEREIRO, António Francisco Arruda de Melo Cota, «Genealogia, Dados Biográficos e obra de arquitetos, artistas e construtores civis portugueses do século XIX e XX», in Raízes e Memórias, n.º 29, Dezembro de 2012, pp. 241-292.

    PEREIRA, Maria da Conceição Freire de Brito, Acção e património, Da Junta Nacional do Vinho (1937-1986), Lisboa, Universidade Aberta, 2007.

    QUEIROZ, José Francisco Ferreira, «A Casa do Campo Pequeno, da família Pinto Leite Enquadramento e abordagem preliminar a uma habitação notável do Porto Romântico», in Revista da Faculdade de Letras, Ciências e Técnicas do Património, Porto, 2004, I série, Vol. III, pp. 183-215.

    SANTOS, Aníbal, «Bairro Barata Salgueiro, do Ecletismo Aristocrático ao Peso da Terciarização», in Entre Colinas, Ed. 6, Maio de 2019 [https://issuu.com/anibalsantos8/docs/entre_colinas_-_revista_n.__6_-_maio_de_2019/s/10122754]

    SEQUEIRA, G. De Matos, Depois do Terremoto, Subsídios para a História dos Bairros Ocidentais de Lisboa, Vol. II, Lisboa, Academia das Ciências de Lisboa, 1917.

    SILVA, Maria Raquel Henriques da, As Avenidas Novas de Lisboa, 1900-1930, Lisboa, Universidade Nova de Lisboa, 1985 (Tese de Mestrado)

    SILVA, Raquel Henriques da, in «Os Últimos Anos da Monarquia, Desenvolvimento Urbanístico. Os Novos Bairros», in Moita, Irisalva (Coord.), O Livro de Lisboa, Livros Horizonte, 1994, pp. 405-424.

    Internet:

    https://www.ancestry.com

    https://geneall.net

    Século XIX

    1838 – Nascimento de D. Amélia Leite Ferreira, na Baía, filha de Manuel Pinto Leite (1813-1876) e Ana Carlota de Sá Leite (1817-1885).

    1865 - D. Amélia Leite Ferreira casou com Augusto Ferreira Pinto (1.ªs núpcias) no Oratório de Sebastião Pinto Leite, 1.º Visconde da Gandarinha (1815-1892), que foi padrinho de casamento.

    Data desconhecida – D. Amélia em viúva de Augusto Ferreira Pinto e casa com Manuel Alves Gonçalves Ferreira (2.ªs núpcias).

    1887 - Projeto de «Construção de um prédio / pertencente a D Amelia Leite Ferreira / situado no angulo formado pelas ruas Mouzinho da Silveira e Alexandre Herculano / Freguesia do Coração de Jezuz». Nesse ano manda também construir um prédio num terreno contíguo: «situado na rua Castilho, entre as ruas de Alexandre Herculano e n.º 2 com frente também para a rua Mouzinho da Silveira», ocupando o lado ocidental do quarteirão do Palacete. O construtor deste prédio foi Manuel António dos Santos.

    1895 – Falecimento de Manuel Alves Gonçalves Ferreira, proprietário.

    1896 – Projecto para aproveitar o «vão do madeiramento para nele fazer pavimento assoalhado, forrar, e abrir quatro pequenas lucarnas, ficando ao centro com os três metros de pé direito e sendo a superfície a assoalhar, de doze metros e oitenta por sete metros e dez, total noventa metros e oitenta e oito metros quadrados (...)». Projecto para alterar a entrada da porta: «desejando construir uma cobertura de ferro e vidro sobre a escada que tem dentro do jardim». Ambos os trabalhos foram realizados pelo mestre de obra Frederico Augusto Ribeiro (1853-1925).

    Século XX

    1908 – Falecimento de D. Amélia Pinto Leite, que deixa a casa para a sua sobrinha D. Honorina Nogueira Vaz (1876-1934), nascida no Brasil (Pernambuco) e casada com Artur Carneiro Vaz (1877-1933).

    1938 - O edifício é ocupado pela Junta Nacional do Vinho, criada pelo Decreto-Lei nº 27 977 de 19 de Agosto de 1937 (herdeira da Federação dos Vinicultores do Centro e Sul de Portugal).

    1944 - Apresentado um projecto de alteração da escada de acesso ao edifício, passando a entrada a fazer-se pelo Piso 0. No interior, foi criada uma nova escada, ligando o Piso 0 ao Piso 1. No Piso 0 fechou se a porta que dava acesso à rua, substituída por uma janela.

    Década de 40 – A ocidente, foi construída um anexo designado por “edifício João Seabra”.

    Década de 1960 – A Sul, foi construído o edifício projectado pelo arquitecto Cassiano Branco (1897-1970), para alojar os serviços da Junta Nacional do Vinho.

    1986 - A Junta foi substituída pelo Instituto da Vinha e do Vinho.

    1996 - O Palacete teve algumas obras de remodelação.

           

           

    A diversa documentação do Arquivo Municipal de Lisboa, permite verificar a evolução da casa ao longo dos anos. Do plano inicial, de 1887, há três plantas, que correspondem aos pisos 0, 1 e 2, podendo observar-se que no piso 0 havia um acesso ao interior pelo canto Noroeste, provavelmente apenas destinado aos serviços, com ligação ao portão secundário da Rua Alexandre Herculano. A entrada principal fazia-se pelo portão da Rua Mouzinho da Silveira que dava entrada no jardim, onde estava uma escada que permitia o acesso à porta principal. Os alçados, apenas para as fachadas Norte e Este, correspondem ao que foi construído. Em 1896, foi acrescentada uma protecção em ferro e vidro para a escada da entrada principal. Nos anos 1940, foi demolida a escada, sendo criada uma porta de entrada no piso 0 e fechando-se a porta do piso 1 (transformada em janela). Internamente, foi acrescentada uma escada do lado ocidental, no Piso 0, para ligar ao piso 1.

    Autoria do texto: Margarida Elias, Dezembro, 2022

    Piso 0

      

    Piso de nível com entrada pelo jardim no canto Noroeste. Seria destinado a serviços, tendo possivelmente a cozinha junto dessa entrada, com ligação às chaminés do lado ocidental. Desde os anos 40, é o andar de acesso ao edifício, com porta voltada a Sul e escada no canto Sudoeste de acesso ao Piso 1. De destacar no canto Sudoeste a torre com escada que une todos os pisos verticalmente

     

    Piso 1

        

    Piso nobre e de recepção, que corresponderia à entrada principal da casa até à década de 40, pelo lado Sul. Aqui estaria o Vestíbulo, Saleta, Sala de Visitas, Sala de Jantar (talvez no canto Noroeste, sobre a cozinha) e a Copa. Tendo a escada junto da fachada Sul, dela parte um corredor que divide o lado ocidental e oriental da casa, estando as salas mais espaçosas junto da fachada que está voltada para a Rua Alexandre Herculano. A sala do canto Noroeste tinha abertura para um terraço e dele para o jardim. Todas a divisões têm iluminação natural; as salas da fachada oriental e Norte são intercomunicantes, além acessíveis pelo corredor.

     

    Piso 2

          

    Mantendo a mesma organização dos pisos anteriores, tinha acesso quer pela torre, quer pela escada principal que parte do Piso 1 (hoje também pelo elevador). Este piso destinava-se a uma Saleta íntima, a quarto de vestir, quartos de dormir (principal e de hóspedes) e uma casa de banho, que seria do lado ocidental. Tem varanda na divisão voltada a Nordeste e na que está voltada a Noroeste (sobre o terraço). Assim como no Piso 1, todas a divisões têm iluminação natural. A escada dá acesso à mansarda, que actualmente é usada pela escritórios do Instituto da Vinha e do Vinho.

     

    Piso 2

       

    No segundo piso destaca-se a sala do canto Noroeste, decorada com um friso de azulejos de padrão, tendo ao centro um painel de azulejos que será do tempo da Junta Nacional do Vinho. O painel é assinado por Jorge Colaço (1868-1942), figurando camponeses a puxar uma carroça carregada de uvas, conduzida por uma parelha de bois. A moldura é decorada com faunos e cachos de uvas, tendo em baixo a inscrição Ano XII. Estes azulejos terão sido trazidos para aqui posteriormente, pois têm a data de 25-3-1927 (?), sendo que nessa data ainda aqui vivia a sobrinha de D. Amélia Leite Ferreira. No Museu do Azulejo subsistem outros painéis com a mesma temática, do mesmo artista, de origem desconhecida (por exemplo, o painel de azulejos Vindima - Museu Nacional do Azulejo, Lisboa).

     

    Piso 1

    Sala 1 e 2 (fachada da Rua Mouzinho da Silveira)

    Duas salas interligadas com tecto de estuque formando um motivo de arabescos geométricos padronizado.

     

    Salas 3 e 4 (fachada da Rua Mouzinho da Silveira e esquina com Rua Alexandre Herculano)

    Salas hoje separadas, mas originalmente comunicando por duas portas. Ambas as salas têm o tecto liso, sendo o seu contorno preenchido por uma cornija de dentículos decorada por mísulas com folhas de acanto. Nos cantos estão pilastras caneladas com capitéis de ordem toscana muito estilizados. Na bandeira da porta da Sala 3 está uma cartela lisa emoldurada, com decoração na moldura de óvulos e volutas. No centro do tecto da Sala 4, uma roseta ornamentada por ramos de flores simulando flores-de-lis e outros motivos florais estilizados.

     

    Sala 5 (Esquina da Rua Alexandre Herculano com o jardim)

        

    Na sala 5 os estuques do tecto estão organizados de forma simétrica em relação aos dois eixos, com secções definidas. Nem todas as secções são preenchidas, mas apenas um hexágono central e seis das secções que o contornam, além de outras secções da moldura lateral. A decoração, em alto-relevo, faz-se através de taças ou urnas de onde parte folhagem desenhando motivos espiralados. No ornamento central a decoração é mais densa e relevada, agrupando-se as folhas em ramos semelhantes ao motivo da flor-de-lis. As taças apresentam frutas (uvas e romãs). Nas secções laterais, as folhas são de videira. No conjunto, forma um tema alusivo à prosperidade e abundância.

    Piso 2

    Sala 1 (Rua Mouzinho da Silveira)

    Tecto de estuque formando um padrão de arabescos, de estilização vegetalista, com flores e motivos fitomórficos entrelaçados.

     

    Sala 2 (Ocidente)

        

    Tecto decorado com estucagem simétrica em relação aos dois eixos. A borda apresenta secções definidas com formas geométricas, tendo a secção central uma roseta relevada com motivos fitomórficos e vegetalistas estilizados. Nas bordas a decoração é feita com urnas de onde parte folhagem inscrita em motivos curvos.

     

    Escadaria principal

    A escadaria apresenta degraus e corrimão de madeira; guardas de ferro forjado decorada com motivos vegetalistas estilizados.

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    PTCD/EAT-HAT/11229/2009

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