Fazenda Santo Antônio

    Fazenda Santo Antônio
    Fazenda Santo Antônio da Soledade, Engenho de Nossa Senhora da Soledade de Serra Acima
    XVIII
    c. 1760-1787
    Brasil
    Petrópolis - RJ
    -22.413672
    -43.098388
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    Esta propriedade remonta ao período inicial de ocupação da cidade de Petrópolis na primeira metade do século XVIII, período marcado pela hegemonia das famílias Goulão e Corrêa. Manoel Antunes Goulão, português nascido em Alcains, foi sesmeiro do Caminho do Inhomirim, tendo construído nessa sesmaria a propriedade Fazenda do Rio da Cidade, onde mais tarde nasceu Brites Maria de Assunção, fruto de seu casamento com Caetana de Assunção em 1721. Manoel Corrêa da Silva, nascido em Portugal, fez fortuna na região de Goiás com a mineração e, ao buscar se aproximar da Corte, adquiriu o Sítio da Ponte em 1745. Esta última propriedade, atualmente conhecida como Casa do Padre Corrêa, era limítrofe com a fazenda de Manoel Antunes Goulão, que além de seu vizinho, tornou-se mais tarde seu sogro. A união das famílias se deu com o casamento de Manoel Corrêa da Silva e Brites Maria de Assunção Goulão, que após o consórcio deram início ao processo de unificação de propriedades da região. Nesse processo foram adquiridas a Fazenda Samambaia, Fazenda Arca de Noé, Fazenda Santo Antônio e Fazenda Olaria de Colares (SALGADO, 2018).    

    A casa da Fazenda Santo Antônio foi construída às margens da Variante do Caminho Novo, também chamada de “Caminho do Proença”, e está situada em terras da antiga sesmaria concedida em 1760 a Antônio da Silveira Golarte e mais tarde foi ocupada pelo casal Manoel Corrêa da Silva e Brites Maria de Assunção, que em 1787 conseguiu regularizar a ocupação. Maiza Salgado atribui a autoria da reforma, realizada em 1760, na capela a equipe de escultores e entalhadores de Luís da Fonseca Rosa, que nessa mesma empreitada teria reformado e construído outras capelas para a família Goulão Corrêa. 

    O acesso é feito pela Estrada Philuvio Cerqueira Rodrigues, no distrito de Itaipava, cidade de Petrópolis. O terreno possui uma pequena elevação sendo sustentado por um muro de arrimo que confere a casa destaque e ampla visão das terras ao redor.

    A casa possui dois pavimentos, planta em forma de “L” e aos fundos se localiza um anexo que é uma construção separada da casa interligado apenas pela estrutura do telhado. Se caracteriza pela presença das varandas no pavimento superior, tanto na fachada principal, quanto na fachada lateral esquerda. Está elevada do solo por um porão não habitável. O acesso a casa pode ser realizado pela fachada lateral direita por uma escada de pedra ou pela fachada lateral esquerda através da varanda aberta. Possui telhado coberto de telhas cerâmicas tipo capa e canal arrematados por beiral em cachorrada.

    A fachada principal se caracteriza pela presença da varanda em balanço existente no pavimento superior, que conta com estrutura e guarda corpo em madeira. No pavimento térreo se encontram seis vãos de verga reta com janela de madeira tipo veneziana de abrir e por dentro conta com janela em guilhotina com vidros translúcidos. No pavimento superior são seis vãos de verga em arco abatido e  todos contam com portas de madeira.

    A fachada lateral direita se caracteriza pela presença do acesso feito através da escadaria em pedra que leva a uma espécie de varanda fechada por uma estrutura em madeira, tendo ao centro uma porta. Alinhada a essa varanda do térreo, se destaca no pavimento superior cinco vãos de verga em arco abatido contíguos, fechados por estrutura em madeira e vidro translúcido e guarda corpo em madeira. No pavimento térreo se encontram dez vãos de verga reta com janela de madeira tipo veneziana de abrir e por dentro conta com janela em guilhotina com vidros translúcidos. No pavimento superior se encontram dez vãos de verga em arco abatido com o mesmo tipo de janela em madeira.

    A fachada lateral esquerda se caracteriza pela presença da capela ao final do corredor avarandado fechado por guarda corpo em madeira no pavimento superior. O trecho correspondente à capela possui no pavimento térreo um vão com verga em arco abatido com fechamento em madeira e esquadria de vidro por dentro e no pavimento superior dois vãos de verga reta com janela de vidros translúcidos. No lado oposto do corredor no pavimento térreo existe um vão de verga reta com fechamento em madeira e janela do tipo guilhotina com vidros translúcidos. 

    A fachada posterior é caracterizada pela presença de uma imagem engastada a parede do espaço correspondente a capela.

    ALVES NETTO, Jeronymo Ferreira. Subsídios para uma história de Itaipava. Instituto Histórico de Petrópolis. Disponível em:<https://ihp.org.br/?p=4673>. Acesso em 02 dez 2022.

    Arquivo Central do IPHAN/RJ. Série Processos de Tombamento, processo nº 445-T-1951.

    LACOMBE, L. A mais velha Casa de Correas. RPHAN, nº 2, Rio de Janeiro, 1938, pp. 93‐100.

    ____. A fazenda de Santo António em Petrópolis. RPHAN, nº 8, Rio de Janeiro, 1944, pp. 175‐188.

    Portal ipatrimonio. Disponível em: <https://www.ipatrimonio.org/petropolis-fazenda-santo-antonio/#!/map=38329&loc=-22.255101561680622,-46.54254913330078,11>. acesso em 02 dez 2022.

    SALGADO, Maiza. Mestre Valentim e a Serra dos Correyas. Petrópolis, 2018.

    UNIFEI. Personalidades do Muro - Visconde de Mauá - Irineu Evangelista. Disponível em: <https://unifei.edu.br/personalidades-do-muro/extensao/visconde-de-maua-irineu-evangelista-de-sousa/>. Acesso em 01 fev. 2023.

    1760 - As terras desta fazenda têm como origem a sesmaria de Antônio da Silveira Golarte. Nesse mesmo período foram empreendidas obras de reforma na capela qual autoria é atribuida a equipe de escultores e entalhadores de Luís da Fonseca Rosa, que nessa mesma empreitada teria reformado e construído outras capelas para a família Goulão Corrêa.

    1787 - A sesmaria foi adquirida por Brites Maria de Assunção, viúva do português Manuel Corrêa da Silva.

    1800 - Agostinho Corrêa da Silva Goulão herda a propriedade e passa a denomina-la de Engenho de Nossa Senhora da Soledade.

    1851 - Após a morte de Agostinho Corrêa da Silva Goulão, a propriedade foi herdada por seus sobrinhos que em seguida a venderam a Gregório José Teixeira. 

    1854 - A fazenda foi adquirida por Irineu Evangelista de Sousa, o Visconde de Mauá, pela quantia de 30:000$000. 

    1878 - A fazenda foi arrendada ao comendador Francisco José Fialho, que logo a comprou do Banco do Brasil, pelo valor de 16:000$000, após a falência do Visconde de Mauá.

    1931 - A propriedade é adquirida por Argemiro Hungria Machado, que contrata o arquiteto alemão F. Faber para reformar a casa. 

    1944 - Lúcio Costa foi contratado para orientar as obras de restauração e adaptação da casa para uso contemporâneo como moradia.

    1951 - A propriedade foi incluída no livro do Tombo Belas Artes Inscr. nº 392, de 12/04/1951. Número do Processo: 445-T-1951.

    2004 - A fazenda se tornou um posto avançado da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica Brasil - UNESCO, patrimônio preservado do século XVIII.

    2009 - Sylvia Amélia de Hungria Machado de Orleans Bragança, aquarelista e botânica, então proprietária da fazenda, lança o livro A Paisagem e o Olhar sobre a flora local

    Atualmente é propriedade do casal Maria Pia Melo Franco Chagas Marcondes Ferraz e Carlos Augusto Montenegro.

     

    Brites Maria de Assunção, nascida na Fazenda do Rio da Cidade, era filha de Manoel Antunes Goulão e Caetana da Assunção (Ana do Amor de Deus). Foi casada com o portugês Manoel Corrêa da Silva (?-1784), que fez fortuna com a exploração de minério na região de Goiás e possuiu diversas propriedades, como o Sítio da Ponte, localizada na vizinhança da Fazenda Santo Antônio. O casal teve cinco filhos: Antônio Tomás de Aquino Corrêa, Agostinho Corrêa da Silva Goulão, Luís Joaquim Corrêa da Silva, Arcângela Joaquina da Silva Goulão e Maria Brígida da Assunção Corrêa. Faleceu em 1800, deixando de herança a Fazenda do Rio da Cidade, Fazenda Samambaia, Fazenda da Arca de Noé, Fazenda Santo Antônio, Fazenda Olaria de Colares e o Sítio da Ponte.

    Agostinho Corrêa da Silva Goulão, nascido em 1744, foi  filho do casal Manuel Corrêa da Silva (?-1784) e Brites Maria de Assunção (?-1800). Se tornou doutor em Leis na Universidade de Coimbra no ano de 1786. No Brasil se dedicou ao magistério, à política e à agricultura. Faleceu em 1847, aos 103 anos, solteiro e sem filhos, deixando suas propriedades aos seus sobrinhos.

    Irineu Evangelista de Sousa, Visconde de Mauá, nasceu em 28 de dezembro de 1813, natural do Rio Grande do Sul. Era filho de João Evangelista de Ávila e Sousa e de Mariana de Jesus Batista de Carvalho e possuía uma irmã, Guilhermina de Sousa Machado. Foi criado por um tio, que o introduziu ao trabalho na área comercial. Foi empresário, banqueiro e político, sendo considerado o primeiro grande industrial brasileiro se destacando como principal representante dos primórdios do capitalismo no Brasil e na América do Sul. Casou-se em 1841 com Maria Joaquina de Sousa Machado, sua prima, com quem teve dezoito filhos. Recebeu o título de Barão de Mauá em 1854 e de Visconde em 1874. Em sua biografia também se destaca a falência de seu banco que o fez perder sua fortuna. Foi proprietário de diversas casas, entre elas o Palacete da Praça da Confluência, nº 3, no centro de Petrópolis, onde faleceu em 21 de outubro de 1889.

    Transcrição de trecho do inventário de bens de Agostinho Correia da Silva Goulão de 1853 localizado no Cartório de Magé. Parte de correspondência de 1942 entre Frei Estannislaw e Argemiro de Hungria Machado relatando os resultados da pesquisa sobre a Fazenda Santo Antônio. Acervo do Arquivo Nacional (br_rjanrio_jk_ahm_faz_txt_0020_d0001de0001). 

    “[...] A vivenda: um sobrado de baldrames de pedra, sustentado de pau a pique, toda lageada ao redor de alvenaria, com 96 palmos de frente e 73 palmos de fundo, um accrescimo na mesma frente de 73 palmos por 27 palmos.

    A casa tem uma varanda na frente com oratorio e tribuna de rotula, 2 quartos, uma sala de visitas com uma alcova e dois corredores, outra sala com alcova e dois corredores, outra sala com alcova, uma varanda estreita, um corredor e um quarto, uma varanda interior, uma copa, um quarto pequeno, uma alcova, um quarto grande, um corredor com escritório, mais dois corredores, uma dispensa, uma cosinha, um fogão, dois forros, uma escada no interior; debaixo do sobrado um salão grande de 40 palmos, todo lageado, uma varanda com dois quartos, uma dispensa, mais cinco quartos, uma estribaria grande e um portão pegado á casa, tudo em bom estado: valor 12:000$000 rs

    Oratorio no extremo da varanda da casa da fazenda:

    1 imagem de Nª Snra. da Soledade

    1 imagem de Nª snra. do Rosario

    1 imagem de St. Agostinho

    1 imagem do Menino Dêus

    2 imagens de Jesus Christo

    1 presepio

    1 altar com 1 estante, 3 sacras, 6 castiçais de pau pintado

    1 pedra d’ara

    2 campainhas, 6 vazos de porcellana, 2 vazos pequenos, 4 vazos de barro

    3 quadros dourados, 3 ordinarios, 2 pequenos

    1 retrato pequeno de D. João VI

    1 missal, 3 casulas, 3 bursas, 4 alvas, 3 amictos

    6 toalhas do altar, 6 sanguineos, 1 almofada, 1 tapette

    2 bancos, 1 lustro de vidro, 1 par de galhetas de prata

    tudo em valor de 2:650$000

    A capella no cemiterio:

    capella particular com uma imagem do Santo Christo

    10 castiçais de jacarandá

    1 altar, 2 credencias, 1 arcar com gavetão

    4 maxos, 1 banco, 1 lampada de casquinha

    1 sino em sua torre

    a capella guarnecida por um muro de pedra e cal, fechado por um portão de grade

    valor 800$000 rs

    [...]

    Transcrição de trecho do inventário de 1886 do comendador Francisco José Fialho:

    SAIBAM quantos este virem, que no Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo, de mil oitocentos e oitenta e Seis aos dosse dias do mez de Janeiro n’esta Muito Leal e Heroica Cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, Capital do Imperio do Brazil, perante mim Tabellião comparecem como outorgante D. Maria Emilia Fialho, viúva, moradora nesta Côrte á rua do Fialho nº. 5, na qualidade de invente dos bens de seu fallecido marido, Franco José Fialho

    [...]

    [p.14] Relação dos objetos existentes na casa da Fazenda de S. Antonio.

    Sala de visita

    Um piano velho de Pleyel, uma mobília de jacarandá constando de dois consólos, uma mesa de centro, dose cadeiras, quatro ditas de braços, [p. 15] um sofá, duas escarradeiras, dois lampeões com globo para azeite e quatro jarras para flores.

    Quarto ao pé da sala

    Uma mesa com duas gavetas, uma cama de mogno e palhinha.

    Sala de jantar

    Uma mesa de jantar de pinho, um armario envidraçado de jacarandá para roupa, uma pia de louça com torneira e bacia para lavar as mãos, um aparador grande, um relogio de parede, dois pequenos lampiões de kerozene.

    Quarto de dormir

    Uma cama de casada de mogno usada com dois colchões, um travesseiro comprido, uma secretaria de peroba envernizada, um lavatório de mogno com pedra mármore usado com jarro e bacia, um sofá estufado de marroquino verde, uma mesa de cabeceira.

    Segundo quarto

    Uma meia commoda de peroba envernizada, um armário de peroba envernizado, uma marquesa de jacarandá antiga com colchão, um espelho pequeno com moldura de madeira preta, uma cadeira de estender.

    Terceiro quarto

    Uma marquesa de jacarandá [p. 16] para casados com dois colchões, uma dita de vinhático para solteiro com colchão, um lavatório de mogno e pedra mármore com jarro e bacia, um pequeno espelho com moldura de madeira.

    Protesta a Inventariante descrever mais bens que cheguem ao seu conhecimento pertencendo ao Inventariado.

    Rio de Jano. 19 de Junho 1886

    Maria Emilia Fialho

    [...]

    Fotografias do Arquivo Central do IPHAN em 1975. Série Inventário- Cx. RJ 162 - pasta 2/01.

    Coordenação: Ana Pessoa (FCRB), 2023

    Texto e edição: Andreza Baptista (PCTCC/FCRB), 2023

    Fotografias: Ana Torem

     

    Programa geral, tipologia e planta

    A casa possui planta em forma de “L” e conta com dois pavimentos, sendo o térreo destinado às atividades sociais e de serviço e o pavimento superior a área íntima da família. O acesso pode ser realizado pela fachada lateral direita por uma escada de pedra ou pela fachada lateral esquerda através da varanda aberta. De acordo com a descrição existente no processo de tombamento do IPHAN, a casa possui cinco salas, nove quartos, capela, sacristia, varandão, copa e cozinha, banheiros e dependências. 

     

    Piso 1, Área Social

    A casa possui duas escadas que levam ao pavimento superior, uma esta inserida em uma das fachadas e leva a varanda do pavimento superior, dando acesso a capela. Já a outra escada localiza-se dentro da residência.  

     

    Piso 1, Área de Serviço

     

    Piso 2, Área íntima

    Caracterizando o pavimento superior, a varanda possui estrutura e guarda-corpo em madeira. Em uma das extremidades da varanda se chega a capela datada do final do século XVIII e início do século XIX. Destacam-se na residência os forros em madeira, principalmente aquele de uma das salas em que o formato é côncavo. 

     

     

    Piso 2, Divisão 25 - Capela

    A capela dedicada inicialmente a Nossa Senhora da Soledade, apresenta retábulo elegante, característico do início do século XIX, decorado com elementos decorativos rococó que emolduram a figura de Santo Antônio e pintura decorativa no forro. A porta voltada para o avarandado é uma obra de marcenaria requintada do final do século XVIII.

     

    ttt
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    PTCD/EAT-HAT/11229/2009

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