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    Casa Conselheiro Maciel

    Casa Conselheiro Maciel
    Casarão 8
    XIX
    1878
    Brazil
    Praça Coronel Pedro Osório, Pelotas, Rio Grande do Sul
    -31.770489
    -52.239913
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    A residência foi erguida em lote de esquina formada pelas ruas Félix da Cunha e Barão de Butuí, em quarteirão fronteiro à praça principal da cidade, denominada como Praça Coronel Pedro Osório. Está situada na ZPPC2, uma das áreas de preservação do centro histórico de Pelotas e que corresponde ao segundo loteamento da localidade, projetado em 1835.

          

    Antiga fotografia do quarteirão fronteiro à Praça Coronel Pedro Osório, 1909. No primeiro plano, a casa senhorial do Conselheiro Francisco Antunes Maciel.

    A caixa mural é composta por dois módulos. O primeiro ocupa a esquina do quarteirão e abriga os ambientes sociais e os cômodos íntimos da família do proprietário. Esse bloco guarda afastamento do limite lateral do terreno com a construção vizinha, organizado em jardim de acesso à porta principal do edifício. Destaca-se sobre o telhado dessa área uma lanterna com estrutura metálica, preenchida com vidros transparentes e coloridos, que ilumina uma alcova no interior do prédio. O segundo módulo, destinado às garagens das carruagens, à estrebaria e aos serviços domésticos, dá sequência ao primeiro a partir de um novo vazio voltado para a Rua Barão de Butuí, arranjado em jardim que dá entrada às dependências de trabalho e de alojamento dos serviçais. O casarão eclético apresenta duas fachadas. A principal e mais ornamentada está voltada para a Rua Félix da Cunha e para a Praça Coronel Pedro Osório. A secundária e com menos decorações está virada para a Rua Barão de Butuí. Os dois frontispícios são complementados ou intercalados pelos muros, gradis e portões de ferro, que encerram os espaçamentos ajardinados.

     

    Seguindo a estética arquitetônica historicista, a fachada principal se divide em três partes: o porão alto, que permite a ventilação dos assoalhos e dá imponência à edificação; a fachada propriamente dita; a platibanda que arremata a composição e, ao mesmo tempo, oculta as calhas de escoamento das águas das chuvas, ligadas às canalizações embutidas nas paredes e conectadas aos esgotos pluviais. Cornijas reforçam as subdivisões do frontispício. No sentido horizontal, o programa compositivo é tripartido e simétrico: com duas seções laterais e uma central, salientada pelo frontão.

    O porão alto apresenta rusticações e óculos com vergas em arcos abatidos, que encerram grades de ferro fundido.

     A fachada exibe cinco vãos – três no módulo central e um em cada seção lateral – preenchidos por portas-sacada com amplas vidraças e bandeiras com vergas retas. Essas aberturas se abrem para varandins individuais com guarda-corpos fundidos em ferro. Sob os varandins, gárgulas moldadas em estuque simulam contribuir para o escoamento das águas pluviais. Pilastras coríntias com fustes canelados estão dispostas nos cunhais e nas laterais do módulo central, destacando essa seção das demais.

             

    A platibanda apresenta segmentos vazados nas seções laterais, preenchidos por balaústres de cerâmica alouçada. No fragmento central é cega e ornada com frisos estucados que determinam losangos entrelaçados. Sobre ela se afirma o frontão definido por volutas, curvas, segmentos retos e contracurvas, cujo tímpano é decorado com folhas de acanto dispostas de maneira sinuosa e que circundam uma cartela com o monograma do proprietário.

    Duas esculturas de peculiaridades clássicas – divindades do Conhecimento e da Indústria ou alegorias da Europa e da América – encimam as pilastras que destacam o módulo central, coroado pelo frontão. Provavelmente, esses elementos foram adquiridos da Fábrica de Cerâmica das Devesas, situada em Villa Nova de Gaya, em Portugal.

         

    Sobre as portas-janela, as sobrevergas utilizam cornijas em frisos sobrepostos, sustentadas por mísulas constituídas por torsos de putti e folhas de acanto. Nos segmentos laterais da fachada, são preenchidas por guirlandas florais e coroadas por elementos estucados em acantos sinuosos e entrelaçados, que agregam palmetas, volutas, conchas e pequenas flores com quatro pétalas, que envolvem uma cartela trespassada por uma fita. Dos consolos se originam frisos verticais – nas laterais das ombreiras das portas rasgadas por inteiro – que lembram elos de uma corrente.

    Nas três aberturas do segmento central, as sobrevergas são encimadas por frontões greco-romanos, nos quais estão inseridos os perfis de dois mascarões masculinos

     

    Voltada para a Rua Barão de Butuí, no módulo junto à esquina, a composição repete a solução tripartida com o porão alto, a fachada e a platibanda. Que é repetida no sentido horizontal, em três seções divididas pelas pilastras caneladas com capitéis coríntios, nos cunhais e nas laterais do segmento central. Cornijas reforçam essas fragmentações do frontispício. Duas portas-sacada preenchem os vãos nas subdivisões laterais e simétricas. E uma porta-janela veda o vão da unidade central. As aberturas se abrem para varandins com guarda corpos de ferro fundido. Sob estes, gárgulas simulam contribuir para o escoamento das águas das chuvas. As vergas retas são encimadas por frisos de estuque que conformam sobrevergas retangulares, preenchidas por guirlandas e rosáceas. Na abertura que centraliza a composição, a sobreverga recebeu frontão greco-romano, salientando-a das demais

     

    O porão alto é rusticado e apresenta cinco óculos vedados por gradis de ferro.

    A platibanda tem partes cegas e vazadas. As últimas preenchidas com balaústres de faiança branca. Sobre a seção central, se destaca o frontão cimbrado interrompido, limitado e decorado por curvas, contracurvas, folhas de acanto e volutas, em cujo tímpano se distingue uma cartela com a data da construção do prédio – 1878 – emoldurada por folhas de acanto em ramos sinuosos.

    Duas esculturas alegóricas – que remetem ao Outono e ao Verão – foram dispostas a cada lado do frontão. Ornamentos que, provavelmente, foram também importados de Portugal, da Fábrica de Cerâmica das Devesas. Durante as obras de restauração do edifício, a alegoria do Outono foi roubada. Um vaso de cimento destaca o cunhal, junto ao vazio central.

       

    O bloco que abriga as garagens, as cocheiras e os ambientes destinados aos serviços domésticos tem sequência após a mureta, o gradil e o portão de ferro que fecham o espaçamento frontal. A fachada é tripartida: composta pelo porão alto, o corpo e o coroamento. Apresenta três módulos assimétricos no sentido horizontal, subdivididos pelas pilastras caneladas e com capitéis coríntios na seção inicial, e por pilastras com bossagens que imitam pedras quadrangulares nos dois outros segmentos, cujas paredes são também rusticadas. Nessas subdivisões, os vãos são fechados por janelas com amplas vidraças e vergas retas: uma na seção lateral ao espaçamento ajardinado; duas menores no segmento seguinte; e três de igual dimensão na última subdivisão. Nesse bloco são lacunares os dois vasos moldados em cimento que arrematavam os cunhais

    Fachadas dos espaçamentos

    No vazio lateral voltado para a Rua Félix da Cunha e para a Praça Coronel Pedro Osório, duas fachadas limitam o jardim que leva à porta principal da residência.

    Na lateral do espaço ajardinado, o frontispício é tripartido. No sentido vertical apresenta o porão alto rusticado, a fachada e a platibanda – com uma seção vazada e preenchida com balaústres de faiança branca, e as demais cegas. No sentido horizontal, é subdivido em três seções salientadas pelas pilastras caneladas e com capitéis coríntios. Na primeira subdivisão, o vão é vedado por uma janela com amplas vidraças e bandeira com verga reta. Na central, um dos vãos é fechado por uma janela e o outro pela porta de entrada, com duas folhas de madeira – engradadas e almofadadas. Uma escada com degraus de mármore e corrimão em ferro fundido foi erguida junto ao frontispício. Na última seção, uma janela preenche o vão. Sobre as vergas retas das aberturas, frisos em relevo de estuque emolduram as sobrevergas retangulares enfeitadas com guirlandas florais. Na área central, foram enriquecidas por frontões greco-romanos.

    Ao fundo do jardim, o bloco com telhado em duas águas apresenta dois pavimentos. Na fachada deste módulo, despida de ornatos, os vãos são vedados por portas-sacada nos dois andares, que se abrem para varandins com guarda-corpos em ferro fundido. As do andar térreo são encimadas por sobrevergas, que repetem as mesmas ornamentações das outras aberturas.

       

    Na fachada secundária e voltada para a Rua Barão de Butuí, o vazio é delimitado por três frontispícios, dois laterais e um ao fundo. Nesse último módulo – com dois pavimentos –, a cobertura saliente do telhado em duas águas define uma espécie de frontão triangular ornado por treliça de madeira. Nos dois andares, os vãos são fechados por três portas-sacada, que se abrem para varandins com parapeitos de ferro fundido. O lambrequim – outrora esculpido em madeira, em arabescos sinuosos – enriquece e protege as aberturas do espaço térreo. Na última restauração do prédio, esse elemento decorativo foi substituído por outro mais simples, somente recortado em lâminas de madeira

         

    Nos frontispícios laterais do vazio ajardinado, os altos porões não são rusticados. Junto à fachada lateral à esquerda, uma escada com degraus de mármore e corrimão em ferro fundido leva à porta de entrada da área de serviços. Duas janelas vedam outros dois vãos. Na fachada oposta, os três vãos são fechados por janelas idênticas. Todas as aberturas voltadas para o jardim apresentam sobrevergas semelhantes àquelas já detalhadas

     

    ALVES. Fábio Galli. Decorações murais: técnicas pictóricas de interiores. Pelotas/RS (1878-1927). 2015. Dissertação. (Mestrado em Memória Social e Patrimônio Cultural). Universidade Federal de Pelotas.

    DOMINGUEZ, Andréa Jorge do Amaral. Ladrilhos hidráulicos: bens integrados aos prédios tombados de Pelotas/RS. 2016. Dissertação. (Mestrado em Memória Social e Patrimônio Cultural). Universidade Federal de Pelotas.

    GUTIERREZ, Ester J. B. Barro e sangue: mão-de-obra, arquitetura e urbanismo em Pelotas (1777-1888). Pelotas: Ed. da UFPel, 2004.

    LEAL, Noris Mara Pacheco Martins. A tradição doceira de Pelotas e Antiga Pelotas nos cruzamentos entre o Museu do Doce e a Casa do Conselheiro: os trajetos de uma construção. 2019. Tese. (Doutorado em Memória Social e Patrimônio Cultural). Universidade Federal de Pelotas.

    MOURA. Rosa Maria Garcia Rolim de. & SCHLEE. Andrey Rosenthal. 100 imagens da arquitetura pelotense. Pelotas: Pallotti, 1998.

    ROZISKY. Cristina Jeannes. Arte decorativa: forros de estuque em relevo. Pelotas, 1876-1911. 2014. Dissertação. (Mestrado em Memória Social e Patrimônio Cultural). Universidade Federal de Pelotas.

    SANTOS, Carlos Alberto Ávila. Ecletismo na fronteira meridional do Brasil (1870-1931). 2007. Tese. (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo – Área de conservação e Restauro). Universidade Federal da Bahia.

    _______. (Org.) Ecletismo em Pelotas (1870-1931). Pelotas: Ed. da UFPel, 2014.

    SCHLEE, Andrey Rosenthal. O Ecletismo na Arquitetura Pelotense até as décadas de 30 e 40. 1993. Dissertação. (Mestrado em Arquitetura). Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

    Cronologia e Proprietários

    A casa senhorial abrigou os descendentes do Conselheiro Francisco Antunes Maciel até o ano de 1950.

    Nessa última data, foi alugada para o Exército, que no prédio instalou o Comando da 3ª Divisão de Infantaria.

    Na década de 1970, foi locada pela Prefeitura Municipal e sediou diversos órgãos públicos, sendo um deles a Secretaria de Obras do município.

    No final da década de 1990, por total falta de condições de uso, a construção foi usada como depósito de equipamentos inservíveis da Prefeitura.

    Em 2006, o edifício foi comprado pela Universidade Federal de Pelotas, com o objetivo de ser restaurado e transformado em um Museu.

         

       

    Planta do pavimento nobre e alçados da fachada principal sobre a praça Pedro osório e fachada lateral sobre a rua Barão de Butui

    Coordenação: Carlos Alberto Ávila Santos, Helder Carita 

    Texto: Carlos Alberto Ávila Santos

    Fotografias: Alexandre Mascarenhas, Andréa Jorge do Amaral Dominguez, Carlos Alberto Ávila Santos

    Plantas: Anderson Pires Aires

    Programa Geral, Tipologia e Planta

    O edifício de esquina de quarteirão tem planta longitudinal retangular e apresenta um só pavimento sobre o porão alto. Os acessos ao prédio são feitos por meio dos vazios – lateral, na fachada principal; e central, na fachada secundária. A entrada social se dá através do espaçamento frontal/lateral da fachada Oeste. A de serviços é acessada por meio de recuo central/frontal da fachada Norte. A organização e a distribuição interna conjugam ambientes sociais, íntimos e de serviços domésticos

               

       

    1-Vestibulo, 2 – Recepção/Distribuição,  3 –Salão de Festas, 4 sala de música, 5 – Casa de Jantar, 6 –gabinete, 7 – Dormitórios, 8 – Circulação

    Vestibulo

    Estuques em relevo se distribuem sobre o forro desse ambiente. Cornijas e frisos de ligação se alternam, definem e enfeitam as seções que emolduram o ornato central, que ocupa a maior parte do teto estucado. Nessa área, a decoração é simétrica, tanto no eixo transversal quanto no longitudinal. A ornamentação utiliza motivos fitomórficos entrelaçados e enroscados, provavelmente moldados in loco.

    O livro aberto sobre uma espada – rebatido nas duas extremidades do eixo longitudinal do teto – estampa a inscrição na técnica da incisão: Colega das Leis do Império do Brasil, 1887. A data, provavelmente, corresponde ao ano da execução do elemento estucado. O motivo decorativo ressalta as qualidades intelectuais e políticas do proprietário do imóvel, o Conselheiro Francisco Antunes Maciel, nomeado como Ministro dos Negócios do Império do Gabinete Lafayete (1883/1884). Segundo o historiador Mario Osório Magalhães, em artigo publicado no Diário Popular de Pelotas no dia 24 de dezembro de 2006:

    “Enquanto os títulos de marquês, conde, visconde e barão distribuíram-se, em maior número, aos detentores do poder econômico (que podiam ser fazendeiros, industriais, comerciantes, banqueiros, médicos, capitalistas — assim chamados os que viviam de rendas), os conselheiros formaram uma espécie de aristocracia intelectual, composta por antigos ministros de Estado e presidentes de Província, ministros do Supremo Tribunal, diplomatas de carreira e professores de faculdades.

           

    Nos quatro cantos, os motivos repetem o mesmo desenho original, nos elementos fitomórficos sinuosos e enroscados, que finalizam em cabeças de pássaros. Pequenas sutilezas denunciam que os mesmos foram moldados in loco, pelas diferenças nas folhagens e nas figurações, assim como nos sombreamentos causados pelos espaços ocos.

    Os ornamentos do rodaforro são compostos de folhas de acanto pré-moldadas e fixadas em sequência, que realizam a função de amparo. As cornijas provavelmente foram corridas no local, pois são bastante espessas. Finalizando o conjunto, pequenas folhas de acanto estilizadas e obtidas através de moldes, também fixadas de maneira sequencial, arrematam a composição ornamental do teto.

    Relevante nesse forro é a cartela, disposta sobre a porta que dá entrada ao corpo da casa, embasada por folhagens e ornamentada por acantos e duas carrancas de animais fantasmagóricos, que contém as iniciais do nome do proprietário: FAM. Ela é ladeada por dois cavalos alados que cospem labaredas de fogo. É provável que os dois equinos fantásticos tenham uma estrutura interna como ossatura, dada a espessura dos relevos.

     

     

     

    Sala de recepção - distribuição

    Trata-se de uma alcova iluminada pela claraboia e pela lanterna estruturada em ferro e preenchida com vidros transparentes e coloridos, no ponto central do equipamento. Através de várias portas com amplas vidraças e sobrepostas por bandeiras com as mesmas peculiaridades, essa sala permite o acesso aos cômodos sociais, íntimos e à área de serviços da moradia. O trabalho de estuque se adapta ao vazio da claraboia, na base os relevos seguem um arranjo típico de rodaforro, ligando os dois planos: o embasamento vertical e circular do espaço cônico que ilumina o ambiente; e a superfície plana e horizontal do teto. A superfície decorada da base, de cima para baixo, apresenta uma série de frisos – cordões entrelaçados, folhas de acanto, ovo e flecha, e um rendilhado cujos motivos individualizados lembram pequenas estrelas do mar – que são ornatos de encher repetidos em sequência e intercalados por cornijas de seções contínuas, corridas através de gabaritos. O colorido do fundo – em tons do azul, do vermelho e do rosa – ressalta os elementos em relevo e pintados de branco. As características formais indicam que as peças de estuque foram reproduzidas em série por meio de moldes, pois não possuem pregas nem espaços ocos.

    No teto plano, os quatro cantos que ladeiam a claraboia apresentam a mesma composição ornamental, circundada por cornijas corridas através de um gabarito, que resultam numa moldura triangular. Quanto à função, os elementos moldados são classificados como de encher. Os ornatos fitomórficos – que finalizam em cabeças de pássaros quiméricos – são bastante delicados e frágeis, dada a pouca espessura dos caules das folhagens, dos enroscados e dos entrelaçados. É provável que a decoração tenha sido modelada in loco, posto que seria difícil a produção e o manuseio dessas peças, tanto para a execução das formas, como para desenformar os artefatos e fixá-los sobre o forro. O perímetro decorado é arrematado por duas novas cornijas que encerram um friso composto por cordões entrelaçados. O fundo vermelho salienta os motivos modelados à mão livre. O teto estucado não possui ornamentações nas duas laterais maiores. Nas menores, as cornijas triangulares que emolduram os enfeites foram seccionadas e dão espaço para pequenas rosetas representativas da flora, que cumprem duas funções: de encher e suspender. O rodaforro apresenta cornijas lineares, provavelmente corridas no local. Elas são intercaladas por frisos compostos de acantos estilizados pré-moldados e fixados em sequência, cuja função é de apoio ou amparo. O colorido do fundo, de um tom avermelhado, realça os ornatos pintados de branco.

                

     

     

     

    Sala de Festas

    O forro estucado do salão de festas tem composição simétrica, com setores de ornamentos definidos. A superfície não apresenta elementos decorativos nas laterais maiores e menores do teto. A seção retangular e central está em um plano mais elevado, com relação ao nível dos estratos restantes. A área retangular e central é emoldurada com ornatos de ligação e, na seção interna, com peças de encher. A composição é simétrica nos dois eixos: longitudinal e transversal do quadrilátero reentrante. Os motivos fitomórficos sinuosos se entrelaçam e finalizam em pequenos botões de rosas e, em outras vezes, em cabeças de pássaros fantásticos. Os espaços ocos ou vazios de alguns adornos indicam que, provavelmente, eles foram modelados in loco, com uma massa bastante plástica. A volumetria e o movimento dos relevos, assim como as sombras geradas pelos mesmos, ocasionariam muitas reentrâncias e saliências nos moldes de fundição. São perceptíveis as diferenças dos motivos ao analisar os eixos de simetria, tanto do conjunto como um todo, e em cada enfeite individual. Uma espécie de grinalda circunda os elementos fitomórficos entrelaçados, bem mais espessa que os relevos centrais da decoração. Elas são compostas de folhagens retorcidas em movimentos curvos. No eixo longitudinal da seção retangular, uma delas finaliza em uma espécie de esfera cujo ponto central é oco. Óvulos estriados e emoldurados por folhas de acanto estilizadas arrematam a composição.

    No eixo transversal, as grinaldas finalizam em carrancas masculinas ornadas por folhas de acanto estilizadas. Os frisos que emolduram a decoração central são de ligação entre o plano mais elevado e o restante do forro. Eles são intercalados por cornijas corridas por meio de gabaritos. O superior apresenta uma trama de caules ou galhos, que simulam veios e nós de troncos de árvores, executados por meio da incisão. A coloração branca dos elementos estucados contrasta com o fundo pintado de rosa e salienta a textura praticada. O friso inferior se desenvolve como numa moldura em feixe lictório, atada por uma espécie de pâmpano espiralado, simulacro de caules e folhas da videira que se entrelaçam, cuja textura realizada in loco foi obtida por meio da técnica de incisão. Nos quatro cantos do teto são repetidos os mesmos ornamentos, que utilizam hastes vegetais dispostas de maneira sinuosa e finalizam em esferas com ponto central oco, ou em cabeças de pássaros fantásticos. São perceptíveis pequenas diferenças nas formas, na espessura ou estreitamento dos ornatos, na movimentação dos entrelaçados e nos sombreamentos, resultantes da modelagem in loco. Junto aos cantos, os arranjos decorativos são arrematados por segmentos de cornijas corridas através de gabaritos. No lado oposto, são finalizados por uma sucessão de pequenos frisos que alternam seções côncavas e convexas, vazados por uma espécie de gotas d’água. Nas extremidades se originam novas cornijas corridas por meio de gabaritos, que definem seções retangulares de superfícies lisas nas quatro laterais do forro. O rodaforro é composto por diferentes frisos e cornijas. O primeiro friso, de cima para baixo, alterna mascarões masculinos com uma espécie de rais de coeur, ambos enfeitados com hastes vegetais sinuosas, botões de rosas, folhagens e acantos estilizados. O segundo segue o modelo da moldura em ovo e flecha. O terceiro explora folhas de acanto invertidas. Todas as decorações dos frisos utilizaram elementos pré-moldados.

                    

     

      

     

     

    Sala de Música

    A decoração do teto – cujos motivos harmonizam com a função do ambiente – apresenta composição simétrica, com setores definidos e limitados por frisos e cornijas, as últimas corridas por meio de gabaritos. Como no salão de festas, o ornato central foi desenvolvido num plano retangular mais elevado, com relação ao nível das superfícies estucadas restantes. No interior do retângulo central se desenvolvem enfeites fitomórficos sinuosos que se entrelaçam, nos quais se destacam buquês de botões de rosas. Estes elementos de encher circundam uma figura masculina que toca um instrumento de cordas – uma espécie de viola. O motivo ornamental é rebatido no lado oposto do eixo longitudinal da seção retangular. Observa-se que as decorações foram modeladas à mão livre, seguindo um modelo projetado e realizado in loco. São perceptíveis diferenciações no aspecto que apresentam: no olhar e na boca das duas representações humanas; na disposição dos colares e das cruzes que estes sustêm; nos arranjos florais acima das cabeças das imagens; nas sombras provocadas pelos volumes soltos da superfície plana do forro; nos entrelaçamentos e nos enroscados.

     A seção retangular é emoldurada por cornijas e frisos. Os últimos utilizaram ornatos de união ou ligamento, modelados à mão livre. Ao observá-los atentamente, é possível notar diferenças entre os motivos repetidos em sequência, sobretudo, nas formas mais geometrizadas. O friso externo usou do modelo em feixe lictório, enlaçado por uma sucessão de folhas de acanto dispostas de maneira a sugerir um adorno espiralado. As áreas planas do teto estucado foram pintadas em azul e receberam elementos de encher pré-moldados, que representam pequenas flores. Essas seções foram emolduradas por cornijas corridas através de gabaritos

                

    Nos quatro cantos do teto é repetido o mesmo motivo ornamental: uma musa alada protetora da música, com a cabeça coroada, que segura uma lira em uma das mãos enquanto eleva a outra em direção aos céus. Ela é ladeada por dois putti com pequenas asas, cujas cabeças são ornadas por coroas de louro. Um deles ostenta uma flauta, e o outro uma corneta. É muito provável que as alegorias possuam esqueleto de enchimento, dada a espessura que apresentam. As três figuras são embasadas por elementos fitomórficos entrelaçados.

           

      Modelados in loco, os motivos parecem iguais. Porém, pequenas diferenças são visíveis e revelam a modelagem à mão livre: as variantes proporções dos corpos das divindades; a fisionomia dos rostos; os laços que enfeitam a coroa da figura central; o panejamento das túnicas; a disposição das mãos dos putti; as folhas dos louros; as formas dos instrumentos musicais; os detalhes dos galhos e folhagens que envolvem as figuras antropomórficas.

    O rodaforro é composto de cornijas corridas por gabaritos e frisos que exploram a função de apoio ou de amparo. De cima para baixo, o primeiro friso usou pequenos acantos estilizados e invertidos. O segundo empregou elementos curvos que se entrelaçam, intercalando palmetas e acantos. O terceiro aplicou o modelo de moldura em ovo e flecha. O quarto utilizou dentículos. O quinto e último foi composto por caules e folhagens entrelaçados. O fundo amarelo destaca os ornatos.

     

     

     

    Sala da Jantar

    A composição geral é simétrica, cujos ornamentos – que aludem à função do ambiente – são bem definidos e limitados por cornijas e frisos. Os ornatos de encher estão presentes em todos os setores desse forro: no central; nos cantos do teto, que neste caso alternam dois motivos diferentes; e nas laterais maiores e menores. Nas decorações são perceptíveis as marcas tênues deixadas pelos instrumentos usados para a modelação in loco. Somente possíveis de serem observadas muito de perto.

    A seção ovoide e central do teto estucado é emoldurada e decorada por frisos e cornijas, as últimas corridas através de gabaritos. Os elementos estucados – de encher e suspender – utilizam hastes vegetais em arranjos entrelaçados e sinuosos. Em alguns pontos são enlaçadas por anéis enfeitados com óvulos. Nas extremidades da seção decorada, surgem dos caules folhas da videira e cachos de uvas. No centro da mesma, junto ao adorno de sustentação do lustre – ornado com botões de rosas – foram modeladas quatro cabeças de raposas. O fundo pintado em amarelo contrasta com os relevos de cor branca.

    A área é circundada por cornijas corridas por meio de gabaritos, que emolduram um friso moldado à mão livre, com motivos que se assemelham a elos de uma corrente. O fundo pintado em vermelho ressalta a ornamentação. Nos quatro lados do arranjo, novas cornijas definem pequenas seções circulares. Com diferentes espessuras, elas ladeiam o friso constituído de peças pré-moldadas, em acantos estilizados. Novamente, o fundo pintado em vermelho destaca os relevos. Nesses quatro setores, foram modelados in loco pratos sobre os quais estão cruzados garfos e facas, que remetem à função do ambiente. Os motivos decorativos são circundados por segmentos de superfícies lisas pintadas em um tom de rosa. Novos setores emoldurados por cornijas corridas por meio de gabaritos, apresentam peças modeladas à mão livre nas laterais menores do teto. São representações de animais: um pato, uma galinha e um coelho, que preenchem uma área vazada com moldura oval enfeitada, na parte superior por um acanto estilizado e, na inferior por uma cabeça de raposa ornada também por folhas de acantos. Arabescos sinuosos e folhagens, que finalizam em volutas, se entrelaçam ao redor da cercadura. À primeira vista, percebe-se que o desenho dos ornatos é o mesmo, rebatido nos lados opostos do eixo longitudinal do teto. Mas, no detalhamento dos relevos é possível identificar diferenças sutis nas duas ornamentações: no entrelaçamento das formas, que evidenciam a impossibilidade de fundir essas peças com tantas reentrâncias e saliências; nos traços fisionômicos da raposa, como também nos corpos dos outros bichos representados. O fundo pintado em amarelo destaca os enfeites brancos.

                

    Os quatro cantos receberam artefatos de encher, emoldurados por cornijas corridas através de gabaritos, e um friso composto por peças pré-moldadas de folhas de acanto. São duas composições diferentes, rebatidas nos ângulos opostos do retângulo do forro. Numa dessas decorações, modeladas à mão livre, o elemento central se compõe de uma travessa onde estão dispostas uma série de frutas: bananas, cachos de uvas, figos, laranjas, romãs e maçãs. Arabescos entrelaçados e sinuosos complementam a ornamentação dessa seção, com folhagens curvas e delicados caules que finalizam em novas frutas: cachos de uvas e laranjas. No alto da composição, a cabeça de uma raposa abocanha o pescoço de uma ave. Na parte inferior, é enfeitada por um buquê de rosas.

    No outro arranjo ornamental, o elemento central é composto por cinco peixes suspensos por ganchos que estão presos à uma argola. Os motivos restantes repetem os mesmos elementos da outra seção. Em todas as áreas, observa-se a utilização constante de incisos nas texturas dos corpos dos animais, das frutas, dos caules e das folhagens.

    Nas duas laterais maiores e menores do teto estucado, faixas retangulares – cujas extremidades são arredondadas – são circundadas por cornijas corridas através de gabaritos e frisos nos quais foram empregados uma sucessão de acantos pré-moldados. No interior dessas seções foram fixadas peças de encher, que se entrelaçam em curvas e contracurvas e são adornadas por elementos fitomórficos. Uma faixa de superfície lisa e pintada de rosa circunda todas as áreas enfeitadas com relevos. Por sua vez, ela é emoldurada por um friso no qual se repetem os acantos fixados em sequência. Uma outra faixa com superfície lisa e pintada de branco arremata a ornamentação do forro.

    O rodaforro, de cima para baixo, intercala cornijas corridas por meio de gabaritos e dois frisos decorados com elementos pré-moldados. No primeiro, os enfeites de união ou ligamento, com vazados delicados e pintados de branco, contrastam com o tom de amarelo com o qual foi pintado o fundo. No segundo, as peças fitomórficas estão dispostas em sequência. Percebe-se que nesse último friso os ornatos não são idênticos, indícios que levam à possibilidade da utilização de formas realizadas com gelatina. Posto que a gelatina sofre deformações quando o molde é usado para a fundição de múltiplos adornos.

            

     

     

     

    Gabinete/Escritório

    A estucagem do teto dessa sala apresenta seções ornamentais bem definidas, através de formas orgânicas emolduradas por frisos e cornijas corridas por meio de gabaritos. Elas são simétricas em relação aos dois eixos do forro quadrangular. A pintura explorada em diferentes cores ressalta as ornamentações elaboradas em relevo, que contrastam com as superfícies lisas.

    No ornato central, o friso interno usou pequenas folhas de acanto invertidas, com a função de amparo, cujo fundo pintado em vermelho destaca os elementos brancos. Os ornamentos fitomórficos de encher apresentam uma série de entrelaçados, enroscados e sombras produzidas por ornatos vazios ou ocos, que dificultariam a utilização de moldes para reproduzi-los. Provavelmente, foram modelados in loco. Nas áreas laterais maiores e menores do forro – definidas por cornijas corridas através de gabaritos e emolduradas por um friso decorado com pequenos acantos – se repete a mesma ornamentação de encher, composta por um rendilhado que utiliza um elemento na forma de um “3” que circunda pequenas margaridas ou uma esfera, repetido nos dois arranjos. A repetição dessas formas indica que essas peças foram reproduzidas em série através de moldes.

              

    Ornatos modelados in loco, a partir de dois desenhos/projetos diferentes, se alternam nos quatro cantos do forro. Naqueles que utilizaram a mesma matriz observam-se peculiaridades típicas do trabalho artesanal executado à mão livre. Um dos motivos mostra o torso de dois putti, circundados por folhagens sinuosas e contorcidas – com alguns pontos vazios –, que finalizam em três pequenas esferas. Destacamos as nervuras das folhas traçadas com incisões, e as diferenças nas faces, nos cabelos e nas dobras sobre o ventre das figuras. 

            

    O outro motivo mostra um pastor sentado sobre um banco e que toca um pífaro, ao lado de uma vegetação. Aos seus pés, um cachorro e um chapéu caído ao chão. De um lado, um espaço cercado, ajardinado e enfeitado por uma fonte, que antecede um sobrado. Sobre o telhado, uma chaminé expele uma nuvem de fumaça. Do outro lado, um rebanho de ovelhas e reses. A composição é ingênua e romântica ao explorar uma paisagem que remete à zona da campanha gaúcha. Um momento lírico de pausa dentre as atividades nas estâncias de criação de gado. A singeleza do artífice e, por consequência, do arranjo feito à mão livre se revela nas desproporções das figuras, tanto individualmente, como no conjunto. As diferenciações da modelagem são percebidas na cabeça da figura humana: numa delas está ereta; na outra, está inclinada para o lado esquerdo da representação. Nos rostos, os olhares e, sobretudo, o formato dos lábios, são também diferenciados. Assim como nos outros tetos, o rodaforro explora cornijas contínuas corridas no local, intercaladas por frisos ornados com acantos estilizados, que têm a função de encher. Esses elementos foram obtidos através de moldes. O fundo pintado de cores fortes – o azul e o vermelho – contrasta com os elementos pré-moldados e pintados de branco.

     

     

     

    Dormitório do casal

    O forro estucado tem as seções bem definidas, limitadas por cornijas corridas por meio de gabaritos, que emolduram zonas com elementos em relevo, e outras, com superfícies lisas. As diferentes áreas são rebatidas nos dois lados opostos dos eixos – longitudinal e transversal – da forma retangular do teto branco. No enfeite central definido por uma circunferência, elementos pré-moldados de encher divergem de um núcleo esférico, que tem a função de suspender. A esfera decorada com losangos é circundada por folhas de acanto invertidas. Os ornatos restantes simulam caules e folhagens que parecem brotar da forma esférica. A decoração é emoldurada por cornijas corridas no local e por um friso com acantos, obtidos por meio de moldes e fixados em sequência.

          

    Nos quatro cantos, as ornamentações são emolduradas por cornijas corridas por meio de gabaritos. As áreas internas dessas seções seguiram dois desenhos/projetos diferentes – modelados à mão livre –, que se alternam nas arestas opostas do retângulo do teto. Uma das composições apresenta um tocheiro circundado por arabescos de encher fitomórficos, desenvolvidos em entrelaçados e enroscados. O tocheiro pode estar relacionado com o conhecimento. Muitas vezes, é o atributo da deusa romana Vesta, que corresponde à Héstia dos gregos, responsável por manter acesas as chamas da lareira do Monte Olimpo, que simbolizavam a continuidade da vida e as relações harmoniosas. Nesse caso, a harmonia do casal que compartilhava o dormitório.

            

    O outro arranjo mostra uma efígie masculina de perfil e ornada por uma coroa, como numa medalha ou moeda, cuja moldura é composta por contas – semelhantes àquelas de um rosário ou colar. A efígie alude à aristocracia intelectual da qual fez parte o Conselheiro Maciel, composta por antigos Ministros de Estado. No entorno desse ornato se repetem os mesmos elementos da decoração anterior. Nas duas composições, moldadas in loco, são perceptíveis diferenças nas fisionomias dos perfis masculinos representados, como também variantes nos arabescos que exploram a flora.

    As laterais maiores são enfeitadas por cornijas corridas in loco, cuja parte central é seccionada, onde se insere uma roseta. As laterais menores têm a seção emoldurada, sem o preenchimento de ornamentos. O rodaforro é enriquecido por cornijas corridas através de gabaritos, que se alternam com três diferentes frisos. De cima para baixo, o primeiro é composto por pequenos acantos invertidos, pré-moldados e fixados em sequência. O segundo segue o modelo de moldura em ovo e flecha, cujos elementos foram obtidos através de moldes. O terceiro também empregou ornatos pré-moldados, que representam folhas de acanto estilizadas, intercaladas por pequenos pingentes

      

     

     

     

    Dormitório das duas filhas do casal

    O forro é quase quadrado, possui as seções bem definidas, regulares e emolduradas por cornijas corridas por meio de gabaritos. O ornamento central é simétrico em relação ao eixo longitudinal do teto, composto por dois dragões alados e rebatidos nos lados opostos da área enfeitada. As caudas dos animais terríficos finalizam em folhagens sinuosas, envolvidas por hastes e folhas entrelaçadas. Pequenas incisões destacam as texturas da couraça dos corpos dos bichos, como também as nervuras dos elementos florais. Essas peculiaridades e as diferenças dos ornatos indicam que a decoração foi efetuada no local.

    Nos quatro cantos, cornijas corridas in loco encerram dois diferentes desenhos/projetos, que se alternam nas arestas opostas da forma retangular do teto. A iconografia dos dois arranjos alude ao ambiente feminino. Um deles explora a figura de um anjo, que pode estar associado à Eros ou Cupido, posto que há um arco e uma aljava com flechas entre as pernas da figura alada. A divindade parece dialogar com dois pequenos seres angelicais que pairam no ar. Elementos fitomórficos de encher circundam o motivo explorado. No alto, quatro flores de forma estelar. Na parte inferior, folhagens sinuosas se entrelaçam e apresentam diminutos botões de rosas. Modelados à mão livre, os arranjos apresentam diferenças nas peças de encher. Os membros das interpretações do deus do amor são desproporcionais, nas quais são visíveis as variações das expressões faciais, das plumagens das asas e dos cachos de cabelos.

          

    O outro desenho/projeto tem como elemento central uma figura feminina, que se assemelha a uma boneca. Ela ostenta um vestido – com decote e a barra da saia ornamentados – trespassado por uma guirlanda. Os braços e as mãos abertos e elevados sustentam uma cartela tremulante. Ornatos fitomórficos dispostos em movimentações sinuosas embasam e circundam o motivo antropomorfo, e finalizam em buquês de flores ou em botões de rosas. Pequenas diferenças nessas peças indicam a modelagem desenvolvida no local: a postura da cabeça e a expressão fisionômica da figura; a disposição das rosas e das pétalas das mesmas; os relevos da cartela.

          

    Nas laterais do forro, cornijas corridas através de gabaritos emolduram áreas retangulares com extremidades arredondadas. A decoração dessas zonas usou peças de encher, constituindo um rendilhado através da forma de um “3” – fixada em sentidos variados – que circunda uma esfera diminuta. Pequenos frisos sinuosos enfeitados com incisões definem a trama ornamental. A repetição das peças aponta para a produção serializada, obtida através de moldes. O fundo pintado de vermelho realça os arabescos em relevo.

      

    O rodaforro explora diferentes cornijas corridas por meio de gabaritos. E um friso composto por elementos pré-moldados e fixados em sequência, numa sucessão de acantos estilizados. O fundo em azul escuro salienta as peças em relevo e pintadas de branco.

     

     

     

    Dormitório do filho do casal

    A estucagem desse teto é simples, reduzida ao ornato central e ao rodaforro, que apresenta uma série de cornijas corridas por meio de gabaritos. A sobriedade da decoração harmoniza com o ambiente masculino. No centro, a ornamentação é emoldurada por cornijas curvas corridas no local, que definem uma área constituída de quatro lóbulos, onde os elementos de encher se desenvolvem a partir da peça central, que cumpre a função de suspender. São dois desenhos/projetos rebatidos nos lados opostos dos eixos – longitudinal e transversal – do forro retangular. Os motivos exploram arabescos fitomórficos sinuosos, que se entrelaçam e apresentam mascarões, flores, botões e ramalhetes de rosas. A composição foi modelada à mão livre, com formas delicadas e com muitos detalhes. O azul claro do fundo ressalta os ornatos em relevo e pintados de branco. Assim como o azul mais escuro realça as cornijas que emolduram o arranjo decorativo

            

     

    TextoImagem

     

    Vestibulo

    A porta principal – com duas folhas engradadas e almofadadas – e o para-vento que dá entrada à sala de recepção/distribuição ocupam quase que totalmente as paredes menores do vestíbulo. As superfícies murais receberam pinturas realizadas na técnica da escaiola, subdivididas em seções retangulares dispostas no sentido horizontal e vertical, com ângulos chanfrados ou arredondados. E pequenas áreas triangulares ou circulares.

    Os fingidos do mármore apresentam rico colorido e exploram: o fundo branco com veios em cinza, o laranja com sulcos em vermelho, o branco com filões de lilás, o branco com laivos amarelos. Frisos em tons do cinza, do vermelho e do preto reforçam os limites das figuras geométricas ornamentadas.

    Dividindo as zonas inferiores e superiores dos muros se desenvolvem barras horizontais que imitam cornijas, cujos efeitos do trompe l’oeil simulam a tridimensionalidade. O rodapé é composto de placas de mármore natural, sobrepostas à decoração mural.

            

     

     

     

    Sala de Recepção / Distribuição

    As paredes do aposento foram divididas em duas seções – uma superior e a outra inferior. Ambas decoradas com escaiolas. A área superior recebeu fingidos de mármore, replicados em todas as paredes. As falsas placas de pedra foram seccionadas por seções retangulares dispostas no sentido horizontal ou vertical – cujos ângulos são chanfrados –, adaptadas aos pequenos espaços dos muros entre os vários vãos que dão acesso para outras salas da casa. Os simulacros de mármore apresentam fundo de cor branca com estrias em azul, ou com o fundo branco e veios em amarelo e cinza. 

    Uma barra larga e horizontal, que imita brechas portuguesas, ressalta a divisão dos muros em duas seções. Na inferior são rebatidos simulacros de mármore de fundo cinza claro com veios em cinza escuro. Uma linha preta destaca as áreas circulares, que simulam mármores de fundo branco com estrias em tons do amarelo e do ocre

    Os rodapés de madeira, que apresentam seções salientes emolduradas por cornijas, foram pintados com a técnica do marmoreado. Diferentemente da escaiola, que é desenvolvida sobre as superfícies estucadas – também denominada como estuque liso ou estuque lustrado. No marmoreado, a pintura é realizada sobre qualquer tipo de suporte: madeira, papel, tecido, pedra, etc. Nesses exemplares, os fingidos de mármore exploram o marrom escuro com nuances do vermelho, com filões em tons do verde e do branco.  

          

     

     

     

    Sala de Circulação

    Escaiolas enfeitam as superfícies murais da sala de circulação, que conecta os ambientes íntimos às salas sociais e à área de serviços. Os motivos explorados foram rebatidos nos diferentes segmentos dos muros, adaptados às dimensões variantes dos mesmos. As paredes foram subdividas em duas zonas – superior e inferior. O simulacro de uma cornija reforça essa subdivisão. Os efeitos em trompe l’oeil – em tons do cinza, do branco e do preto – decorrem na impressão de tridimensionalidade. 

    No segmento/corredor que liga essa área aos cômodos nobres da casa, a zona superior recebeu retângulos dispostos no sentido vertical, com cantos chanfrados, e que apresentam fingidos de mármore de fundo branco com sulcos em tons do ocre e do laranja. São emoldurados por uma seção que imita o mármore de fundo cinza com filões brancos.

          

    Na zona inferior, os retângulos foram posicionados no sentido horizontal e vertical, e fingem mármores de fundo branco com estrias em negro e variantes do cinza. Eles encerram losangos que imitam pedras de um fundo ocre avermelhado, com ramificações em branco e veios azulados. Uma área com as mesmas características pictóricas emoldura as figuras retangulares.

    O rodapé de madeira foi decorado na técnica do marmoreado, e simula o mármore de fundo cinza claro e esverdeado, com laivos em tons do cinza escuro e do ocre.

    Os motivos decorativos e o colorido dos muros e dos rodapés se repetem nas superfícies parietais restantes. O ambiente foi dividido em duas áreas, por duas colunas engastadas às paredes e que embasam um arco abatido. Os fustes escaiolados desses elementos simulam mármores de fundo branco com veios em tons terrosos.

          

     

     

     

    Corredor de acesso à área de serviços 

    A parede estucada do corredor – que que leva à área de serviços – foi dividida em duas seções, uma inferior e a outra superior. Uma falsa cornija realça essa subdivisão, cujos efeitos de trompe l’oeil realizados em cinza, branco e negro simulam a tridimensionalidade.

    Na área superior, retângulos com cantos arredondados – traçados em sequência no sentido vertical e no horizontal – apresentam falsos mármores de fundo branco com sulcos em tons de cinza. Frisos que exploram tons de azul, do cinza e do preto sugerem relevos tridimensionais. Os quadriláteros são contornados por uma barra que finge o mármore de fundo branco com laivos em tons do amarelo e do laranja.

    Na área inferior, retângulos com cantos chanfrados – dispostos em sequência no sentido horizontal – imitam mármores de fundo branco com nervuras em tons do laranja, do amarelo e do magenta. Eles são emoldurados por pequenas faixas brancas, que alternam linhas pretas e sugerem a terceira dimensão. Essas seções são circundadas por outro fingido de mármore de fundo branco com estrias em nuances do laranja, do amarelo, do ocre e do cinza.

    Os rodapés de madeira – com partes salientes demarcadas por cornijas – receberam decorações na técnica do marmoreado. São simulacros do mármore de fundo branco com laivos em tons diferentes do verde, do ocre e do cinza.

          

     

     

     

     

    Ladrilhos hidráulicos

     

    Vestibulo 

    O vestíbulo foi o único ambiente da casa a ter o piso revestido com ladrilhos hidráulicos, cujo resultado final se assemelha a um tapete ornamental. A decoração é composta por três segmentos. No friso de acabamento – junto às superfícies murais –, a continuidade do desenho expressa movimento na complementaridade da forma através das peças seguintes.

    Em cada ladrilho foram usados tons do azul claro, do amarelo, do vermelho e do preto. A forma de uma palmeta se desmembra em linhas curvas e contracurvas, que finalizam em acantos estilizados. Nas peças de canto, com o mesmo colorido, as linhas sinuosas encerram o broto de uma folha e, no lado oposto, um círculo emoldura uma flor. No conjunto, o friso sugere uma sucessão de corações que alternam cores e sentidos inversos. 

    No segmento seguinte, que emoldura o arranjo central, foram necessárias quatro diferentes peças para compor o motivo decorativo. Em cada ladrilho foi definida uma faixa diagonal ao quadrilátero, que usou da cor vermelha e apresenta círculos amarelos. Ela é ladeada por duas estreitas linhas, uma em amarelo e a outra em preto. Nos cantos, seções semi-circulares – com bordas retas ou em lóbulos – alternam tons do azul, do cinza, do vermelho e do amarelo. No conjunto, a ornamentação explora losangos que emolduram espécies de mandalas.

          

    A composição central é influenciada pela estética barroca.  Foram utilizadas 16 peças no padrão de quatro x quatro, para a criação de um exemplar rico em detalhes e complexo no domínio das técnicas – nos sombreamentos das formas e das linhas, que simulam a tridimensionalidade. O colorido harmônico usou tons do ocre e do creme, do vermelho e do dourado, do cinza e do negro.

     Um friso contorna essa seção, cujas faixas longitudinais emolduram linhas quebradas que se entrelaçam, como elos de uma corrente.

        

    O motivo decorativo lembra um escudo. No centro da forma quadrangular, um círculo inscrito num elemento cruciforme – espécie de mandala estrelada – que se assemelha às engrenagens de uma máquina. Ele é emoldurado por cartelas denticuladas, ornadas por volutas, palmetas e acantos estilizados. Na sequência, as cartelas são circundadas por linhas espiraladas e sinuosas, das quais despontam elementos que lembram um cetro – atributo de autoridade e poder real. É muito provável que a alusão às máquinas simbolize a industrialização e, por consequência, a modernidade. Assim como o cetro esteja relacionado à intelectualidade e ao poder político do proprietário da casa – o Conselheiro Francisco Antunes Maciel.

        

     

     

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    PTCD/EAT-HAT/11229/2009

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