Filter

    Palacete Bibi Costa

    Palacete Bibi Costa
    Palacete Costa, Palacete José Júlio de Andrade, Castelinho.
    XX
    1904/1906
    Brazil

    O autor do projeto da edificação fora o engenheiro Francisco Bolonha (1875-1938). De acordo com  Thais Toscano (2013), os mosaicos utilizados nos revestimentos de pisos externos foram criados, provavelmente, pelo francês Joseph Cassé.

    Belém, Pará
    - 1. 45061
    - 48. 48416
    COM_CCK_hhh

    O Palacete Bibi Costa, localizado em Belém, no Estado do Pará, está situado em terreno na esquina das ruas Rua Joaquim Nabuco e Avenida Governador José Malcher, no bairro de Nazaré. O referido bairro é, predominantemente, residencial e fora urbanamente estruturado durante o governo do intendente Antônio Lemos (1897-1911), época a qual a região do bairro fora ocupada por famílias da elite gomífera, originária da comercialização internacional da borracha amazônica. O terreno da construção foi diminuindo com o passar dos anos e com a alteração de proprietários, perdendo parte de sua área posterior.

    Construído seguindo a linguagem eclética, vigente na época como a representação burguesa de status social, a antiga residência do major Carlos Brício da Costa apresenta um recuo lateral, posterior e frontal. O edifício exibe duas fachadas, sendo a principal aquela voltada à Avenida Governador José Malcher, onde apresenta a entrada principal, por meio de uma escada em concreto. Distribui-se em quatro pavimentos: o porão, o qual era utilizado para alojamento dos empregados da residência; o primeiro pavimento, destinado ao setor social; o segundo pavimento, funcionando como setor íntimo da família; e os dois torreões, os quais possuíam acesso apenas para limpeza, não havendo função delimitada. Ademais, o segundo pavimento era marcado por um terraço mosaicado, não mais existente. As fachadas apresentam balaustradas em suas varandas, assim como molduras argamassadas imitando tijolos, esculturas ornamentais em bronze e portões em ferro fundido trabalhados ao estilo Art Nouveau. As esquadrias apresentam vidros bisotados com a inicial do primeiro proprietário – CBC.

    A fachada principal encontra-se na Av. Governador José Malcher e apresenta a entrada nobre da residência, por onde os moradores recebiam seus convidados em saraus, bailes, etc. No patamar da escada, encontra-se o mosaico com as iniciais do primeiro proprietário, em estilo Art Nouveau. Esta fachada apresenta os detalhes argamassados em forma de tijolos, esquadrias com as inicias bisotadas, uma pequena sacada, a qual apresenta uma balaustrada também imitando tijolos. Abriga um dos torreões, o qual apresenta óculos circulares. O telhado é revestido em telha Marselha e os beirais são adornados por mãos francesas detalhadamente ornamentadas. Os condutores de águas pluviais e o portão, ornamentados seguindo os princípios do Art Nouveau, são em ferro fundido. A fachada também abriga uma escultura feminina em bronze, possivelmente representando uma bacante ou ninfa.

    A fachada secundária está voltada à rua Joaquim Nabuco e, assim como na fachada principal, apresenta o mesmo tipo de ornamentação argamassada imitando tijolos. Esta fachada apresenta sacadas em concreto de grande proporção, um feito vanguardista para o momento, tendo o engenheiro Francisco Bolonha utilizado trilhos de bonde no local de tração do concreto armado, uma vez que os perfis metálicos circulares utilizados atualmente ainda não eram disponíveis na região nesta época. Ademais, originalmente, houvera um terraço balaustrado, o qual fora retirado para ampliação do segundo pavimento, provavelmente alguns anos após a inauguração da residência.

    ARRAES, Rosa. A função social das decorações e seus ornatos dos palacetes na Belle-Époque da Amazônia. A Casa Senhorial em Lisboa e no Rio de Janeiro: Anatomia dos interiores. Pg. 517-533. Instituto de História da Arte da Universidade Nova de Lisboa/Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Lisboa-Rio de Janeiro, 2014.

    COSTA, Felipe Melo da.  A tecnologia estrutural do engenheiro Francisco Bolonha em Belém-PA. 162 f. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) - Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo, Universidade Federal do Pará, 2016.

    PINTO, Amanda Monteiro Corrêa. Palacete Bibi Costa: proposta de intervenção, restauração e readaptação funcional. 256 f. Trabalho de Conclusão de Curso – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Pará, Belém, 2010.

    SARGES, Maria de Nazaré. Belém: Riquezas produzindo a Belle-Époque (1870-1912). 2ª Ed. Belém: Paka-Tatu, 2000.

    TOSCANO, Thais Zumero. Mosaicos de Belém: História e Conservação. 133 f. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Pará, Belém, 2013.

    Acervo da Administração Hidroviária da Amazônia Oriental (AHIMOR), órgão subordinado ao Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT).

    1904 – O major Carlos Brício da Costa e sua esposa Anna Macdowell da Costa encomendam o palacete, com projeto do engenheiro Francisco Bolonha.

    1906 – O Palacete é inaugurado, ano em que recebe como hóspede o então Presidente da República do Brasil, Afonso Penna.

    1909 – Morre o major Carlos Brício da Costa.

    1910 - Anna Macdowell da Costa, como inventariante, efetua o leilão da edificação, a qual estava hipotecada para o Banco do Pará. O coronel José Júlio de Andrade arremata o edifício, sendo atribuídas a ele algumas alterações realizadas no imóvel, como o fechamento do terraço.

    1952 – O casal José Júlio de Andrade e Laura Neno de Andrade se mudam da cidade e, não deixando filhos, vendem o palacete. Lauro Alves Ramos, casado com Marina Alves Ramos, adquiriu a residência no dia 3 de setembro de 1952, conforme registro em cartório.

    1967 – A edificação é comprada pelo Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis do Ministério de Transporte e Obras Públicas (DNPVN), sendo em seguida alugado para a Secretaria de Planejamento do Estado do Pará (SEPLAN). Após a SEPLAN adquirir sede própria, o prédio fora devolvido para a Administração Hidroviária da Amazônia Oriental (AHIMOR), órgão correspondente ao extinto DNPVN.

    1975 – É construído um prédio anexo ao Palacete, em linhas modernas, para abrigar a sede da AHIMOR, deixando apenas parte do Bibi Costa ocupada por funcionários. Algumas alterações relevantes são realizadas, como o acréscimo de uma circulação horizontal entre o anexo e o Palacete.

    2003 – O Palacete é tombado pelo Departamento de Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural (DPHAC), vinculado à Secretaria Executiva de Cultura (SECULT) do Estado do Pará, estando inscrito no Livro do Tombo nº 03, referente a Bens Imóveis de valor histórico, arquitetônico, urbanístico, rural, paisagístico.

    2018 – Até a última visita realizada, o Palacete ainda estava em mãos da AHIMOR, que ocupava provisoriamente toda a edificação de Francisco Bolonha, em virtude de obras realizadas no prédio anexo. Não havia, porém, perspectivas de obras de restauro e reabilitação da construção eclética.  

    Textos: Professora Cybelle Miranda, Professor Ronaldo Marques de Carvalho e Arquiteta Beatriz Maneschy

    Elaboração das plantas: Arquiteta Beatriz Maneschy

    Fotografias: Arquiteta Mestre Vithoria Carvalho da Silva e Arquiteta Beatriz Maneschy

     

    Programa geral, tipologia e planta

    O edifício apresenta uma planta longitudinal, setorizada de acordo com os pavimentos: piso -1, serviço; piso 0, social; piso 1, íntimo; e piso 2, sem setorização; a entrada nestes ambientes era feita pelos empregados apenas para realizar a limpeza. Os pavimentos são interligados por uma escadaria em madeiras de lei amazônicas de vários tons, houvera também uma escada em caracol que ligava o segundo pavimento aos torreões, desaparecida atualmente. Ainda que a fachada mais extensa seja a localizada na rua Joaquim Nabuco, a entrada principal está locada na Avenida Governador José Malcher, uma vez que, na época da construção do palacete a rua Joaquim Nabuco ainda não havia sido aberta, sendo, então, um grande largo e, além disso, a então Avenida São Jerônimo era uma rua habitada pela elite e morar nela era sinônimo da pomposidade da alta sociedade gomífera, ligada aos lucros da borracha amazônica.

     

    Piso -1

    O porão habitável era adentrado por uma tímida entrada de serviço, camuflada entre as janelas. Lendas urbanas da antiga Belém afirmam que era neste porão, no ambiente localizado logo abaixo da escada principal, que o coronel José Júlio de Andrade torturava seus empregados. Além de estar destinado aos criados, no porão também havia uma adega rebaixada a 70 cm do nível. Atualmente, o porão é utilizado como biblioteca, copa e salas de funcionários da Autarquia federal.

     

     

    Piso 0

    No primeiro pavimento haviam os ambientes destinados ao uso dos moradores e seus convidados e hóspedes, como a sala de espera e o salão de jantar. Ademais, aqui estava o que havia de mais moderno para a época: sala de banho e cozinha, munidas com instalações hidráulicas das mais nobres do momento. Neste piso também havia uma capela, algo comum nas residências da sociedade burguesa da borracha amazônica. Os detalhes do interior do edifício estão pintados com uma camada de tinta branca e divididos para abrigar os funcionários da AHIMOR.

     

    Piso 1

    Após acessar a escada em acapu e pau-amarelo, adentra-se ao segundo pavimento, ambientado por dormitórios, uma sala de banho e gabinete. Três elementos do projeto original atualmente encontram-se inexistentes neste pavimento: o terraço, a escada em caracol e um bow-window, o último localizava-se no dormitório fronteiro à Avenida José Malcher. Em 2001, a edificação sofreu um incêndio devido a um curto circuito em um dos computadores, atingindo grande parte deste pavimento e, sem repasse de verbas do Governo Federal, a AHIMOR não pôde executar o projeto de restauro concebido ainda em 2001, o pavimento encontra-se desocupado e desativado até a última visita realizada na construção.

     

    Piso 2

    Chegava-se aos torreões por meio de escada em caracol, não possuía função demarcada além da vista privilegiada da cidade (podendo ser considerado um mirante), e de acesso dos criados para limpeza. Fora criado um mezanino extemporâneo e por meio dele os torreões eram acessados por uma circulação vertical, e uma horizontal entre as duas torres. Entretanto, este ambiente também sofrera com o incêndio e atualmente encontra-se desativado.

     

    Piso 0, divisão 1, Patamar de Entrada

    Escadaria em concreto com balaustrada mimetizando tijolos, ao chegar na porta de entrada do palacete, depara-se com o mosaico com temas Art Nouveau, configurando as iniciais do primeiro proprietário, Carlos Brício da Costa.

     

    Piso 0, divisão 02, Peristylo

    Neste ambiente nota-se os mosaicos em madeiras amazônicas trabalhados em forma de rosa-dos-ventos. A madeira mais escura é chamada de acapu, e a mais clara, de pau-amarelo. No teto, observa-se o forro metálico em forma de caixotes retangulares e emoldurado por formas concheadas. Ademais, o lustre em cristal e bronze ainda é o original, com cúpulas em forma de pétalas de flores. As paredes são revestidas por conjuntos de painéis de madeira, entretanto estão atualmente cobertas por tinta branca.

     

    Piso 0, divisão 05, Salão de Jantar

    Este cômodo abriga o forro metálico, possivelmente apresentando pintura decorativa e painéis de madeira ornamentados, divididos em módulos por molduras caneladas, em forma de barra. As paredes são ornadas com molduras e, nas paredes divisórias entre ambientes, os membros são marcados por pilastras com capitéis compósitos com formas vegetalistas. Ademais, o piso é em assoalho de madeira de lei.

     

    Piso 0, divisão 06, Varanda

    A varanda em concreto armado é revestida em seu piso com ladrilho hidráulico decorado com círculos florais em tons mais frios e sóbrios, seguindo os preceitos do Art Nouveau. Ademais, a balaustrada é composta por bossagens, mimetizando tijolos.

     

    Piso 0, divisão 08, Corredor

    Este ambiente funcionava como uma espécie de varanda, tendo sido acrescentado provavelmente, em reforma não muito após a sua inauguração, uma sacada interligada ao ambiente, adquirindo ainda mais esse aspecto de varanda, um local onde os convidados podiam reunir-se após as refeições para conversar. A sacada interligada ao corredor possui ladrilhos hidráulicos apresentando formas em cruz, circunferências e quadriláteros, os quais aparentam cores quentes, diferentemente do piso da varanda do salão de jantar, que também se fazem presentes neste ambiente, localizados na divisão interna e externa da residência. Este ambiente ainda apresenta seu forro metálico rendado, porém pintado com uma camada de tinta branca, e seus lustres originais, de bronze e cristais, apresentando a temática Art Nouveau. Há a utilização de peças metálicas como cremones nas esquadrias deste ambiente, cujas vidraças ainda possuem as iniciais CB bisotadas, além de guarda corpos em ferro fundido.

     

    Piso 0, divisão 14, Hall de escadas

    Este é, inegavelmente, o ambiente mais notável e intocado da residência. As paredes mantêm os painéis em madeira originais, sem a camada de tinta branca encontrada nos outros cômodos, a exceção do forro dos lances na escada. O contraste entre o acapu e o pau amarelo, madeira amazônicas, fazem com que o espaço ganhe um aspecto nobre. A escada apresenta em seu guarda corpo uma lustrosa balaustrada em acapu, a qual apresenta uma bifurcação que leva ao pavimento superior.

     

    Piso 1, divisão 03, Sacada

    A constância das sacadas e varandas neste projeto deve-se ao clima quente e úmido da cidade paraense. Por isso, Francisco Bolonha utilizou diversas ferramentas que pudessem auxiliar no conforto térmico da residência, de forma que seguisse sempre a estética eclética. Uma delas fora a utilização de venezianas em todas as esquadrias da residência e a criação de pequenos óculos retangulares acima da esquadria, para a entrada de iluminação natural e ventos. Ademais, ao lado desta sacada está um dos condutores pluviais em ferro fundido que também era devidamente ornamentado.

     

    Piso 1, divisão 05, Dormitório

    Neste dormitório, assim como os demais, o piso é em arranjo de madeiras amazônicas, acapu e pau-amarelo. O lustre em bronze e cristal permanece em seu local original, pendente do forro metálico em padrão de relevo, cujas molduras mostram gregas decorativas. Notam-se dois nichos, possível expositor para peças ornamentais. Neste dormitório estava locado o bow-window, visto em fotos da época de inauguração do palacete, atualmente inexistente. Ademais as grades nas janelas apresentam ornamentos em ferro fundido na temática Art Nouveau. Detalhe para as passagens de ar recortadas nos forros metálicos, que permitiam um maior arejamento na casa, auxiliando no conforto térmico.

     

    Piso 1, divisão 7, Varanda

    Esta varanda apresenta guarda corpo em balaustrada mimetizando tijolos, o piso revestido em ladrilho hidráulico em temática fitomorfa e as esquadrias apresentam as iniciais CB bisotadas.

     

    Piso 1, divisão 08, Gabinete

    Este fora o cômodo no qual Afonso Penna despachara seus documentos e declaração em sua estadia em Belém, de acordo com jornal da época, este cômodo possuía ornamentos nas cores verdes. Atualmente, o piso desenhado em acapu e pau amarelo, as esquadrias e o forro metálico permanecem originais, assim como o lustre em cristais e bronze, na temática floral Art Nouveau.

     

    ttt
    COM_CCK_Validar
    COM_CCK_Validar
    PTCD/EAT-HAT/11229/2009

    Please publish modules in offcanvas position.