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    Casa à rua Silveira Martins, 1886

    Casa à rua Silveira Martins, 1886
    Brazil
    XIX

     

     

    Anúncio da empresa Antonio Jannuzzi & C. na Revista dos Constructores sobre a construção de casa à rua Silveira Martins, no Catete, Rio de Janeiro.

     

    “(...) Em um terreno de forma trapezoidal os architectos construiram uma casa de residencia, fazendo frente principal para a rua Silveira Martins com 12m,80 e lado para a travessa Carlos de Sá com 15m,00 excluindo as dependências que medem 6.80x8.70. Por estes dados vemos que a casa ocupa uma area de 192m²,00 no corpo principal que sommados a 59m²,10 das dependências perfazem um total de 251m²,16. 

    A chácara em que foi aberta a rua Silveira Martins era um baxio entre a rua da Pedreira da Candelaria e rua do Cattete, que fora aterrado com toda a quantidade de entulho possivel e imaginavel. Quando se tratou de fazer as fundações do predio, só na profundidade média de 4 metros foi que se encontrou terreno natural capaz de receber as primeiras camadas de lajões, que formam a base subterranea do edificio. 

    A natureza do terreno exigia que se empregasse material de primeira qualidade, o que effectivamente se deu. 

    Empregou-se a areia e cimento superior nas argamassas, pedras de alvenaria, grandes lajões e fisgotes no massiço.

    A ultima camada de 0m,50 de altura feita com lages argamassadas de cimento e areia em partes eguaes afim de formar uma camada isoladora entre as alvenarias do subsolo e as paredes exteriores. 

    A casa tem dous pavimentos e sua altura total é de 13m,32 inclusive a platibanda tendo o porão 1m,2. O 1º pavimento, tem 6m,50, 4m,66 o 2º pavimento e finalmente 2m,40 os frisos comprehendendo as architraves e platibanda. 

    A sapata e assobradado é todo de cantaria e serve de base ao 1º pavimento de estylo dorico de Scamozzi com janellas de arco pleno. O 2º andar é de estylo jonico, janellas rasgadas e de verga direita com architrave, friso e cimalha do mesmo estylo, sendo todo coroado por uma platibanda de genero que muito se combina com o conjuncto da construcção. 

    As janellas do 1º pavimento estão dispostas de forma a evitar que os transeuntes possam dominar o interior da casa, tendo para isso um embasamento de cantaria até a altura de 0m,70, encimado por uma grande de ferro fundido que serve de peitoril ás mesmas janellas. 

    Todas as molduras são corridas a cimento e as peças de ornamentação fundidas tambem com o mesmo material.

    O conjucto apresenta um aspecto agradavel e pouco commum, satisfazendo a nosso ver aos mais exigentes, pois em todas as disposições de ornamentação e de construcção, nota-se a arte, elegancia e solidez. 

    O interior do predio está disposto convenientemente, nota-se alem de solidas paredes divisorias de tijolo de 0m,25 de espessura, uma riqueza de execução que demonstra quanto cuidado e esmero tiveram os constructores no projecto e execução, observando-se luxo na decoração dos tectos. 

    Os soalhos são entabeirados e os tectos de estuque, cheios a gesso e cal, com ornamentações ricas e apropriadas ao respectivo compartimento, tendo os fundos pintados a fresco com dezenhos allegoricos, tornando-se digno de menção a pintura do gabinete annexo á sala de visitas e o do vestibulo onde os architectos adoptaram o estylo pompeiano. 

    Dá accesso ao 2º pavimento uma elegante e bem desenvolvida escada de peroba lustrada, com balaustres de piquiá-marfim encabeçados de jacarandá e terminando em um espaçoso patamar que dá communicação para todos os commodos d’este pavimento, que estão dispostos de modo a serem independentes ou a communicarem-se entre si.

    As esquadrias são todas de cedro e vinhatico muito reforçadas e com excellentes e ricas ferragens. A porta do vestibulo e a de communicação da sala de jantar com a sala de bilhar são primores de marcenaria nacional. 

    Esta porta é construida de forma a poder reunir as duas salas em uma só, quando se queira; é toda de vinhatico guarnecida de molduras e ornatos de jacarandá; está fixada mediante fortes dobradiças de bronze, á duas pilastras no mesmo genero da porta e encimadas por capiteis corinthios que sustentam um coroamento ornamentado. 

    A referida porta tem 2m,40 de largura. 

    O effeito deste trabalho é magnifico e nos parece actualmente unico entre nós. 

    Os vidros dos differentes caixilhos das janellas e portas da casa são todos inteiriços e de 2 grossuras, destacando-se os das portas de entrada, do vestibulo e da grande sala que são mousseline de elegante padrão. 

    Bons papeis forram as paredes e o vestibulo é pintado a oleo com paineis figurados e do estylo pompeiano, como já dissemos. 

    No que diz respeito as necessidades domesticas observam-se bons banheiros de marmore, com chuveiros, duchas, etc., com esgoto independente e isolado dos water-closets que são muito confortaveis. 

    Todos os commodos da casa tem serviço de campainhas electricas. 

    Não poderemos deixar de fallar da cozinha e dispensas que merecem menção pelos accessorios n’ellas collocados, isto é, fogão, bancas, pias, prateleiras, etc., caprichosamente executadas. 

    O porão da casa póde ser habitado por familias; nesse compartimento da casa ha dous grande tanques para lavagem, e feitos de cimento. 

    O solo d’este porão é todo calçado e cimento, e para evitar a humidade do terreno, o calçamento foi assente sobre uma camada de areia e carvão da espessura de 0m,60.

    A casa tem ao lado e nos fundos pateos ajardinados com uma graciosa cascata em cuja cavidade está projectado um gallinheiro. 

    O terreno occupado pelo jardim é circulado de um gradil de ferro, assente sobre soccos de cantaria. 

    O madeiramento e vigamento é feito de pinho de Riga; e a construcção das duas casas, incluindo o terreno, importou em 132:000$000.”

     

    Fonte:

    Revista dos construtores, 10 de maio de 1886.

    Coordenação: Ana Pessoa (FCRB), 2021

    Pesquisa e edição: Ana Lúcia V. dos Santos (EAU/UFF) e Andreza Baptista (PCTCC/FCRB)

    ttt
    PTCD/EAT-HAT/11229/2009

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