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    Interiores do Palacete Abrantes

    Interiores do Palacete Abrantes
    Brazil
    XIX,XX

     

    Histórico do palacete

    Em 1906, o Palacete Abrantes foi escolhido para hospedagem do sr. Elihu Root (1845-1937), Secretário de Estado dos Estados Unidos da América, que vinha presidir a III Conferência Panamericana. Como consequência, o antigo edifício da enseada de Botafogo mereceu renovada atenção da imprensa, como as reportagens  do jornal A notícia e da revista Renascença. Na ocasião, o palacete pertencia ao comendador Carlos de Araújo e Silva, herdeiro do Visconde de Silva, Barão do Catete, que desposara a viúva do Marques de Abrantes.

    A propriedade foi inicialmente chácara de recreio de cortesão joanino, Visconde Vila Nova da Rainha, quando recepcionou  a princesa Carlota e suas filhas. A partir de 1821, com o retorno do Visconde a Lisboa,  foi alugada  a inquilinos estrangeiros. Inicialmente  a familia Lescene, família de Louis François Lescene, pioneiro plantador de café, com fazenda na Gávea Pequena, em seguida, em 1825,  ocupada pelo Chefe da Esquadra inglesa, Sir George Eyre, que promovia agradáveis jantares e bailes, que foi sucedido, em 1827, por Sir Robert Gordon, Ministro Plenipotenciário inglês, que veio tratar de acordo de termino do “comércio de escravatura da costa da África”.

    Em 1827, foi comprada por a d. Pedro I, por 20 contos, para possibilitar banhos terapêuticos a seus filhos, contudo Sir Robert Gordon so a liberou em abril de 1828. Em julho de 1829, d. Pedro se mudaria para a casa com os filhos. Com a morte do então duque Brangaça, em 1834, a propriedade foi colocada a leilao pelo seu espólio, e comprada por Miguel Calmon du Pin e Almeida, então Visconde de Abrantes, em 1842, quando se tornou um prestigiado ponto de encontro da elite política e econômica, reunida em comentados saraus, tendo como anfritiã usa esposa, Carolina Bahia, futura marquesa de Abrantes e viscondessa da Silva.

    Por sua situação privilegiada, em um dos extremos da enseada de Botafogo, o palacete despertou o interesse de vários pintores, como Thomas Ender e Emeric Essez Vidal, e fotógrafos ao longo dos anos, resultando em uma coleção iconográfica que permitiu a Cau Barata realizar um estudo sobre as alterações de suas fachadas, divulgado no youtube. Ainda como documentação visual há, ainda, o retrato da Marquesa de Abrantes por Ferdinand Krumholz, de 1850, possivelmente sentada de cadeira do palacete, e uma rara fotografia do Visconde de Silva no interior do palacete, em 1903. 

    Complementam os registros sobre a propriedade, uma série de anúncios, memórias, correspondências e material jornalístico sobre os seus interiores, com destaque para duas reportagens de 1906 aqui apresentadas, e o anúncio do leilão de seus móveis e objetos, que documentam os seus luxuosos artefatos.

     

     

    A  visita da família real, em janeiro de 1816,  tão logo havia sido concluída a casa, foi comentada pelo  bibliotecário Marrocos em sua correspondência, em 23 de fevereiro de 1816.

    1. S. A. R a Sra. Princesa e suas filhas e competentes criadas foram passar um dia inteiro no Palácio novo do Visconde de Vila Nova da Rainha, no Sitio de Botafogo, por convite do m.mo Visconde; e foi a maior pompa, q. se tem observado, pelo q. pertence a mesa e recreio p. obsequiar a S. S. A. A. Pode imaginar-se a grandeza de todo o trem pa. Serviço das m.mas Senhoras, e pode igualm.te afirmar-se q. nada deste m.mo Serviço foi de fora. A excelente orquestra vocal e instrumental. Danças. Refrescos, e tudo o mais q. deveria solemnizar aq.le dia, de tudo De tudo o d.o Visconde lançou mão p.a se distinguir mais do Conde da Louzã; e findou o divertimento pelas 3 horas da madrugada do dia seguinte. S. A. R. se dignou conferir-lhe a Nova Ordem Hespanhola de S.ta Izabel Americana: e passados poucos dias renovou a sua Visita, com a diferença de não levar Criadas, e foi igualmente Servida com m.ma magnificência. (...) (MARROCOS, 1934, p. 260)

     

    Com o Visconde acompanhando d. João VI, em 1821, no seu retorno para Portugal, a casa foi anunciada para venda ou aluguel:

    Ausentando-se desta cidade o ilustríssimo e excelentíssimo Visconde de Vila Nova da Rainha por acompanhar a Sua Majestade para Lisboa, vende a sua casa nobre na Praia do Botafogo, ou a arrenda. Adverte-se que mística à maior casa, se acha edificada outra mais pequena, a qual também se vende, ou se aluga, separadamente da maior. Ali mesmo se achão restos de mobília, escravos remadores e bons plantadores de horta e de jardim, e huma carruagem ingleza em muito bom uso, tudo para se vender. Quem quiser tratar qualquer desses negócios, fale com Faustino Maria de Lima e Fonseca Gutierres, morador na Rua do Livramento a sair a Gamboa, que tem todos os poderes necessários. (A Gazeta do Rio de Janeiro 2 jun. 1821)

     

    A chácara foi, então, arrendada para a família de Louis François Lescene, pioneiro plantador de café, com fazenda na Gávea Pequena, cuja filha, a jovem Frances Mary LeCesne, registrou essa estada em memórias:

     It was situated at Botafogo, then the most lovely little bay imaginable, now spoilt by houses, causeways etc.  Then, as nature had made it, with only a dozen or more houses built around it, surrounded by mountains at a short distance with   the waves lapping up on the nice hard dry sand.  Never boisterous or noisy being land-locked with an occasional passenger on foot or on horseback passing along.

    Sir Henry [Chamberlain] came to our house one day bringing with him his private secretary, to witness my dear mother’s Will.  I remember standing at the end of the wide hall (some 100 feet long) and seeing Sir Henry, a tall, portly and very handsome man, pass across the other end into what we used to call the ‘bird drawing room’ from its being painted ‘al fresco’ with diverse wings of birds. Sir Henry was followed by a gentlemanly young man [=John Peter Hobkirk].  That was the first time I was to see the dear one, who was to be for 54 years, my beloved life’s partner.  [=John Peter Hobkirk].  Your father [= John Peter Hobkirk] has also said that he remembers seeing a young lady in white (my usual morning costume) at the further end of the hall.

     

    Em sua primeira estada no Rio de Janeiro, em julho a setembro 1825, o comandante inglês Sir Graham Eden Hamond pernoitou no palacete, então alugado a Sir George Eyre, no dia 28 de julho, conforme registra em seu diário:

    Não voltamos a Botafogo senão quase à meia-noite sob a luz de uma linda lua. Ali encontrei a maca, vinda do navio e já com um mosquiteiro para manter afastados esses enervantes insetos. Meu quarto é no andar térreo e pintado afresco; representa uma floresta brasileira com macacos vestidos de músicos, executando vários instrumentos. Minha penteadeira está coberta de miríades de pequenas formigas que penetram dentro de tudo. Já matei algumas baratas. No entanto, dormi toleravalmente, e escapei muito bem dos mosquitos. Ventou forte por toda a noite e, não obstante, minha janela esteve sempre aberta, embora eu não tivesse mais que um lençol para me cobrir. (HAMOND, p. 14)

     

    Sobre a ocupação de d. Pedro I, há menção da casa de Botafogo em sua correspondência com a marquesa de Santos, de 7 de abril de 1828.

    Querida Marqueza. Desejo saber se passou bem, e se lhe não fez indigestão o jantar de hontem. Eu estou bom, e todos a Duqueza ainda não pode sahir do Amaro lhe venha dar apermissão q logo há hirá: a Paula vai hindo. Estimarei q se devirta no seu passeio de cavallo hoje a Bottafogo que ouço que lánão  hirá tão cedo por eu hir lá morar. Estimarei que os seus pombos fação boa viagem pa a roça, e se quer outros alegando apropriedade delles depois de me dizer que os podia cá ter eu lhos mandos; mas não por alegar propriedade porq se fallar-mos nisso então.. contos largos.

    Aceite as protestos da maior mais sincera para e dezenteressada amizade com q sou. Querida Marqueza amo q mto a estima, e estimará. Imperador (RANGEL, 1974, p. 345)

     

    Tomas Ender (1816-1817), Emeric Essez Vidal (1827-30), S.Faux (1835), Carl W. von Theremin (1816-1835),  William Gore Ouseley (1852)

    Sobre o palacete dos tempos do Marquês de Abrantes, temos as anotações do diário de viagem do historiador norte-americano Samuel Greene Arnold, que estivera de passagem pelo Brasil em 1847, publicado com o título, Viaje por America del Sur, em 1951. O historiador Afonso de Taunay transcreveu o relato em sua coluna no Jornal do Commercio.

       A Viscondessa é senhora de alta estatura. Não conversei muito com ela. Presente se achavam seu Pai e Irmão. Este fala algum tanto do inglês. Certo cavalheiro Brown, holandês que por muito tempo esteve a serviço da Inglaterra e passou ultimamente ao Brasil achava-se ao lado do Sr. Lisboa, ex-ministro brasileiro nos Estados Unidos. Havia ainda três ou quatro cavalheiros mais cujos nomes ignoro. Não compareceu um outro, homem que muito viajou pela América do sul e devia comigo encontrar-se”.
       O Sr. Lisboa deu o braço à Viscondessa e o Visconde seguiu comigo e colocou-me à sua direita enquanto Lisboa se sentava à direita da Viscondessa. Os donos da casa sentaram-se no meio dos costados da mesa e não às cabeceiras. Fora o cardápio organizado inteiramente à brasileira e Arnold o elogiou, declarando-o “muito fino”.
      “O Visconde redobrando de atenciosidade, fez com que me servissem em primeiro lugar e brindou-me antes de todos. A minha direita estava o General Brown. Não é de praxe aqui que os convidados tomem vinho com a dona da casa. Podem, porém, beber lhe à saúde ao se defrontarem os olhares como fiz. Ufana-se o Visconde da sua instalação doméstica, que realmente é muito fina.
       Pertenceu o seu palácio a Dom Pedro I e foi decorado por artista italiano de apurado gosto. É de estilo clássico, delicado e elegante. Nas paredes da sala de jantar estão pintadas cenas da selva e outras fantasias. Ornamentam o salão cortinas de musselina de vivo carmesim. Vem a ser a mais elegante sala de banquetes do Rio de Janeiro.
       Ao salão de visita decoram pássaros pintados pelas paredes. No grande vestíbulo, ricamente empapelado, e cômodo aliás muito amplo, há magnifico piano. Ao lado desta peça abre-se o salão alemão em cujo mobiliário há mesas e jarrões de origem alemã e ainda vitrines encerrando cristais. Ocupam estes três cômodos um terço da casa que é fronteira à baia (de Botafogo) a que circundam colinas de pitoresca configuração. Dá a sala de jantar para o jardim.
       O Visconde, e com justo motivo, também se ufana dos seus vinhos e charutos. O aparelho de sobremesa era de cristal da Bohemia. Apresentou o cardápio grande variedade de carnes, frutas, doces e vinhos.
       Terminada a refeição descemos ao jardim e ali nos deram charutos velhos de sete anos, os melhores que, desde muito, fumava eu. É o Visconde, realmente, homem de bom gosto. No jardim mantive larga conversa com o General Brown sobre a guerra do México e depois com o Visconde sobre o Brasil.”

    Das recepções quando do segundo casamento da marquesa, tem-se os comentários de uma contemporânea,  Maria Amélia Barbosa de Oliveira, esposa de Geraldo Ribeiro de Sousa Resende, rico fazendeiro e futuro barão Geraldo Rezende.

       (...) Depois do segundo casamento continuou tudo na mesma maneira, de modo que, quando voltamos ao Rio em 1875, jantávamos sempre aos domingos na casa dos Viscondes de Silva, quer em Petrópolis, quer no Rio. A noite sempre apareciam muitas pessoas, sendo as recepções frequentadas por todo o corpo diplomático e por toda a alta sociedade. Ouvia-se boa música, dançava-se e fazia-se boa roda para causerie. É impossível haver senhora de maneiras mais distintas e cativantes do que foi a Viscondessa de Silva, nem quem soubesse receber. Dançava-se na sala de baile que ficava ao lado do jardim, entre o salão de entrada e a sala de jantar, que não mais se abria depois de acabado o jantar, salvo quando havia alguma festa, na qual era servida uma ceia; nas outras ocasiões o serviço era volante. 
       Do lado da praia de Botafogo e separada da sala de baile pelo corredor, estava o grande salão, com mobília dourada, forrada de damasco vermelho, reposteiros e safenas do mesmo damasco, o extenso soalho encerado. A sala em que recebiam sempre, toda forrada de tapetes era chamada a “sala dos pássaros” por ter as paredes pintadas com pássaros de todas as variedades, trabalho de um pintor de nomeada que tinha decorado peças no Paço de São Cristóvão.      Completavam a sala de baile, além de um piano, uma mobília laqué creme, azul-celeste e dourado, com assentos de palhinha dourada, reposteiros às portas e sanefas azul celeste às janelas, com cortinas de renda. As recepções eram muito animadas, e, de vez em quando, havia cotillon, no qual não raro apareciam figuras novas e de acessórios luxuosos. Depois de chegarmos ao Rio de novembro de 1875, não houve mais ali representações de amadores, mas antes disso as havia, e dizem os que as elas assistiram que eram ótimas. ([“carta-crônica de duas contemporâneas” apud PINHO, 2004. p. 278)

     

    Interiores do palacete sec. XX

    Em 1906, o Palacete Abrantes foi escolhido para hospedagem do sr. Elihu Root (1845-1937), Secretário de Estado dos Estados Unidos da América, que vinha presidir a III Conferência Panamericana. Como consequência, o antigo edifício da enseada de Botafogo mereceu renovada atenção da imprensa, como as reportagens  da revista Renascença  e do jornal A notíciia. Na ocasião, o palacete pertencia ao comendador Carlos de Araújo e Silva, herdeiro do Visconde de Silva, Barão do Catete, que desposara a viúva do Marques de Abrantes. Anos depois, em 1919,  o escritor Escragnolle Doria faria uma nostalgica crônica sobre o palacete, já então demolido.
     
    Palacete Abrantes", da Renascença, revista mensal de letras,sciencias e artes, 1906
    A revista apresenta uma coleção de oito imagens relativas ao palacete, por ocasiao da estada do representante americano. Apresenta o comendador e o jardim interno da casa. Há duas imagens ao grupo de autoridades que acompanham o Secretário americano, como o barão do Rio de Branco e o diplomata Joaquim Nabuco, uma, na escada da varanda de acesso ao palacete, e outra, na sala de jantar. 
    A reportagem segue apresentando os comodos nobres do palacete:  Sala de entrada (jarrões),  Sala pequena (bibelots), Sala de recepção, Salão de baileSala de jantar e  Sala dos pássaros
     

    "Um palacete histórico", A noticia,  19-20 de de julho de 1906

    ‘  (...) Efetivamente todas aquelas salas e gabinetes surpreende-se o visitante na contemplação dos moveis antigos com lavores e inscrustações, das vitrines ajoujadas de potes, de bibelots, de camafeus, de pequeninos trabalhos em margim de que a India e o Japão possuem delicado segredo.
      O vestibulo já com a sua escadaria de marmore, as suas quatro estatuas de bronze, os seus imensos jarrões azuis com parasitas, denunciam uma residência fora do comum, tranquila, alegre, luminosa onde deve ser quase glorioso viver. Ao fim da escada, uma pequena sala de assoalho encerado, com solenes reposteiros e ao estilo renascimento já apresenta uma boa parte dos tesouros artisticos que se vão admirar. Há ali aos cantos, em colunas, guerreiros de bronze, huguenotes, mosqueteiros, etc. Moveis antigos, com embutidos pacientes, ajoujados do vasos de porcelana, de saxes legítimos, de pequenos quadros todos com a sua assinatura valiosa e autêntica.
      Dessa sala passa-se à outra um pouco maior, com duas janelas para a rua Marques de Abrantes. Esta ai a coleção de pintura do sr. Comendador Araújo Silva, o atual proprietário do palacete. Não é uma galeria rica pela abundancia, mas pelos nomes que ai figuram: Fuschini, Diaz, etc. Os cristais, as porcelanas, os saxes ai são abundantes. Vimos lá a linda coleção que figurou na nossa exposição de Arte Retrospectiva. A mobília é toda de jacarandá. Há dois consolos soberbos, legítimos Boules e um serviço de chá em porcelana da Índia que pertenceu a D. João VI. Notamos que uma das xícaras era consideravelmente avantajada o que dá uma ideia surpreendente da quantidade de chá que a sua majestade toma.
       Outra sala mais além situada no canto do edifício, apresenta o mesmo aspecto, tendo uma rica e preciosa “vitrine” um soberbo grupo de legitimo Saxe, constituído por cinco peças, grupo este que certamente não tem igual. Na sala anterior, já viramos um espelho também de Saxe, objeto já hoje raro entre nós. O salão principal que se segue é ainda no mesmo molde dos anteriores e também aí abundam os objetos de arte, todos valiosos, sobre tudo pela rareza e antiguidade.
       Para o lado interno, deitando para o jardim, ficam os salões de baile e de jantar, bem próximos como é necessário porque nunca Terpsicose figuraria entre as musas si não atendesse às verdadeiras necessidades de uma graça sóbria e leve si não se alimentasse bem e o néctar e a ambrosia eram elementos imprescindíveis nas deslumbrantes festas do Olímpio. As pinturas desses dois salões datam de 1850 e apresentam-se notavelmente conservadas. Mas além, ainda no primeiro pavimento, há uma outra sala destinada a jogos com respectivos petrechos.
       Os aposentos do Sr. Elihu Root são os que ficam no pavimento superior, do lado da Avenida Beiramar, donde se descortina, num lindíssimo e maravilhoso golpe de vista, toda a enseada. Ainda ai abundam as mobílias antigas, todas preciosas. Nesses aposentos, como nos salões do pavimento inferior, andavam armadores trabalhando nos reposteiros, nos moveis, nas arandelas de bronze, ainda iluminadas a velas.
       Tal edifício em que o governo do Brasil, por gentil obséquio do Sr. Comendador Araújo Silva, vai hospedar o sr. Elihu Root. Devemos dizer que o palacete possui ainda um grande parque com dois grandes lagos, várias estatuas, onde se vê um monumental e antiquíssimo cactos, talvez único entre nós.
       A um dos lados fica a capela da Nossa Senhoria da Piedade, tão conhecida da alta sociedade de Botafogo que ali faz o seu culto.
      Ainda nas cocheiras do palácio nas preciosidades representadas por quatro soberbos coches de gala, adquiridos no leilão dos objetos da família imperial. Um desses carros é ainda do tempo de D. Pedro I, cujas iniciais se lêem nas portinholas.

     

    O escritor e jornalista Luis Gastão d´Escagnolle Dória, no artigo para a revista Eu sei tudo,  fez uma homenagem a Carolina Baia, a marquesa de Abrantes, em crônica, de 1919, onde comenta a festa da Glória e sua visita ao palacete no dia do leilão. Após percorrer seus decorados comodos, viu um quadro, possivelmente de Carolina, filha do barão de Meriti, que promovia grandes festejos no dia da padroeira da Igreja da Nossa Senhora da Glória, no século XIX.

    Dois aspectos da Gloria

    (...) Há pouco tempo, as vicissitudes da família, o destino tantas vezes apenas desgraça, deram chão com o palacete Abrantes, o solar histórico d´aquela praia de Botafogo, a princípio praia de Francisco Velho. Antes das demolições, vejo o clássico e triste leilão, vendidos aos lanços mais do que o objeto tradicional, almoedadas as recordações da família.
       O martelo bateu, dispersando uma serie de cousas preciosas, insubstituíveis algumas, moveis, joias, quadros, louças, pratarias, o esforço, a economia, o fausto de outras gerações, labutando, aferrolhando, ostentando.
    Leilão é espetáculo de todos, sem bilhete, sem convite, só pelo chamariz do anuncio garrafal.
    Entrei no leilão Abrantes. De sala em sala, amadores, negociantes, curiosos, curiosas, picadores, aglomeravam-se ao redor do Virgílio, juiz da hasta, sobre banco oscilante, distribuindo, lote por lote, as riquezas da casa a quantos deitavam as cruzes e os cunhos das audácias do gosto, do capricho, do lucro ou da exibição de cabedais.    O Estado, como sempre, devendo ser o primeiro licitante, para os seus museus, era o último, esquivo, sumido, pobretão.
       Vagueei pelo salão de honra, pela sala de jantar, onde haviam conversado, valsado e comido as personagens do Império, na casa do marquês de Abrantes, ombreando com todas.
       Jamais o Estado deverá ter consentido no desaparecimento do palacete, adquirindo-o para ornamento, até rendoso, das suas coleções históricas, confiando-o a conservador que não se preocupasse apenas no dia primeiro de cada mês em fazer, ao menos de cabeça e de sonho, a folha de pagamento do último dia para o Tesouro.   Por muito tempo procurei guardar bem nos olhos aquela sala de baile, espaçosa, cheia de mobília do tempo, rente à parede, esta lindamente pintada a fresco.   Ali, naquela sala de festa, cujo soalho já tremia por condenado a ir embora, Maciel Monteiro, o Don Juan sem Byron do segundo reinado, cortejando a esposa de certo deputado nortista e havendo combinado com a dama dos pensamentos, mas também do marido, passou pelo desgosto de conhecer que ela, os pensamentos dele e mais o marido, sabedor da aventura, naquele dia haviam regressado à província natal. O seguro morreu de velho e os cônjuges atilados imitam-lhe o exemplo. (...)
      Tudo ali, no salão de baile do palacete Abrantes. Subi no andar superior. Da parede de uma sala, de luz velada, pendia do muro grande retrato a óleo, de Krumhlotz (sic), creio, representando uma senhora, entre moça e mulher feita, toda de azul, em traje de sarau, nevada de rendas, faiscada de jóias. Leve sorriso iluminava o rosto, com a misteriosa expressão das mulheres que se sabem bonitas, por graça de Deus e unanime aclamação dos homens. Aquele retrato, na meia luz, sobre consolo pejado de vasos da Bohemia e de figuras de Saxe, era passado e ainda tinha vida, era sombra e parecia falar, tão vivas as tintas, tão coado o olhar, tão real e régio o donaire.Sob o quadro, um cartaz, o retrato não se vendia. Findou o leilão. Cada qual se retirou, satisfeito ou desiludido. E o retrato? Removeram-o porque o cartaz anunciava que não se vendia. Depuseram-no na garage do palacete e aí, segundo se afirma, os chauffeurs deram cabo dele, encostado à parede, esbarrando automóveis, entre chalaças de sal de cozinha.Aquele retrato resumi a festa da Gloria, evocava-a, quase lhe acendia as luzes, era todo um baile do Bahia.Desapareceu, mas quem o viu guardará para sempre a lembrança daquela imagem com tanta vontade de sair da tela recordará aqueles olhos avaliáveis, relembrando João Penha, em cem contos de réis cada um. (DORIA, 1919)

     
      

    Cronologia 

    Proprietários

    Francisco José Rufino de Souza Lobato (1773  – 1830), Barão [1809] e Visconde Vila Nova da Rainha Rufino de Souza Lobato [1810]. Estabeleceu a chácara de recreio às margens da enseada de Botafogo, onde recebia a família real. Com sua volta a Portugal, a propriedade foi alugada à familia Lescene, a Sir George Eyre, que promovia agradáveis jantares e bailes, e que foi sucedido, em 1827, por Sir Robert Gordon, quando foi comprada por D. Pedro I

    d. Pedro I (1798  – 1834), Principe, por Portugal, e Imperador do Brasil [1822  – 1831], Duque de Bragança [1831 – 1834] Foi casado com Leopoldina da Austria (1797 – 1826), com quem teve sete filhos, sendo que cinco sobreviveram: Maria Isabel, Januaria, Paula, Francisca e Pedro, e com Amélia de Leuchtenberg (1812 – 1873), com quem teve uma filha, Amélia. Adquiriu a propriedade em 1827, para promover banhos de mar a seus filhos, com a sua morte, o espólio colocou a venda, operação que só foi concluida em 1842

    Miguel Calmon du Pin e Almeida (1796 – 1865), Visconde [1841] e Marques de Abrantes [1854].  Formado em Direito por Coimbra, ocupou diversos cargos públicos e politicos, foi membro do IHGB, presidente da Imperial Academia de Música e Provedor da Santa Casa da Misericórida. Casou-se, em 1840,  com Maria Carolina de Piedade Pereira Baía (1824 –1880), filha de Manuel Lopes Pereira Baia, Barão de Meriti. Adquiriu a propriedade em 1842, e a legou como herança à sua esposa.

    Joaquim Antônio de Araújo e Silva (1827 – 1903), Visconde de Silva [1873], por Portugal, e Barão do Catete [1876] e com grandeza [1887]. Médico e político, tornou-se proprietário por seu casamento, em 1866, com a viúva Maria Carolina.

    Carlos Augusto de Araujo e Silva ( – 1916)

     

     

    1808 Chegada da corte portuguesa no Brasil

    1815 Construção do palacete por Francisco José Rufino de Sousa Lobato, Visconde de Vila Nova da Rainha.

    1816 O Visconde de Vila Nova da Rainha recebe a visita da princesa Carlota Joaquina e suas filhas no palacete de Botafogo.

    1821 Retorno do Visconde de Vila Nova da Rainha a Portugal, acompanhando o rei d. João VI.  A casa é anunciada para aluguel ou venda.

    1821 O palacete é alugado pela família de Louis François Lescene.

    1825 O arrendamento da casa passa a Sir George Eyre.

    1827 Arrendada a Sir Robert Gordon, embaixador extraordinário inglês.

    1827 Prédio e terreno adquiridos por D. Pedro I ao Visconde de Vila Nova da Rainha, por 28 contos. 19 de novembro

    1828 d. Pedro toma posse da casa.  Escritura de doação de terreno que fazem a Sua Majestade, d. Pedro I (14/07/1828), que contem casas nobres e jardim ou quintal

    1831 Abdicação e partida de d. Pedro, agora duque de Bragança

    1834 Morte do duque de Bragança

    1840 Casamento Miguel Calmon du Pin e Almeida, e Maria Carolina de Piedade Pereira Baía

    1841 Miguel Calmon du Pin recebe o título de Visconde de Abrantes

     1842  Visconde de Abrantes adquire a casa na terceira praça da venda em hasta pública, quando do inventário de D. Pedro I.   

    Os Abrantes se instalam no palacete de Botafogo (?)

    1843 O Visconde de Abrantes torna-se conselheiro de Estado

    1844-1846 Cumpre missões diplomáticas em Paris, Londres e Berlim

    1847 Jantar de Samuel Greene Arnold

    1854 Miguel Calmon recebe o título de Marquês de Abrantes

    1865 Morte do marquês de Abrantes. 13 de janeiro

    1866 Casamento com Joaquim Antônio de Araújo e Silva e Maria Carolina da Piedade Pereira Bahia em 10 de maio na capela da residência.Em consequência, perde os títulos de viscondessa com as honras de grandeza, e marquesa de Abrantes  

    1870 Roubo da capela na casa com Joaquim Antônio de Araújo e Silva (DN 18 nov 1970)

    1873 Dr. Joaquim Antônio de Araújo e Silva recebe o título de Visconde de Silva do rei de Portugal. 03 de novembro

    1875 ? Jantar relatado de Maria Amélia Barbosa de Oliveira 

    1876 Joaquim Antônio de Araújo e Silva recebe o título de Barão de Catete por decreto de 28 de junho de 1876, grandezas por decreto de 13 de outubro de 1887,

    1879 O Barão de Catete pede licença de seus cargos para residir por um ano na Europa.

    1880 Morte de Maria Carolina em Paris, 01 de janeiro, em Paris. Seu corpo foi trazido pelo vapor Henrique IV, e foi recebido ontem  por parentes e amigos e transportado por carro fúnebre para velório na capela residência, de onde seguirá para enterro no cemitério São Francisco de Paula. (Gazeta de Notícias 048,  18 fev 1880)

    1903 Morre o Barão do Catete. Sem filhos, deixa a maior parte de seus bens para seu irmão Carlos Augusto de Araújo e Silva, entre eles o palacete Abrantes. (18 de novembro)

    1906 Hospedagem Elihu Root

    1907 Hospedagem presidente argentino  Julio Rocca

    1915 Leilão dos móveis e objetos do palacete (JC 16 nov).   

    1916 Morte de Carlos Augusto de Araújo e Silva.

    1917 Leilão do terreno e edifícios a 9 novembro  (JC 1 nov 1917)

    1917 Demolição palacete ( JC 8 dez 1917)

    1919  Comentário leilão “Dous aspectos da Glória” (Eu sei tudo, 1919)

    1940  Inauguração do edifico Paraopeba

     

    Bibliografia

    A GAZETA DO RIO DE JANEIRO, 2 jun. 1821

    A NOTICIA. "Um palacete histórico", 19-20 jul.1906

    BARATA, Cau. Arquitetura neoclássica V - Palacete Marques de Abrantes 

    ESCRAGNOLLE DORIA, Luis Gastão. Eu sei tudo, no. 27, agosto 1919. p.23-26

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    Edição texto e imagem: Ana Pessoa (FCRB) e  Ana Lúcia Vieira dos Santos (EAU/UFF)

    Colaboração: Adams Vieira (Arquivo/FCRB), Sávia Pontes Paz (PIC/FCRB)

    Agradecimentos: Milton Teixeira e Wilma Oliveira

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    PTCD/EAT-HAT/11229/2009

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