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    Metamorfose dos portais barrocos em Portugal

    Metamorfose dos portais barrocos em Portugal
    Portugal
    XVIII

    Apresentação

         

    Enquanto elemento marcante da casa senhorial, o portal é um dos elementos arquitetónicos mais significantes da habitação da casa nobre. Integrado num complexo arquitetónico que marcava a entrada, o portal anunciava a condição social dos proprietários. Representados por diversas formas e feitios, os portais aqui dispostos foram planeados por arquitetos de períodos artísticos diferentes, logo, foram apresentam linhas e decorações variadas. Não obstante da importância dos portais de entrada desde o período medieval, os portais aqui apresentados são datados desde o século XVII até ao século XVIII, cuja decoração passa por diferentes metamorfoses, mas sempre com um objetivo em comum: acentuar dinamismo ao conjunto arquitectónico fachada teatral nas fachadas das casas senhoriais.

     

    Contexto Histórico

    Surgido na Europa do Século XVII e fortemente influenciado pelo Concílio de Trento (1545-1563), o estilo artístico que hoje conhecemos como barroco esteve presente nas diferentes cortes europeias, desde a corte de Luís XIV de França até à cúria romana de Urbano VIII. Tal como acontecera com outras vertentes artísticas, o barroco surgiu numa fase inicial em Roma, e foi gradualmente adotado por outros reinos europeus. Esta propagação estilística foi possível através da migração de arquitetos, ou pela circulação de gravuras e de tratados que ainda detinham uma forte importância na arquitetura.

    No mesmo campo, o período barroco privilegiou a construção/remodelação de palácios e edifícios religiosos, uma vez que os palácios eram utilizados pela alta aristocracia para fins habitacionais, e as igrejas pois eram consideradas como ferramentas utilizadas para recuperar a fé dos crentes, seguindo sempre as diretrizes tridentinas. Enquanto elementos citadinos, e de forma a envolver a sociedade com estes edifícios, os portais eram um dos elementos mais importantes que uma construção poderia ter. Resgatados do maneirismo, cuja vertente é caraterizada pela sobriedade e austeridade, os portais barrocos contrastavam através da profunda e elaborada decoração a que eram submissos, mantendo a estética classicizante através dos recursos às ordens e respetivos elementos clássicos. Os mesmos elementos não foram só utilizados como também foram modificados, de modo a apostar na vertente cénica e teatral dos portais barrocos. Esta teatralidade era adquirida através da aliança entre as diferentes disciplinas artísticas, e pelos efeitos luminosos que eram planeados de acordo com a disposição dos elementos arquitetónicos.

            

     Fig. 1 – Portais barrocos: A Portal do Palácio dos Marqueses de Xabregas em Lisboa– B Portal do Palácio do Calhariz em Setúbal. C – Portal da Casa Inacabada em Vila Boa de Quires. D - Portal do Palácio do Correio-Mor em Loures. E -Portal da Quinta da Boa Viagem, Viana do Castelo

     

    Portais Protobarrocos

    Ainda imbuídos de uma forte componente clássica, os portais denominados de protobarrocos caracterizam o período de transição para os portais barrocos. Surgidos no século XVII e inseridos em casas senhoriais, os portais protobarrocos começam a deter uma importância no complexo arquitetónico, pois através da sua presença é possível identificar os ocupantes do palácio, e devida posição social. A nível artístico, é possível denotar o recurso à arquitetura tratadística, uma vez que os elementos clássicos são reciclados, tendo como exemplo as «serlianas» e o uso das ordens clássicas. Apesar do recurso às ordens clássicas, numa fase inicial estes portais transparecem uma decoração austera e desprovida de decoração, algumas vezes comparada com o estilo chão, cujo exemplo é o recurso à ordem toscana e o rigor geométrico.

            

    Fig. 2 – Portais Protobarrocos: A - Portal do Palácio dos Condes de Alverca em Lisboa. B – Portal do Solar dos Azeredo em Oura. C – Portal da Quinta de Sto. António em Elvas

    Contudo, apesar da vertente tratadística, os portais protobarrocos apresentam uma abertura para a vertente barroca através da plasticidade de alguns elementos arquitetónicos, tais como os coruchéus, volutas aplicadas nos portais, frontões circulares ou triangulares quebrados, ou aplicação de cartelas sobre o portal. Estes elementos corroboram com o objetivo dos arquitetos barrocos, que surgiram num futuro próximo, que era a aplicação do movimento e criação de fachadas cénicas.

           

    Fig. 3 – Pormenores de portais protobarrocos: A - Portal do Palácio dos Condes de Alverca em Lisboa. B – Portal do Solar dos Azeredo em Oura

     

    Palácio Belmonte

    Apesar das suas reminiscências pertencerem a séculos passados, o palácio Belmonte começou por ter esta aparência a partir do século XVII, aquando da época da Restauração. Atendendo ao portal do mesmo palácio, é possível denotar alguns elementos arquitetónicos que permitem classificá-lo como protobarroco. Alguns destes elementos semblantes são fruto da mencionada reciclagem das práticas da arquitetura clássica, como por exemplo a conjugação das três pilastras laterais, onde uma delas apresenta-se canelada, ou mesmo o frontão interrompido em voluta de grandes dimensões de forma a enquadrar a janela de peito ao centro. Apesar deste costume por parte dos arquitetos barrocos, é possível verificar a presença dos coruchéus piramidais com uma forma circular no topo, o que não só contribui para a classificação maneirista do porta, mas também permite verificar uma transição da vertente protobarroca para barroca.

        

    Fig. 4 – Palácio Belmonte em Lisboa: A – Portal. B – Pormenor do portal. C – Fachada do palácio

     

    Palácio Azurara

    Tal como acontece com o palácio Belmonte, a origem desta casa senhorial é de época seiscentista, acabando por passar por diferentes proprietários. Tal como outros portais protobarrocos, o portal Azurara atesta a presença do rigor geométrico, a decoração que passa pelas pilastras nas laterais, ou os tríglifos e os lacrimais entre a moldura superior do portal e frontão. A rematar o portal encontra-se o frontão interrompido em voluta, encimados por coruchéus. De formas circulares, estes coruchéus apresentam uma abertura para a transição do estilo barroco, uma vez que através destas formas os arquitetos barrocos desejavam espelhar o movimento nas fachadas, de forma a contribuir para a ideia das fachadas cénicas. A acompanhar estes coruchéus, é possível encontrar pequenas volutas na base que contribuem para a ideia de movimento nas fachadas. Ao centro do frontão interrompido, encontra-se uma cartela, também presente nos portais protobarrocos, de tema floral, e rematado por mais um frontão triangular e três coruchéus.

              

    Fig. 5 – Palácio Azurara em Lisboa: A – Portal. B – Pormenor do portal. C – Fachada do palácio.

     

    Palácio da Bemposta

    Ocupado por Catarina de Bragança, o Palácio da Bemposta pode ser considerado como um dos melhores exemplos da primeira linha do barroco em Lisboa. Projetado primeiramente por João Antunes no século XVII, e reconstruído após o terramoto de 1755, o portal deste palácio apresenta uma transição do período maneirista para o barroco, de acordo com os elementos arquitetónicos dispostos. É possível denotar o rigor geométrico do portal, cujas molduras fazem-se representar por linhas retas, apesar da conjugação das pilastras apresentarem uma tendência para quebrar tal monotonia. Entre o portal e o frontão, é possível observar notas de decoração quadrangular, cuja aplicação contribui para o jogo de luz, entre o claro e o escuro, e, por conseguinte, contribui para a fachada cénica do edifício. No topo do portal está localizado o frontão semicircular interrompido, e demonstra, uma vez mais, a capacidade dos arquitetos barrocos em reciclar os elementos da arquitetura clássica. Ao centro do frontão, e a representar a família ocupante, do palácio, encontra-se o brasão, decorado por duas esculturas, cuja anatomia é delineada de forma a enaltecer o movimento no portal, e por volutas, também caraterizadas pela sua vertente curvilínea.

          

    Fig. 6 – Palácio da Bemposta em Lisboa: A – Portal. B e C – Pormenor do portal. D – Fachada do palácio.

     

    Casa de Travassinhos

    Localizada no norte do País, em Celorico de Basto, a Casa de Travassinhos é uma casa senhorial que melhor representar um dos aspetos presentes em alguns palácios desta região, as armas da família ocupante. Apesar de se apresentar como um portal muito simples e desprovido de decoração, o contrário acontece com as armas espelhadas acima do arco de volta perfeita. Este brasão é caraterizado pela forma como está evidenciado, devido ao seu tamanho, pois tem cerca de sete metros de altura. As mesmas armas são ladeadas por formas vegetalistas muito tímidas, criando uma forma quadrangular em redor das mesmas. Nas laterais do brasão estão localizados coruchéus piramidais, com exceção dos coruchéus no nível superior que são rematados por uma forma circular, e estão localizadas duas volutas nas laterais, de forma a apostar na dinâmica e movimento da fachada.

             

    Fig. 7 – Casa de Travassinhos em Celorico de Basto: A – Portal. B – Pormenor do portal. C – Fachada do palácio.

     

    Portais Barrocos 

    Caracterizado pela profunda decoração, o portal barroco continuou o legado do portal protobarroco enquanto elemento integrante da casa senhorial. O portal barroco relacionava-se com a vida citadina, pois através da sua decoração era traduzida o estatuto social, e através do brasão de armas, era possível indicar a família aristocrática que ali habitava. Localizados ao centro da fachada, estes portais podem estar estruturalmente integrados no corpo central, ou ligeiramente avançados em relação ao mesmo corpo. A centralidade destes portais na fachada permite uma leitura intencional vertical, pois os elementos salientes à fachada contribuem para tal, tendo como exemplo as colunas, as pilastras embebidas, frontões circulares ou triangulares interrompidos, volutas e os coruchéus circulares.

        

    Fig. 8 – Portais Barrocos: A – Portal do Palácio da Rosa em Lisboa. B – Portal da Quinta da Prelada. C – Portal da Casa de Pascoaes

    Como mencionado, estes portais mantiveram a linha classicizante dos protobarrocos, dessa maneira, os elementos arquitetónicos clássicos foram reciclados para evidenciar o dinamismo e movimento real nas fachadas. Seguindo tal linha clássica, o recurso às ordens era altamente considerado, e como tal era possível evidenciar desde a ordem toscana até à compósita. A aplicação das ordens clássicas na arquitetura por parte dos arquitetos pode ser uma representação da erudição do arquiteto, bem como a sua delimitação entre a obra senhorial e a popular.

        

    Fig. 9 – Pormenores de Portais: A – Portal do Palácio da Rosa em Lisboa. B- Portal da Quinta da Prelada C – Portal da Casa de Simães

     

    Portais barrocos no Norte de Portugal

    Seguindo a lógica artística barroca, onde a decoração exagerada e pujante é sempre aplicada nos portais barrocos, é possível denotar nos portais barrocos do Norte de Portugal uma busca da vertente cénica. A complementar esta decoração, os portais desta região do país apresentam uma aposta na área escultórica, nomeadamente o busto nas fachadas. Tal aspeto comprova uma das caraterísticas do estilo artístico barroco, que passa pela aliança das diferentes disciplinas da Arte, o que neste caso é uma aliança entre a escultura e arquitetura. A construção destes portais passa também pelo recurso a uma das pedras mais abundantes no norte de Portugal, de tom mais enegrecido, que é o granito.

          

    Fig. 10 – Portais Barrocos do Norte de Portugal: A – Portal da Casa de Simães. B- Portal da Quinta da Revolta. C – Portal da Quinta da Boa Viagem. D – Portal da Quinta da Barrosa

     

    Portais barrocos área da Beira de Portugal

    Ao contrário do que se observa na região norte do país, onde os demais elementos arquitetónicos são projetados de maneira imponente, de forma a contribuir para uma decoração exagerada, os portais barrocos da Beira de Portugal são pautados pela simplicidade ornamental. Os portais desta região podem ser caraterizados pela simplicidade dos elementos arquitetónicos barrocos, tendo como exemplo o tamanho e até a carga ornamental dos mesmos. Enquanto se observa o predomínio do granito nos portais barrocos nortenhos, na região da Beira é possível observar uma confluência entre a mesma pedra e o calcário, criando desta maneira uma variação cromática pétrea entre o claro e o escuro.

          

    Fig. 11 – Portais barrocos na Beira de Portugal: A – Portal do Palácio Episcopal de Lamego. B – Portal da Casa da Torre. C- Portal da Casa Grande de Casfreires. D – Portal da Casa da Portela

     

    Quinta de Sto. António do Tojal

    Considerada como uma das construções mais interessantes joaninas, a projeção do Palácio da Mitra passou pelas mãos do arquiteto Rodrigo Franco, e outros dois arquitetos famosos, Giacomo Canevari e Carlos Mardel. Não descurando o interesse da arquitetura palaciana deste edifício, o portal projetado para esta residência denota aspetos de um barroco na sua plenitude. O rigor geométrico neste tipo de portal não é tão acentuado como acontece nos portais protobarrocos, apesar de partilharem o recurso ao arco de volta perfeita. Nas áreas laterais do portal encontram-se pilastras, caraterizados pela ordem jónica, cuja decoração é complementada com uma grinalda que interliga as duas volutas. A rematar o portal, está localizado o frontão semicircular interrompido, também ricamente decorado com grinaldas, e ao centro encontra-se evidenciado o brasão eclesiástico, e também guarnecido de grinaldas. 

          

    Fig. 12 – Palácio da Mitra em Lisboa: A – Portal. B e C- Pormenor do portal. D – Fachada do palácio

     

    Solar dos Vasconcelos

    Localizado em Vila do Conde, no Norte de Portugal, o Solar dos Vasconcelos foi erigido no final do século XVII e reconstruído no século XVIII, cujas alterações da última remodelação ainda estão evidenciadas. O portal de entrada apresenta aspetos interessantes, como por exemplo a manipulação da pedra granítica em prol da decoração barroca. Não obstante da plasticidade da pedra granítica, os apontamentos barrocos nunca foram descorados no Norte de Portugal. O portal de entrada do Solar dos Vasconcelos apresenta um formato curvilíneo, bem como uma dupla moldura, uma sobre outra, onde se denota uma intenção do arquiteto em apostar na vertente cénica do portal. Ainda sobre o caráter curvilíneo, a moldura superior encontra-se uma interrupção na área central, o que quebra a monotonia dos portais retos protobarrocos. O brasão encontra-se muito bem evidenciado pelas suas dimensões, e é ricamente decorado com elementos vegetalistas, florais, volutas e conchas nas laterais, algo que se observa com mais frequência no estilo rococó.

        

    Fig. 13 - Solar dos Vasconcelos: A – Portal. B - Pormenor do portal. C – Fachada do palácio

     

    Palácio Barbacena

    Constituído como um dos principais exemplos de arquitetura palaciana joanina, o Palácio Barbacena é datado do século XVIII e é atribuído ao arquiteto Manuel da Costa Negreiros. Marcado pela influência italiana, a entrada principal deste palácio é delineada por dois portais igualmente decorados. Ambos os portais apresentam um caráter curvilíneo, como acontece nos portais barrocos, e na moldura superior são ricamente decorados com apontamentos vegetalistas e duas volutas estruturais, pois funcionam como suporte das janelas de sacada. É importante salientar a decoração que complementa estas volutas, cuja é composta por uma face com traços antropomórficos, e relembra a figura mitológica do tritão. Ao contrário do que acontece com os outros portais barrocos, o brasão da família ocupante não está localizado no topo dos portais, mas entre os mesmos, centralizado na fachada.

          

    Fig. 14 – Palácio Barbacena: A – Portais. B e C - Pormenores do portal. D – Fachada do palácio

     

    Portais Rococó

    Como acontecera no barroco, este estilo é caraterizado pela sua decoração exuberante, é por vezes classificado como uma derivação do mesmo ou um estilo totalmente autónomo. Este estilo consegue ser semelhante ao barroco, mas ao mesmo tempo distinto, uma vez que é caraterizado pela sua carga decorativa e distancia-se pela forma como a ornamentação é planeada e aplicada. Enquanto que o barroco seja relacionado aos dogmas tridentinos e absolutistas, cuja decoração é classificada como excessiva e exuberante, por outro lado, o rococó era considerado como uma alternativa atenuante aos princípios artistas barrocos.

        

    Fig. 15 – Portais rococós: A - Portal da Casa das Sereias no Porto. B - Portal da Casa dos Morgados Cardoso - Borba.  C – Portal da Casa do Cabo em São João da Pesqueira.

    Com raízes francesas, o rococó é distinguindo do estilo barroco através das suas linhas curvas, contracurvas e sinuosas, provocando uma elegância muito própria, e causa uma sensação de leviandade aos edifícios. Relativamente aos portais, o estilo rococó conseguiu investir ainda mais nas linhas finas e curvas, apostando no dinamismo e na vertente cénica, cujas caraterísticas eram tidas como principais nas construções barrocas. Não obstantes das linhas estruturais dos portais, enquanto elementos estruturais, a decoração era complementada com concheados, formas ovais ou até mesmo asas de morcego a ladear as estruturas.  

       

    Fig. 16 – Pormenores dos portais rococós: A - Portal da Casa das Sereias no Porto. B – Portal do Palácio dos Malafaias - Beira. C – Portal da Casa do Cabo em São João da Pesqueira

     

    Palácio do Raio

    Localizado no norte de Portugal, o Palácio do Raio é um dos símbolos nacionais do estilo rococó, onde é possível observar a elevação de alguns aspetos e princípios decorativos do período barroco. Erigido no século XVIII pelo notável arquiteto André Soares, o portal do Palácio do Raio demonstra a exuberância da decoração rococó, pois a vertente curvilínea do portal é muito mais acentuada através de volutas, contracurvas e elementos embutidos nas molduras do portal. Tais aplicações elevaram o nível da criação de uma fachada cénica, onde o movimento e dinamismo estariam implícitos. Como acontece com o Palácio do Raio, e noutros exemplos rococós, os portais deste período estão interligados com a janela de sacada, localizada no nível superior, como uma extensão do palácio. Esta janela de sacada contribui também para a decoração do portal, uma vez que contém um carater curvilíneo, rematado por concheados, coruchéus redondos, e por duas esculturas, o que contribui, uma vez mais, para a ideia de fachada cénica.

            

    Fig. 17 – Palácio do Raio em Braga: A – Portal. B, C e D- Pormenores do portal. E – Fachada do palácio

     

    Palácio da Cruz de Santa Apolónia

    O Palácio da Cruz de Santa Apolónia pode ser considerado uma antítese do período rococó, pois na falta de decoração no portal, a janela de sacada permite associá-lo a esse estilo. Localizado no centro de Lisboa, este palácio foi erigido no século XVIII e o seu portal de entrada apresenta alguns apontamentos curvilíneos, embora muito tímidos, como é o caso das na moldura superior da porta e na base das molduras laterais. Acima da portal, encontra-se a janela de sacada, como extensão do portal, e apresenta uma fina e pormenorizada decoração composta por volutas, temas vegetalistas e concheados. A rematar tal estrutura, encontra-se o frontão interrompido decorado por linhas que lembram o tema concheado, por volutas, e ao centro o brasão da família, que é curiosamente representado em pequenas dimensões.

        

    Fig. 18 – Palácio da Cruz de Santa Apolónia em Lisboa: A – Portal. B - Pormenor do portal.C – Fachada do palácio

     

    Solar dos Noronha

    Localizado no norte de Portugal, em Sernancelhe, o portal do Solar dos Noronha apresenta uma gramática decorativa fina, através dos concheados e contracurvas, o que permite fazer a separação do barroco e rococó. O portal de entrada deste solar apresentar um caráter curvo, complementado com volutas na base e concheados no nível superior, especificamente nas laterais. Ainda na moldura superior do portal, encontra-se uma estrutura convexa que contribuiu para a ideia de criação da fachada cénica. A rematar o portal, encontra-se as armas da família ocupante em grandes dimensões, complementada com duas esculturas em movimento, e com concheados a ladear o brasão. A complementar este portal, e algo que se verifica nos portais tardo-barrocos, encontra-se uma escadaria de acesso ao portal.

        

    Fig. 19 – Solar dos Noronha em Sernancelhe em Lisboa: A – Portal. B - Pormenor do portal. C – Fachada do palácio

     

    Portais Tardo-Barroco

    Tal como acontecera com os demais portais barrocos das diferentes casas senhoriais, os portais tardo-barrocos dispunham de uma estética decorativa que contribuía para a fachada cénica, pretendida pelos família ocupante e também pelo arquiteto que os projetava. Apesar da decoração destes portais apostar na vertente cénica da fachada, é possível denotar nestes elementos arquitetónicos a perda da exuberância e pujança da decoração que é tão presente nos portais barrocos.

        

    Fig. 20 – Portais Tardo-barrocos: A – Portal do Palácio da Brejoeira em Monção. B – Portal do Solar dos Carvalhos em Sernancelhe. C – Portal do Palácio Manteigueiro em Lisboa

    Seguindo a importância da verticalidade nas fachadas das casas senhoriais, o portal tardo barroco é articulado com a janela de tribuna, o brasão da família em grandes dimensões, e, por fim, o telhado a rematar toda esta axialidade com as formas curvilíneas. Para complementar estas caraterísticas relativas aos portais tardo-barrocos, e apesar de estarem mais presentes nas casas senhoriais do Norte de Portugal, é possível denotar a presença de uma escadaria nestes portais.

     

    Portais Pombalinos

    Surgido no século XVIII, durante o contexto da reconstrução da cidade de Lisboa, os portais pombalinos sucederam os portais tardo-barrocos. Seguindo a mesma importância que o portal barroco detinha, enquanto elemento central e principal da fachada, o portal pombalino era também considerado pela mesma importância e manteve a centralidade na fachada. Dessa maneira, a decoração continuou a ser concentrada ao centro, pois era onde se encontrava a entrada principal do palácio. A decoração dos portais pombalinos tende a seguir uma linha estética renascentista do século XVI, cuja principal caraterística passava pela geometricidade e desprovida de ornamentação.

        

    Fig. 21 – Portais Pombalinos: A – Portal do Palácio dos Condes de Anadia em Lisboa. B – Portal da Quinta da Fonte do Anjo em Lisboa. C – Portal do Palácio Sampaio em Lisboa

    Em contraste com os portais barrocos, caraterizados pela decoração pujante e exuberante, estes portais detinham uma decoração mais intimista e delicada, apostando no rigor geométrico, como é possível denotar na arquitetura pombalina. Adicionalmente, neste tipo de portais é possível observar uma tendência para a utilização das molduras retas, em detrimento das molduras curvilíneas barrocas.

     

    Bibliografia

    Carita, H. (2015). A casa senhorial em Portugal: modelos, tipologias, programas interiores e equipamentos. Lisboa: Editora Leya

    Berger, J. (1994). Lisboa e os Arquitetos de João V: Manuel da Costa Negreiros no Estudo Sistemático do Barroco Joanino na Região de Lisboa. Chamusca: Edições Cosmo

    Conti, F. (1984). Come riconoscere l’Arte Barroca. Rizzoli: Segrate

    Schulz, C. (1986). Late baroque and rococo architecture. London: Faber and Faber

     

    Nota

    Coordenação -Helder Carita

    Texto -Marcelo Varandas

    Fotografia - Homem Cardoso, Helder Carita, Joaquim Santos, Tiago Antunes

     

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    PTCD/EAT-HAT/11229/2009

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