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    O espelho da água nos jardins em Portugal

    O espelho da água nos jardins em Portugal
    Portugal

    Apresentação

    Na tradição paisagística portuguesa o elemento água toma particular significado, com particular incidência o tanque de rega entendido como grande espelho de água e elemento agregador de espaços de estar e contemplação. De pequenas proporções e envolvido por altos muros estes jardins tendem a expressar uma tradição islâmica que se mantém em Portugal durante séculos. Este espeto manifesta-se num conjunto de quintas de recreio desde a alta idade média, tendo particular expressão na quinta da Bacalhôa e das Torres no século XVI e ainda no século XVII com os jardins do Palácio da Fronteira e prolongando-se no século XVIII no caso dos jardins da Quinta do Carmo em Estremoz ou na Quinta do General em Borba.

      

     

    Caracterização

    Desde o século XV, o espelho de água/ tanque surge em Portugal em várias quintas de recreio formando uma zona de recreio, enquadrada à sua volta com bancos, alegretes, muros e casas de fresco.  Servindo de reserva de água não só dos jardins como de pomares e hortas, o grande tanque surge, não só, como componente fundamental da estrutura do espaço, mas como elemento gerador de todo o conjunto.  e Marcado por um ambiente verdejante pontuado por flores, o espelho de água tende a criar à sua volta um clima privado que rodeado de altos muros proporcionavam momentos de profunda contemplação. De forma mais subtil e face a um ambiente de verões secos e muito quentes o grande lago apresenta-se como imagem fora do mundo associando-se ao paraíso como elemento regenerador e como fonte da vida. Dignos de nota são os primeiros casos nacionais que revivem a herança islâmica, tal como a Quinta dos Ribafria, Águas de Peixe e Herdade da Amoreira da Torre.

        

     

    Entre o Espelho de água e o Chafariz.

    No centro e sul do país, a tradição islâmica e mediterrânica, marcada por um sentido muito forte do espelho de água como natureza cripto-mágica que surge como dádiva e convida a contemplação da mesma. Em clara oposição a abundância que gera a necessidade de drenagem de água no norte do país, o chafariz manifesta-se como elemento privilegiado dos jardins associado à florestas e cascatas, como fruto de uma natureza em constante movimento.

        

     

    Paço de Água de Peixes

    Localização: Beja (Alentejo)

    Século: XIII/ XV

    O Paço de Águas de Peixe em Viana do Alentejo, ressuscita no séc. XV a herança islâmica e romana que valoriza o tanque/ espelho de água como elemento presente na arquitetura civil e arte dos jardins, que perdurará até ao século XIX.   

    O tanque de Águas de Peixe apresenta-se como referência para várias casas senhoriais ao longo do território nacional, tal como a Quinta de Ribafria e a Herdade da amoreira da torre que seguem a sua tipologia.

        

     

    Quinta da Ribafria

    Localização: Sintra (Grande Lisboa)

    Século: XVI

    Um dos primeiros exemplos nacionais, possuidores de um tanque de grandes dimensões, trata-se da Quinta dos Ribafria localizada na Serra de Sintra. Construída na primeira metade do século XVI por Gonçalves de Ribafria, cavaleiro de D. João III e soberano de D. Manuel.

        

    Tanque

    O extenso tanque da Quinta da Ribafria remete em grande medida o tanque de Águas de Peixe, sendo que ambos percorrem por completo a fachada do edifício. O enquadramento paisagístico presente nos primeiros casos nacionais está altamente associado à tradição de raiz islâmica.

     

    Herdade Amoreira da Torre

    Localização: Évora (Alentejo) 

    Século: XIV

    Pela primeira vez documentada no século XIV, menciona-se o Cabido da Sé como proprietário da herdade. No fim do século XV, D. Fernão Martins de Mascarenhas é designado como donatário das terras, mantendo-se na posse da sua família durante três séculos.

    O tanque de grandes dimensões, assemelha-se ao modelo de Águas de Peixe e Quinta da Ribafria, uma vez que se encontra adstrito à fachada virada a norte do edifício.

        

     

    Palácio Nacional de Sintra

    Localização: Sintra (Grande Lisboa)

    Século: XIV

    Palácio de veraneio, edificado no século XIV por D. Dinis e D. Isabel de Aragão, sofreu vários acrescentos durantes os seguintes séculos, nomeadamente por D. João I, D. João III e por fim D. Manuel I.

        

    Tanque

    O tanque que contribui para a experiência sensorial do palácio desde o século XVI, reforça a relação interior e exterior, através das portadas da Sala dos Cisnes que permitem o acesso direto ao tanque. 

        

     

    Quinta da Bacalhôa

    Localização: Azeitão (Centro)  

    Século: XV

    A Quinta da Bacalhôa datada da primeira metade do século XV, como Quinta de Recreio, chegou a pertencer ao filho do Rei D. João V, João de Portugal. No entanto, é através da compra por Brás Afonso de Albuquerque, que em 1528 se irá imprimir a atual composição de palácio. A Casa do Lago construída no desenrolar da década de 60, assume lugar estratégico no jardim, ao articular-se suntuosamente com o Grande Lago, que reflete em espelho de água a fachada das galerias voltada a oeste.

          

     A Casa do Lago

    A Casa do Lago, é constituída por três torreões conformes que se interligam através de dois corpos em galeria. As duas galerias são compostas por arcos de volta perfeita, encimados em colunas de delicada composição que assentam no murete raso que facilita a relação entre o exterior e interior do corpus.

          

     

    Palácio Marquês da Fronteira

    Localização: Lisboa (Grande Lisboa)

    Século: XVII

     O Palácio Marquês da Fronteira, edificado na segunda metade do século XVII, por D. João Mascarenhas, foi reconstruído e ampliado por D. José Luís Mascarenhas Barreto devido à destruição total do seu palácio das Chagas em 1755, o que o leva a ampliar a casa de campo, e elevá-la a residência permanente.

    Inicialmente apontado como pavilhão de caça e recreio, dá lugar a um jardim de modestas dimensões, que se destaca pela sua exuberância e originalidade.

        

    Casa do Lago - Tanque dos Cavaleiros 

    A Casa do Lago, reforça a vertente intimista e monumental do jardim. O tanque apresenta-se como caso peculiar, dado que, não só espelha a Galerias dos Reis, mas também, uma série de painéis azulejares onde estão representados catorze cavaleiros. Tal como o caso do Canal dos Azulejos presente no Palácio Nacional de Queluz, interessa mencionar a importância da visibilidade do azulejo que se imprime na água.

          

     

    Quinta das torres

    Localização: Azeitão (Centro)

    Século: XVI

    Atribuída a Filipe Terzio, a quinta que segue a tipologia de villa italiana localizada em Azeitão, caracteriza-se através do seu rigor geométrico como um dos exemplos mais bem conseguidos da arquitetura civil do renascimento em Portugal.

        

    Lago - espelho de água

    Devido à sua grande dimensão, o lago permite o uso de uma gôndola que levaria até à casa de fresco em forma de tempieto, quem pretendesse conversar privadamente, algo bastante peculiar no contexto nacional.

          

     

    Paço de Valverde

    Localização: Évora (Alentejo)

    Século: XVI

    Datada do início do século XVI, a quinta com paço episcopal foi mandada construir por ordem da Mitra de Évora ou da diocese eborense, como local de descanso dos seus cardeais e arcebispos.

        

    Lago

    No jardim do Jericó podemos encontrar um lago de grandes dimensões que D. Domingo de Gusmão decora com bandeiras recortadas com lunetas, ao qual no século XVIII acrescenta-se uma estátua de Moisés ao centro.

        

     

    Palácio Episcopal de Castelo Branco

    Localização: Castelo Branco (Norte)

    Século: XVIII

    O jardim encomendado pelo Bispo da Guarda, D. João de Mendonça dedicado a S. João Baptista, é considerado um dos exemplares mais originais do barroco em Portugal. Distribuído em forma retangular, conta com lago central e quatro lagos distribuídos nos cantos acompanhados por estátuas que representam as estações do ano, os continentes, os elementos, os signos e as virtudes.

        

    Lago central

    De composição retangular, o Lago das Coroas proporciona a ligação entre o lanço de escadas onde se encontram as esculturas dos reis de Portugal e o lance que sobe. Dentro do lago podemos observar três repuxos em granito rematados pela coroa régia.

        

     

    Paço de Vitorino

    Localização: Lima (Norte)

    Século: XVI

    Paço construído no século XVI, após a compra do Casal de Barco por Capitão António Ramos, a Maria Álvares no ano de 1543. Da primeira fase de construção pouco ou nada resta, dado que é profundamente intervencionado no século XVIII, o que resultou na integração de todas as construções espalhadas pela quinta, de acordo com o traçado barroco.

        

    Tanques

    O jardim quadrado de traçado barroco, conta com a relação intimista com a natureza, altamente característica dos jardins portugueses. O tanque superior é enquadrado por um nicho de N. Sra. da Conceição acompanhada por várias esculturas mitológicas, tais como Neptuno e Diana. A rematar os tanques de diferentes dimensões e patamares, deparamo-nos com o chafariz.

        

     

    Quinta das lapas

    Localização: Torres Vedras (Centro)

    Século: XVIII

    Casa de Veraneio, remodelada pelo primeiro Marquês de Alegrete durante o início do século XVIII ao estilo barroco, torna-se uma das casas senhoriais mais notáveis de Torres Vedras.

        

    Lago Espelho de Água

    No jardim da quinta é possível encontrarmos o tanque denominado de Sereia, emoldurado por balaustradas, tal como o tanque presente no Palácio Fronteira. O tanque, é acolhido por três painéis azulejares que reforçam a vertente lúdica da água, que reflete os painéis.

     

    Quinta do Carmo

    Localização: Estremoz (Alentejo)

    Século: XVII

    No início do século XVII os terrenos pertenceram ao historiador D. Agostinho Manuel de Vasconcelos, no entanto é condenado à morte por D. João IV em 1641. Através da intervenção de Garcia Pestana de Brito e de seu irmão Diogo Pestana de Brito Casco de Mesquita a quinta é terminada no ano de 1756.

        

    Tanque

    O principal elemento do jardim é o tanque de Neptuno, onde surge o deus romano esculpido ao centro do tanque em mármore branco acompanhado de monstros marinhos. A casa de fresco remata o eixo iniciado pelo portal de entrada.

          

     

    Quinta de Santo António

    Localização: Elvas (Alentejo)

    Século: XVIII

    Quinta construída no século XVIII, caracterizada pelo seu amplo terreiro é comprada em 1908 pela família Tello Abreu e reconstruída em 1995.

        

    Tanques

    O jardim é ornamentado com seis estátuas barrocas sobre pedestais em alvenaria, que representam figuras mitológicas como Astreu e Astreia, filha de Júpiter. A água predomina como elemento fundamental do jardim, reforçado pela variedade de tanques, poços, lagos e fontes. Os bancos e abrigos espalhados ao longo do jardim, reforçam a vertente de estadia, contemplação e frescura que o jardim permite.

      

     

    Quinta Conde das Galveias

    Localização: Borba (Alentejo)

    Século: XVI/XVII

    A quinta que hoje podemos observar é resultado da intervenção de D. Dinis de Melo e Castro que imprime o seu gosto no traçado dos jardins e no desenho arquitetónico. A Quinta do general, como passou a ser designada em honra de D. Dinis, faz parte das quintas e palácios construídas pela nobreza que apoiou diretamente a subida ao trono de D. João IV.

        

    Tanque

    Abordando o Jardim do buxo, o grande tanque-espelho de água é rematado pela fonte barroca que substitui a fonte colocada durante a primeira fase de construção.  

     

     

    Bibliografia

    Araújo, Ilídio, Arte Paisagística e Arte dos Jardins em Portugal. Lisboa, 1962.

    Barbosa, Pedro Domingos Caldas, Descrição da Grandiosa Quinta dos Senhores de Belas. Lisboa, 1799.

    Carita, Hélder, O Tratado da Grandeza dos Jardins em Portugal ou da originalidade e desaires desta arte. Lisboa, Portugal: Edição de Autores. 1987

    Castel-Branco, Cristina, A água nos jardins portugueses. Scribe, 2009

    Castel-Branco, Cristina, Os jardins dos Vice-Reis-Fronteira. Oceanos, 2008.

    Lucena, Armando e Eng. António Bello, Os Jardins do Paço Ducal de Vila Viçosa. F.C.B. 1995.

    Stoop, Anne de, Quintas e Palácios nos arredores de Lisboa. Barcelos 1986.

    Viterbo, Sousa, A Jardinagem em Portugal, 1.ª Série. Coimbra 1906.

    Viterbo, Sousa, A Jardinagem em Portugal, 2.ª Série. Coimbra 1906.

     

    Nota

    Coordenação: Hélder Carita

    Texto: Tomás de Oliveira Rodrigues

    Fotografia: Hélder Carita, Joaquim Rodrigues dos Santos, Tiago Molarinho

     

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    PTCD/EAT-HAT/11229/2009

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