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    Portais de matriz clássica

    Portais de matriz clássica
    Portugal
    XVI,XVII

     

    Apresentação

    Absolutamente indispensáveis à modelação e concretização de obras de cantaria em fachadas de imóveis urbanos e periurbanos das centúrias de quinhentos e de seiscentos, os Tratados de Arte constituíram-se como uma fonte incontornável nas mãos de arquitectos, engenheiros e construtores. A confluência de ideias provindas de contactos com artistas estrangeiros e a acessibilidade a esses Tratados - assunto sobejamente conhecido e estudado por reputados investigadores portugueses e estrangeiros -, foram um dos principais fundamentos para a construção da ideia que hoje temos do que foi a arquitectura da região de Lisboa dessas épocas. Assim, para o estudo que ora se apresenta - da identificação de uma tendência decorativa dominante dos portais destes espaços, a saber: ombreiras, frisos, cornijas e mísulas -, o confronto entre algumas obras remanescentes e as fontes assume-se como ponto de partida de uma leitura mais estreita da aplicação da tratadística no contexto da ornamentação das fachadas civis.

              

    Fig. 1-2 3 Páginas do Livro Terceiro e Quarto de Arquitectura de Sebastião Sérlio, Toledo, 1552 Fig. 5 – Portal da Fortaleza de São Julião da Barra, Oeiras (foto: Homem Cardoso).

     

     

    O Libro di Architettura de Sebastiano Serlio

    Através de um maior conhecimento da obra Extraordinária: Libro di architettura de Sebastiano Serlio, e da constatação do quanto se enquadra numa lógica vitruniana, tão arraigada em Portugal na Época Moderna, é fácil compreender que muitos dos modelos de portais implementados em imóveis urbanos, mais exíguos no que à sua leitura diz respeito, ou naqueles periurbanos, gizados para serem visualmente fruídos mais à distância, tenham tido essa obra por paradigma. O conhecimento régio do "serlianismo", que influenciou encomendadores diversos, e a capacidade singular de adaptação de criadores e construtores portugueses, direcionou esteticamente os programas aplicadas às fachadas das casas civis portuguesas, mormente os portais e alguns cantarias que emolduraram outros rasgamentos dos panos murários. Por fim, os exemplos apresentados, que também consubstanciam a figura do arquitecto nacional, não só reforçam a solidez da sua formação teórica e projetam a sua atividade para uma esfera internacional, mas indiciam a acessibilidade dos figurinos a amadores e a profissionais sem formação técnica, espelhando a genialidade dos nossos construtores, ao invés de outros, mais limitados ao escrupuloso cumprimento da métrica e das formas veiculadas.

                 

    Fig. 6. Frontespicio da edição  Extraordinario libro di Architettura di Sebastiano Serlio, Architetti del re Christianissimo: Nel quale si dimostrano trenta porte di opera Rustica mista con diuersi ordini: Et venti di opera dilicata di diuerse specie con la scrittura dauanti, che narra il tutto. Publicado por Giovan di Tournes, Lyons, 1551. Fig. 7 a 12 Portais incluídos no Livro.

     

     

    Portais da Quinta das Torres em Azeitão

    Construída em Azeitão em meados do séc. XVI a Quinta das Torres, ligada à figura do humanista D. Diogo de Eça, apresenta-se como um caso emblemático da arquitectura clássica em Portugal. Sem documentação comprovativa a autoria desta quinta poderá estar ligada com o arquitecto Filipo Tercio que no período de construção da casa se deslocou para esta região ocupando-se da  fortaleza de São Filipe em Setúbal. No terreiro de entrada, presencia um portal de linhas muito sóbrias com abertura envolta por ombreiras de secção quadrangular decoradas por segmentos dispostos a igual distância com aparelho rusticado. Um nicho rompe um frontão triangular, decorado da mesma forma das ombreiras, verificando-se a importância dos modelos rusticados no contexto da decoração destes rasgamentos murários.

          

    Fig. 13, 14, 15 –Vista geral do portal lateral do terreiro de entrada e dois pormenores. Fig. 16 Vista do alçado da casa virado a nascente a ao terreiro de entrada.

    É no interior do pátio central e num contexto de grande rigor e simetria na fachada de entrada destaca-se um pórtico tripartido,  com a abertura central rematada por arco de volta perfeita com  uma clara filiação serliana. Digno de nota são as semelhanças arquitectónicas desta quinta com a Quinta dos Loridos onde vemos repetir-se o mesmo esquema de pórtico tripartido abrindo-se ao centro de um pátio central com apenas um piso térreo.

         

    Fig. 17 -Pormenor de desenho de palácio incluído no Livro III e IV de Sebastião Sérlio fl. XXXI. Fig. 18 - Portal tripartido do pátio central da Quinta das Torres. Fig. 19 –Vista da fachada de entrada do pátio central com pórtico tripartido.

     

     

    O Pórtico da Quinta dos Loridos no Carvalhal

    Na sua estrutura arquitectónica marcada por um gosto “ palladiano” afecto à segunda metade do século XVI, a Quinta dos Loridos é implementada por uma segunda geração da familia Lafetá na.  Embora com uma campanha de obras realizada no século XVIII o programa renascentista da casa permanece em toda a sua estrutura e composição, legando-nos um dos mais interessantes exemplos de quintas de recreio da arquitectura renascentista portuguesa.

    No seu programa arquitectónico, o edifício é gerado a partir de dois eixos ortogonais, desenvolvendo-se em torno de um pátio central, onde se recorta a entrada principal, marcada por serliana de desenho fortemente erudito que se apresenta, hoje, como um dos elementos arquitectónicos mais emblemáticos da casa. A simetria do conjunto é acentuada por dois  torreões situados em cada um dos lados dos alçados apresentando fortes semelhanças programáticas com a Quinta das Torres em Azeitão.

            

    Fig.20 –Pórtico de entrada do pátio da Quinta dos Loridos. Fig. 21 - Pormenor do capitel Fig. 22-23 e vistas do pátio de recebimento.

     

     

    Portal e pórticos da Quinta do Pátio do Saldanha

    Embora muito alterada no seu enquadramento urbano, a Quinta do Pateo do Saldanha, ou do Conde da Ega, foi durante séculos umas mais marcantes quintas dos arredores de Lisboa. Do seu programa arquitectónico destaca-se um conjunto de três portais de linhas clássicas e influência italiana que pela beleza de linhas testemunham a erudição da quinta no século XVI.

    Ao centro da fachada sobre o pátio  abre-se portal em arco pleno sobre pilastras e encimado por pedra de armas. Ladeiam-no duas janelas de peitoril de moldura rectangular recortada e perfilada, encimadas por espelhos curvos com medalhões elípticos envoltos em decoração vegetalista sob dupla cornija. Frontão curvo concheado, encimado por pináculo bojudo e ladeadas por colunas toscanas sobre plintos duplos e rematadas por pináculos piramidais.

          

     Fig. 24 – Portal de entrada da Quinta do Saldanha. Fig. 25 Armas com escudo partido com de um lado os Coutinho e Albuquerque e do lado direito os Saldanha. Fig. 26 –Vista da fachada principal sobre o pátio de entrada.

    No meio dos dois corpos laterais da fachada da Quinta do Saldanha rasgam-se dois belos pórticos de linhas de grande pureza formal com uma clara filiação serliana. Como na Quinta das Torres e nos Quinta dos Loridos este pórtico apresenta-se de estrutura tripartida com a abertura central rematada por arco de volta perfeita sendo as colunas de ordem toscana. A solução da Quinta do Saldanha é um pouco mais elaborada com arquitrave e cornija a ligar as colunas e as meias colunas laterais e o conjunto rematado lateralmente por duas altas pilastras como vemos em vários exemplos dos livros III e IV de Sérlio.

          

    Fig. 27 – Pórtico do corpo lateral da fachada principal da Quinta do Saldanha. Fig. 28-29 –Pormenores da base da pilastra lateral do pórtico. Fig. 30 Fotografia do Arquivo Histórico da CML.

     

     

    Portal do Palácio Episcopal de Coimbra

    Embora sobre estruturas que remontam à época romana o palácio episcopal de Coimbra recebe ao longo do século XVI uma profunda reforma de que se destaca no pátio central uma varanda galeria de magníficas proporções atribuída pelo seu desenho a Filipe Tercio. Na fachada virada sobre a entrada rasga-se um portal de linhas clássicas cuja delicadeza, desenho e manufactura nos testemunha a intervenção os mestres escultores coimbrenses. Com destaque o baixo relevo preenchendo o friso do portal a para  onde se destaca João de Ruão  e seus discípulos.

          

    Fig. 31 – Portal de entrada do Palácio episcopal de Coimbra. Fig. 32 Pormenor do entablamento encimado por ático onde se recortam as armas dos bispos D. Jorge de Almeida e de D. Afonso de Castelo Branco. Fig. 33 –Vista da fachada de entrada do Palácio.

     

     

    Portal do Palácio dos Condes de Basto em Évora

    Recuando na sua implantação ao período islâmico, o palácio  sofreu um conjunto de grandes transformações ao longo do século XVI primeiro no período manuelino  e mais tarde durante o reinado de D. Sebastião. O portal integra-se na campanha de obras de 1570 promovida pelo 3.º Capitão-Mor da cidade, D. Diogo de Castro, que teve como objetivo dotar o palácio de um conjunto de grandes salas para receber o Rei D. Sebastião que aqui residiu na primeira metade da década de 70 do século XVI. Deste período destaca-se o corpo de alpendre com varanda sobre o pátio de recebimento.

           

    Fig. 34 -Portal de entrada para o pátio de recebimento. Fig. 36 - Pormenor das armas dos Castro de treze arruelas . Fig. 36 - Vista do pátio de recebimento com alpendre com varanda de cortesias.

      

     

    Portal da Quinta do Bonjardim em Belas

     Implantada junto à ribeira do Jamor, descrita pelo padre António Carvalho da Costa como uma "nobre quinta", pertença de D. Tomé de Sousa, Conde de Redondo, com "bom Palácio com hum largo terreyro" e com "pomares de fruta de espinho, vinhas, hortas, com muytas árvores de fruta de toda a casta", que regavam dezassete fontes de cristalinas águas" , exibe um portal rusticado, com pedra de armas ao centro e três pináculos a coroar o conjunto. Mais do que rusticado, o portal por onde se acede ao domínio tem aparelho vermiculado e é aquele que apresenta uma solução mais próxima em contexto português do desenho N.º I de Serlio, que sabemos ter sido aquele da porta do palácio de Hipólito d`Este (1509-1572), conhecido como Cardeal de Ferrara.

       

    Fig. 37 - Portal de entrada para o pátio de recebimento da Quinta do Bonjardim. Fig. 38 Pormenor do frontão com ao centro armas  dos Sousa do Prado colocadas posteriormente. Fig.39 - Vista de conjunto com muro de entrada da casa onde se rasga ao centro o portal de entrada

     

     

    Portal do Palácio dos Arcebispos de Braga

    Formado de vários corpos construídos em épocas diferentes o Palácio dos Arcebispo de Braga apresenta sobre o pátio de entrada três alas destintas construídas ao longo do século XVI e XVII.  No corpo da ala poente virada sobre o pátio recortam-se dois portais de linhas semelhantes  marcados por linhas clássicas muito sóbrias apresentando um desenho mais elaborado com frontão interrompido com as armas do arcebispo  D. Manuel de Sousa (1544-1549) . O entablamento do portal surge de forma canónica  composto com  arquitrave  friso e cornija.

            

    Fig.40 -Portal  da ala poente do Palácio dos Arcebispos de Braga. Fig.41- Pormenor de capitel da pilastra lateral. Fig.42 Armas do Arcebispo de Brga D. Rodrigo de Moura Teles.  Fig. 43 - Vista de corpo lateral do palácio voltado a poente

       

     

    Portal do Paço Episcopal de Castelo Branco

    Mudado da sua localização inicial onde se inscrevia num muro alto do pátio de recebimento, o portal de entrada o portal do Palácio dos Bispos de Viseu é datado de 1598 conforme menciona a inscrição que refere: "Dom Nuno de Noronha, Filho de Dom Sancho de Noronha, conde de O/ demira, bispo que foi de Vizeu, sendo o da / Gvarda, mandou fazer estes passos / que se comesarão em Maio /de 96 e se acabarão anno de 1598”.  Ladeado de duas colunas toscanas, o portal é rematado por frontão curvo interrompido com de cada lado pináculos assentes em plintos. Ao centro ergue-se um nicho encimado de pequeno frontão com no interior as armas episcopais de D. Nuno de Noronha. O portal afasta-se da estética barroca do corpo do palácio que recebe um conjunto de grandes obras ao longo no século XVIII.

             

    Fig. 44 –Portal do Palácio episcopal de Castelo Branco. Fig. 45 Entablamento encimado por ático com as armas D. Nuno de Noronha. Fig. 46 Inscrição no friso comemorando o final das obras. Fig. 47 - Fotografia antiga do portal no seu local e enquadramento inicial. 

      

     

    Portal do Paço Episcopal de Viseu 

    O Paço Episcopal de Viseu foi mandado construir após o Concílio de Trento, onde se determinou a construção de colégios para formar clérigos. Nos finais do século XVI, o bispo D. Nuno de Noronha deu início à imponente obra de granito. Conhecida como o Paço dos Três Escalões, incorporou a residência episcopal e os colégios dos clérigos. No grande portal de entrada do palácio uma lápide comemorativa atesta que as obras tiveram início a 6 de Junho de 1593, prolongando-se pela primeira metade do séc. XVII. De concreto, sabe-se apenas que, por volta de 1613, as obras eram dirigidas por Domingos Rodrigues, designado como «pedreiro e mestre das obras do Seminário», residente em Viseu.

        

    Fig.48 - Portal da entrada do Paço Episcopal de Viseu. Fig. 49- Pormenor de ático tripartido com lápide comemorativa do final das obras.  Em cartela à esquerda armas plenas dos Sousa do Prado do D. Frei António de Sousa, filho Martim Afonso de Sousa. Á direita armas de D. Nuno da Noronha , filho do Conde de Odemira. Fig. 50 - Vista de conjunto do Paço.

     

     

     

    Portal do palácio dos Condes da Figueira

    O palácio dos Condes da Figueira, do morgado de Avé-Maria, embora tenha a sua génese no séc XV, viu-se dignificado no início do séc. XVII, em data exacta por determinar, sofrendo no último quartel dessa centúria obras de beneficiação. O portal de acesso ao seu interior, ladeado por duas colunas constituídas por uma sobreposição de elementos, embebidas na superfície murária, em aparelho rusticado, apresenta-se encimado por um frontão semicircular onde se observa uma pedra de armas da família Mendonça. Quanto às fontes, denota inferiormente fortes similitudes com os portais N.º I e N.º IIII, e com o portal N.º VI no que refere ao remate. É indubitavelmente um dos melhores exemplos de Lisboa com referencial

          

    Fig.51-Portal do Palácio do Condes da Figueira. Fig. 52– Entablamento com ao centro as armas plenas dos Mendonça. Fig. 53 –Vista da fachada principal  sobre o Largo de Santo André.

     

     

    Portal do Palácio Gorjão no Bombarral

    Nas suas linhas austeras de forte pendor racionalista e militar, o Palácio Gorjão constitui um notável exemplo de arquitectura chã . Séc. 17, 2.ª metade - construção do solar, provavelmente pelo 4º morgado dos Cunhas e Coimbras, Francisco Gorjão Henriques da Cunha Coimbra, cujas armas se encontram sobre o portal e que recebe o morgadio de, seu primo, Manuel da Cunha Coimbra e Noronha, na 2ª metade do séc. XVII.

    De clara influência tratadística é ainda o grande portal de entrada, destacando-se pelas suas proporções e acabamento em pedra rusticada e almofadada. Com o vão em arco perfeito, o conjunto é enquadrado por duas fortes pilastras e um largo entablamento. Ao centro, sobre o portal, salienta-se uma pedra de armas pertencente aos Gorjões e Cunhas.

        

    Fig. 54 –Portal do Palácio dos Gorjão no Bombarral. Fig. 55 -Pormenor do entablamento do portal interrompido ao centro pelas armas Francisco Gorjão Henriques. Fig. 56 –Vista geral do palácio.

     

     

    Portal da Quinta de Marvila

    A quinta de Marvila, também conhecida como "Quinta Grande" ou "Quinta dos Marqueses de Abrantes" na rua do Açúcar, terá sido edificada no séc. XVII, data da construção da primitiva casa de quinta, propriedade dos condes de Figueiró, depois de Vila Nova de Portimão e, finalmente, marqueses de Abrantes. Com a tomada de posse da quinta de Marvila por D. Luís de Lencastre, conde de Vila Nova de Portimão, em 1688, e com o aumento de património em 1704, por via do matrimónio de D. Pedro de Lencastre com D. Maria Sofia de Lencastre, herdeira da casa de Abrantes, o espaço vê-se renovado. O local foi noticiado por diversas vezes na Gazeta de Lisboa, a propósito de várias festividades que aí ocorreram como o casamento de Dom Pedro de Meneses, filho dos marqueses de Marialva, com Dona Eugénia de Mascarenhas, filha dos Condes de Óbidos, onde se achou "toda a nobreza da corte". Em 1752, com a tomada de posse de D. José Maria de Lencastre, sabe-se que o conjunto possuía: a quinta, o pátio, o picadeiro, os jardins e a adega. O que hoje nos é dado a visualizar desse espaço, com edificações bastante transformadas, permite-nos compreender que pelo menos o muro, objecto que nos importa aqui focar, o portal e fenestrações que o ladeiam foram preservados. Filiado na tratadística e com grandes afinidades ao nível do tratamento da pedra com o palácio dos condes da Figueira, este é um dos poucos exemplares eruditos que remanesceram integrados num suporte de origem.

        

    Fig.57 –Portal de entrada do pátio de recebimento da Quinta de Marvila. Fig. 58 –Pormenor da zona do remate central do portal. Fig. 59 –Pormenor do remate do ático do portal destacando-se o tratamento da pedra de aparelho vermiculado.

     

     

    Nota

    Texto: Maria João Pereira Coutinho-Helder Carita

    Fotografia: Helder Carita, António Homem Cardoso, Tiago Molarinho

     

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    PTCD/EAT-HAT/11229/2009

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