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    Casa de pátio de recebimento;

    Casa de pátio de recebimento;
    Portugal

    Apresentação

                    Nos estudos sobre arquitectura doméstica em Portugal  fomo-nos confrontando com a existência de um número significativo de casas senhoriais, onde uma estrutura em pátio murado, agregada à casa, desempenha um papel fundamental na morfologia e estrutura programática destes edifícios. Com um grande portal inserido num alto muro, este espaço configura-se na sua dimensão arquitetónica com uma importante função, não só de entrada da casa, mas como de espaço de sociabilização, funcionando como uma grande sala ao ar livre. Para o exterior e na sequência do portal e do alto muro do pátio, a casa tende a apresentar uma fachada secundária facto que acentua um carácter introspectivo ao conjunto. Codificado com um conjunto de normas de cortesia, o pátio de recebimento, rodeado de altos muros, adquire assim características de espaço interior, mas ao ar livre, constituindo-se como espaço de transição entre um exterior, entendido como profano e comum, e um interior entendido como sagrado e precioso. Aspecto da máxima relevância neste estudo é o facto desta tipologia se revelar como um fenómeno de fundo e de longa duração na história da casa senhorial em Portugal, atravessando vários períodos desde os séculos XV, XVI, XVII, XVIII  cujas raizes medievais evidenciam uma tradição mais antiga de fundo islâmico-mediterrânica.

      

    Fig. 1 – Palácio da Palhavã, em Lisboa.

     

     

    Génese e significado

    Distribuídas pelos séculos XVI, XVII e XVIII e atravessando estéticas muito diversas que se estendem do manuelino, renascimento, classicismo e barroco este vasto grupo de casas constituem uma tipologia de casa com raízes na Idade Média que, por questões metodológicas, estabelecemos denominar como “casa pátio de recebimento”. Esta designação permite assim, agregar e dar sentido a um vasto conjunto de casos que, com soluções muito diversificadas, apresentam características comuns radicadas em tradições arquitectónicas de longa duração que se afiguram de particular significado para o entendimento da casa senhorial em Portugal como ainda de toda a arquitectura portuguesa.

     

               

    Fig. 2 -A,B,C –Quinta de Santiago, Sintra: planta, acesso exterior, pátio de recebimento com varanda ao fundo e pormenor da varanda. Fig. 3. A-B - Quinta de Pisões, em Sintra, Entrada e perspetiva da casa num desenho de Albrecht Haupt (1852-1932).

     

    No decurso da nossa investigação fomo-nos apercebendo que este pátio murado tendia a articular-se de forma interdependente com uma varanda ou alpendre normalmente agregados a uma estrutura de escadarias que voltada sobre espaço cumpria funções de forte ritualidade relacionadas com cerimónias de entradas e saídas de visitas. Estas funções que conferem ao pátio uma função de palco semiprivado e à varanda uma lógica de tribuna.  Voltada sobre este espaço esta varanda afasta-se da tradicional varanda virada sobre a paisagem ou jardins, o que nos levou a denomina-la como “varanda de cortesias”.

     

             

    Fig. 4- Palácio dos Condes de Basto, em Évora: A – planta de conjunto. B - Portal de entrada. -C –D,  vista do pátio de recebimento e pormenor do alpendre.

     

    De casos como a varanda da Quinta de Santiago ou a da Quinta dos Pisões, ambas em Sintra, podemos referir exemplos como o Paço dos Condes de Basto em Évora, o Palácio Palhavã, o Palácio Távora-Galveias, o Paço d´Óis, em Anadia. Os exemplos desmultiplicam-se no século XVIII, embora verificando-se que na generalidade dos casos as casas onde estas varandas se incluem em estruturas de séculos anteriores. Neste caso encontram-se exemplos como a Casa de Vagos, a Quinta das Carrafochas, em Loures, as Quintas da Cerca  em Almada,  a Quinta do Loreto em Coimbra, o Paço de Anha, em Ponte de Lima, o Paço de Lanheses em Lanheses, Casa da Lage no Minho.Pontuando o nosso património verificamos que, estes exemplos,  têm a sua maior expressão no século XVI e XVII tendendo a diluir-se nos finais do século XVIII embora com uma forte presença em zonas mais tradicionais caso do Minho  ou Beiras.

     

           

    Fig. 5–Paço de Lanheses. Ponte de Lima.  A.- Capela e fachada do muro de entrada.  B - Vista geral do pátio de recebimento. C- - Varanda alpendrada .D-E Pormenor da varanda vista interior

     

             

    Fig.6  -Quinta das Carrafochas, Loures: A-B Fachada exterior, C-D Portal do pátio e interior do pátio de recebimento.

     

     

    Pátios de recebimento demolidos ou alterados

    A  estes exemplos, foi-se juntando um vasto conjunto de casos onde, por transformações posteriores, o antigo pátio da casa é demolido ou descaracterizado, indiciando que esta estrutura terá tido muito maior importância, significado e divulgação do que o património chegado até nós evidencia. Estamos a pensar no caso emblemático do Palácio Real de Sintra, cujo pátio de entrada foi demolido já no século XX, ou no Palácio do Correio-Mor, em Loures, cuja entrada era fechada por alto muro, e que é demolido na década de 60 do século XX.

     

           

    Fig. 7 - Paço de Sintra. A-B   Desenho de Casanova in Conde de Sabugosa antigo portal com a entrada e muro do pátio de recebimento. Fig. C-D-E Vistas do Palácio de Sintra nos inícios do séc. XX ainda com o antigo pátio de recebimento.

    Outro exemplo ligado à Casa Real é, igualmente, o Palácio de Massarelos, em Caxias, onde, com as obras de abertura da marginal, foram demolidas as cocheiras e o pátio murado de entrada do edifício.  O levantamento realizado, em 1902, pelo capitão António Leotte Tavares permite-nos um outro entendimento dos seus intrínsecos valores estéticos.

     

             

    Fig.8 - Palácio do Correio Mor, Loures. A - Fotografia  mostrando  o muro do pátio. B- Vista do palácio com o novo gradeamento a substituir o antigo muro do pátio de recebimento.  C - Portal de entrada do Palácio.  Fig.9 - Quinta de Massarelos em Caxias, Planta de Palácio de Massarelos, Assinado Capitão António Carlos Leotte Tavares. 1902. Arquivo GEAEM/DIE, D. 9120-5-66-85. B Fachada da Quinta de Massarelos sobre o antigo pátio murado.

     

    Na consulta atenta de inventários e documentos de obras datados dos séculos XVI e XVII, encontramos a referência, em grandes casas senhoriais, a programas arquitectónicos articulados com pátios murados, sendo estes espaços denominados, de forma significativa, como “pátio de recebimento” ou simplesmente por “recebimento”.Nestas alusões que encontramos em inventários e descrições, destacam-se os Tombos da Ordem de Cristo, realizados nos inícios do século XVI, onde, em vários pontos do país, diversos paços e quintas, pertencentes a comendadores desta Ordem, surgem com pátios de recebimento, sendo descritas detalhadamente com as respectivas formas e medidas.

     

           

    Fig 10–Paço de Belas/Quinta do Senhor da Serra.Belas.  A -Vista exterior in Archivo Pitoresco. B –Pormenor da fachada exterior. B-C-D –Vista e pormenores do pátio de recebimento

             

    Fig. 11– Paço de Água de Peixes, Viana do Alentejo. A Vista de conjunto, B -Pormenor portal de entrada do pátio. C-D  - Detalhes do pátio de recebimento.

     

     

    II - terreiro  e o pátio de “recebymento”

    Como orientação metodológica, tomamos estes documentos escritos como núcleo central da nossa investigação, analisando o actual património construído à luz desta documentação. Neste sentido, propomo-nos abordar uma tipologia de casa nobre com “pátio de recebimento” que, recuando à Idade Média, constitui uma interessante constante da casa nobre do século XVI e XVII, afirmando-se, num outro registo, como um elemento de grande significado para o entendimento dos fundamentos estéticos e evolução da arquitectura doméstica em Portugal.

      A passagem pela etimologia e evolução semântica dos termos associados  ao pátio, permite-nos abordar com mais consistência as problemáticas do “pátio de recebimento” como estrutura  funcional e arquitectónica,  no sentido de tentar estabelecer as suas características fundamentais e os seus principais elementos nele presentes. Constituindo-se o termo “pátio de recebimento” como uma variante de pátio, a expressão adquire particular significado ao identificar uma tipologia específica de pátio que, assim, se torna passível de definir e de caracterizar.

     

           

    Fig-12 – Vista geral e pormenor de Castelo Branco tirada do natural da banda do noroeste   Fig. 13 planta do castelo com o Paço dos Alcaides. Fig. 14 –Pormenor da casa dos alcaides de Castelo Branco vista do norte. Desenho de Duarte Darmas, in Livro das Fortalezas, (c. 1508) fl.118, Imagens cedidas pelo IAN/TT.

     

    Para este estudo, o Livro das Plantas de Duarte Darmas, elaborado entre os anos de 1508 e1509, assume particular importância, dado o autor nele incluir várias plantas de casas de alcaides.  Integradas no interior dos castelos, vemos algumas das plantas destas casas serem legendadas assinalando estas estruturas com o termo de pátio. Este facto ganha um outro significado quando algumas desta casas ou paços são objecto, no mesmo período, de detalhada inventariação, no âmbito dos bens da Ordem de Cristo, elaborada sensivelmente na mesma altura, por Frei Diogo do Rego. Pelo estudo comparado destes dois autores, podemos confirmar que, tanto pátio como pátio de recebimento, se apresentam como espaços fechados por muros ou paredes,  diferenciando-se de terreiro ou de” terreirinho”, que vemos ser usado por Frei Diogo no sentido de espaço conformado por paredes, mas aberto sobre o exterior.  Relativamente às casas de D. Alvaro, conde de Tentugal, em Lisboa, descreve-se “diante destas casas estaa ho dito terreiro da ordem ho qual parte de aguiam [norte] com as ditas casas e ao sul com quintais de joham rodrigues de saa e ao levante pello ditcto muro e ao poente parte pella dicta rua ppublica” (TOMBO da Ordem de Cristo, vol. I, 2017, pp. 12-13).

    No estudo comparado destes dois documentos, verificamos que Duarte Darmas não faz distinção entre pátio e pátio de recebimento, usando, simplesmente, na planta do Paço dos Alcaides de Castelo Branco, a palavra pátio. Frei Diogo do Rego para o mesmo lugar descreve-o, no entanto,  como “um recebimento”, referindo: “… antre a oussia da dita egreja e ho muro da çerca estaa huu grandre portal de pedraria com suas portas bem obrado e logo huu reçibimento que leva de longo xxxij varas de medir e xx de largo e tem aa entrada logo aa mãao direita huua casa nova pera estrebaria” (TOMBO da OC, 2009,241-244).

     

           

    Fig. 16 -Desaparecido Palácio dos Condes de Linhares (AML) . Fig. 17 -Portal do pátio do desaparecido  Palácio dos Possolos, na rua Sant´Ana à Lapa, em Lisboa em 1939, (foto. de Eduardo Portugal , in AML).Fig. 18 – Palácio dos Condes de Vimioso , Campo Grande. (foto. de Eduardo Portugal , in AML).

     

                    Em comparação com outros casos, vamos confirmando que o pátio de recebimento se diferencia de pátio ou de patim, não só pela sua relação com a entrada da casa, mas por uma maior escala e acentuação arquitectónica. Sobretudo nas diversas descrições feitas por Frei Diogo nos Tombos da Ordem de Cristo, o pátio de recebimento conota uma estrutura arquitectónica com um aparato formal, dado não só pelas dimensões, mas sobretudo pela presença de largas escadarias de pedra, ou varandas de colunas, debruçadas sobre este espaço. Caso emblemático é o Paço dos Alcaides de Castelo Branco, dos inícios do século XVI, de que, como referimos anteriormente, possuímos, não só a planta realizada por Duarte Darmas, como a descrição de Frei Diogo do Rego (TOMBO da OC, vol.5, 2009, pp.241-244). Nesta descrição o inventário refere:  “tem primeiramente ha dicta hordem na dicta villa de castel branco huus paços que estam junto da egreja de santa maria e som desta meneira. […]e defronte da dita entrada estaa logo huu alpendre sobre quatro arcos de pedraria muito bem obrados e sobre eles huua varanda […] aa maao seestra do dito recebimento tem huua escaada de pedraria mui bem obrada em que haa XXViiij degraos com seu mainel de pedraria devruado e dous tavileiros huu ao pee e outro no çimo da dita escaada…”( Tombo OC Vol. V, 2009, pp.241-242). 

                    Em Tomar, a Ordem de Cristo tinha, no centro da cidade, uma casa nobre onde verificamos a mesma relação:  “…aa  entrada tem huu portal grande ameado com suas portas booas e logo huum pátio ou recebimento […] e onde esta a laranjeira. Do dito recebimento vam per huua escaada de pedra a huua sala sobradada” (TOMBO da Ordem de Cristo, vol.2, 2005, p. 265-266).

                    Num outro registo documental, desta vez referente aos bens da Ordem de Aviz e ao antigo paço de Aviz, mandado construir no século XV pelo Infante D. Pedro, encontramos a mesma relação entre pátio de recebimento e as escadarias de acesso ao piso nobre. Elaborado já em meados do  século XVI, este inventário dá-nos uma descrição deste paço, relatando: “…huu assento de casas que he apousentamento do comendador as quaes casas se servem per huu portal grande […] Deste recebimento vay hũa escada grande de pedraria com dous tauoleiros e mainel pera a salla do dito apousento, a qual salla he de paredes muito fortes, argamassada, e o tecto forrado de castanho” (COSTA, Separata, nº 2. Lisboa, 1982.

     

     

    Portal e o pátio de recebimento

    Nas descrições que fomos sistematizando, podemos, mais uma vez destacar, o caso do paço dos Alcaides de Castelo Branco: “…e ho muro da çerca estaa huu grandre portal de pedraria com suas portas bem obrado e logo huu reçibimento” (TOMBO da OC, 2009: 242). Quanto ao Paço do Mestre de Aviz, a que também já fizemos referência, o Inventário de 1556, salienta igualmente: “…na dita torre no pé della e portal do dito apousento que he de pedraria do qual vay continuando hũa parede daltura de quinze palmos (…) no qual portal e parede sam ameados de muy boas ameas de pedra e cal bem guarnecidos como ho saõ hum grande recebimento da ditas casas” (COSTA, 1982).

     

             

    Fig. 22 –Palácio dos Quevedo em Setubal. A-B-C-D Entrada, pormenor do pátio de recebimento. E –Figura de convite com pagem, azulejos da 1ª metade do séc. XVIII atribuídos a PMP.

     

    Nos diferentes casos assinalados vamo-nos apercebendo de que, quando o pátio recebe a designação de recebimento, os espaços tendem a assumir um claro protagonismo na organização da estrutura arquitectónica da casa. Em clara sintonia, a fachada de entrada tende a recolher-se sobre o pátio, apresentando, por sua vez, para o exterior uma fachada secundária, programa que vemos repetir-se ao longo do século XVII, mantendo-se ainda no século XVIII, em ambiente rural, como uma tipologia vernacular.

         

    Fig. 23 Quinta do Carmo em Estremoz. A Portal da entrada. B- Muro do pátio de recebimento. C - Portal do pátio para o jardim

     

          

    Fig. 24 Paço de Geraz do Lima. Ponte de Lima. Fig. 25 -  A-b Fachada e pátio de recebimento da Casa de Pinheiros. Medelo, Fafe

     

     

    Dos finais da Idade Média ao século XVII

                    Não pretendendo fazer um inventário sistemático, propomo-nos reunir alguns exemplos de casas onde o pátio de recebimento se destaca como elemento estruturante da composição e das morfologias arquitectónicas do edifício. Estes exemplos, distribuídos entre os séculos XV a XVIII, com estéticas muito diferentes e aparentemente muito diversas, ganham, a nosso entender, particular sentido, ao serem reunidos num todo, possibilitando uma visão alargada do significado e do impacto desta estrutura arquitectónica na evolução da casa senhorial em Portugal.

    O tombo, já referido, do Paço de D. Pedro, Mestre de Avis, com a descrição detalhada deste paço, construído no século XV, permite-nos abordar um outro caso, da mesma época, chegado até nós: o Paço dos Governadores de Reguengos de Monsaraz. Em consonância com a descrição do Paço de Avis, este edifício demarca-se  da rua com um alto muro, rematado por grossos pináculos, onde se rasgam dois portais de linhas góticas, datáveis do século XV. Estes dois portais dão, porém, acesso a um pátio que, embora muito transformado, ainda apresenta uma estrutura antiga de varanda sobre ele debruçada, indiciando as suas características funcionais e simbólicas. A varanda em clara articulação com o pátio de recebimento, encontra-se, igualmente, no Paço de Águas de Peixe, em Vieira do Alentejo, que sabemos remontar ao reinado de D. Dinis. Numa lógica idêntica apresenta-se, ainda, o alpendre avarandado do Paço da Sempre Noiva, em Arraiolos, com uma frente sobre o pátio.

     

             

    Fig.26 - Paço da Sempre Noiva  . Arraioles. A-b-C Planta, vista de conjunto, desenho de Albercht Haupt (1852-1932) com reconstItuição do desaparecido alpendre da entrada do piso nobre, c-D - pátio de recebimento pormenor do alpendre.

     

    Através de um pequeno conjunto de cachorros embebidos na parede, junto da porta de entrada do piso nobre, comprovamos que este alpendre teria um telhado assente sobre colunas, semelhante ao desenhado por Duarte Darmas na representação do Paço da Sintra, e de que Haupt faz uma reconstituição no seu estudo deste paço (HAUPT, 1986 :9) A estes exemplos podemos  acrescentar o Paço dos Cordovil, em Évora, marcado por um gracioso alpendre mirante de gosto mudéjar, que se articula com o pátio de recebimento através de uma larga escadaria. Todo o conjunto é envolvido por um alto muro recortado com uma série de ameias, que sinalizam a importância deste espaço. Com o advento do Renascimento e a implementação de programas espaciais mais racionalizados, os pátios tendem a assumir formas mais geométricas e próximas do quadrado. É assim que se apresenta o pátio de entrada da Quinta da Bacalhoa  em Azeitão.  Embora submetida a esquemas formais de grande rigor geométrico, a estrutura murada acusa a permanência de uma tradição vernacular, onde a fachada principal se recolhe num espaço fechado ao exterior, marcado pela tradicional escadaria de pedra em dois lances.

     

           

    Fig. 27- Planta de conjunto da Quinta da Bacalhoa - Azeitão , A-B Planta com o pátio de recebimento em cima á esquerda e vista aérea.C-D-E  Fachada da entrada sobre o pátio de recebimento e arcaria da zona de serviços

     

    Em plena serra de Sintra e perto de Monserrate, a Quinta de Santiago apresenta uma tipologia arquitectónica de planta em U recolhida num pátio fechado por um alto muro, onde se abre o portal de entrada. Fechado para o exterior, o corpo habitacional abre-se sobre o pátio com uma larga varanda de colunas toscanas que, articulando-se em função do pátio, se desenha como um camarote.

     

           

    Fig. 28  – Paço dos Melo e Castro, em São Mamede. A-B - Vista de conjunto. C-D  - Alpendre do pátio

     

    Do século XVI, o Paço dos Melo e Castro, em São Mamede no Bombarral, repete um esquema de fachada de entrada recolhida sobre o pátio de recebimento. Do Renascimento e do período inicial da casa, destaca-se o gracioso alpendre do pátio. De linhas muito elegantes, o alpendre estrutura-se com um largo lance de escadas delimitadas por guarda e peitoril de pedra, recebendo um telhado de quatro águas que repousa em duas colunas toscanas e duas mísulas de desenho em urna. Recolhido num pátio murado com ligação à capela da casa, este alpendre, ao avançar sobre o plano das escadas fazendo varanda, confere a este espaço funções de ritualidade que vemos associadas ao  “pátio de recebimento”.

    O Palácio Palhavã emerge como um do mais interessantes exemplos de casa de pátio de recebimento do século XVII. Apesar da sua estética clássica e de uma certa racionalidade na conformação dos seus alçados, marcados nos cantos por pequenos torreões com altos telhados em forma de coruchéus, a fachada do edifício apresenta para o exterior uma fachada lateral sem o aparato cenográfico que vemos nas villas italianas do século XVI e XVII.

     

          

    Fig. 29– Palácio da Palhavã, em Lisboa. A-Planta de localização. B-CVista geral sobre o exterior e fachada de entrada sobre o pátio de recebimento. D Varanda de cortesia sobre o pátio de recebimento

     

    De forma tradicional, a fachada principal recolhe-se, uma vez mais, num pátio murado, sendo marcada ao centro por uma delicada varanda que lhe imprime um carácter muito peculiar. Encastrada entre os dois torreões, esta delicada varanda, desenvolvendo-se em cinco arcos abatidos repousando sobre finas colunas toscanas, integra na sua estrutura o corpo de escadas de entrada, que funciona como um camarote. Diferentemente dos seus congéneres do séc. XV ou XVI, o edifício apresenta poucas alterações à sua estrutura inicial, exibindo ainda o palácio  os elementos essências à caracterização de uma tipologia de casa de pátio de recebimento, com um grande portal estruturado num alto muro, a fachada de entrada recolhida sobre este espaço, que por sua vez é conformado dos quatro lados de forma a adquirir uma consistência arquitectónica. Significativa alteração é a fonte que se encontra actualmente no meio do pátio, e que retira a função de plateia ao ar livre e amplo lugar de festividades domésticas, touradas, jogos de pau, que sabemos, por via documental, processarem-se nestes espaços. 

     

     

    A Planta em U e o pátio de recebimento

    Um caso significativo da manifestação do pátio de recebimento na arquitectura civil do século XVII, é sem dúvida, a transformação do modelo de palácio de planta em U. Este modelo, desenvolvido nos tratados de arquitectura do Renascimento, tem uma particular divulgação em Portugal, estendendo-se da região de Lisboa às beiras e ao norte do país.

     

            

    Fig. 30 - Palácio Távora-Galveias. Lisboa. A -Planta de localização, B-c fachada sobre o exterior, pormenor do muro do pátio de recebimento. D - pormenor da varanda de cortesia.

     

    É interessante verificar que este modelo sofre, em Portugal, uma transformação peculiar, que perpetua de certo modo uma importante tradição vernacular ligada ao pátio murado. Na sua matriz, este modelo caracteriza-se por uma estrutura formal com duas alas simétricas avançando a partir do corpo de entrada, que, acentuando o percurso de aproximação ao edifício, conferem um forte sentido cenográfico a todo o conjunto. Em Portugal, este efeito é, no entanto, anulado pelo fecho da entrada em pátio murado, criando uma espécie de sala ao ar livre, protegida dos olhares do exterior.

     

     

           

    Fig.31 –Palácio do Marquês de Pombal, Oeiras. A –Planta de conjunto. B-C-D. Fachada exterior  portal de entrada e armas do Bispo Paulo de Carvalho. E –Vista geral do pátio de recebimento.

    No caso do Palácio Távora, em Lisboa,  torna-se particularmente significativo que, em oposição às janelas das fachadas exteriores decoradas com simples cornijas rectas, as janelas do pátio surgem encimadas por elaboradas meias conchas. A delicadeza destas janelas associa-se, ainda, à larga varanda sobre a entrada, conferindo ao ambiente do pátio um aparato decorativo que, contrapondo-se à secura das fachadas exteriores, reforça a importância ritual e simbólica deste espaço. Concedendo-lhe um outro significado, a criação deste pátio demonstra a perenidade da presença de tradições de descontinuidade espacial e um sentido de oposição entre exterior e interior.

             

    Fig. 32 Casa de Vale Flores, Braga. A-B-Fachada principal sobre o exterior e portal de entrada do pátio. C-D – Vista do  pátio de recebimento pormenor das escadas de entrada.

     

             

    Fig. 33 -  Casa de Pascoaes, Amarante. A-B -Vista de exterior, portal de entrada. C-D - pátio de recebimento e pormenor do alpendre de entrada

     

                  Da região de Lisboa observamos a circulação do modelo de casa em U para o centro e norte do país. Entre os mais interessantes exemplos dessa divulgação podemos mencionar a Casa de Vale Flores, em Braga (Fig. 9-10),  onde uma inscrição evocativa, sobre o portal de entrada da capela, com a data de 1687, nos permite situar a construção da casa neste período. Como observamos no caso do Palácio Távora em Lisboa, a planta da Casa de Vale Flores, em U, é fechada através de um muro onde se insere o portal de entrada, ficando desta forma o edifício inserido num grande rectângulo que comporta ao centro um pátio. O muro do pátio recebe uma sequência de pináculos que, prolongando-se nos remates dos dois corpos da fachada principal conferem às morfologias um sentido mais dinâmico, de gosto barroco, que se anuncia no Norte de forma prematura.

     

           

    FIg. 34 - Paço d´ Óis, Anadia. A-B- Fachada exterior portal de entrada. C- Vista geral do pátio de recebimento. D- Corpo lateral virado a nascente. Fig. 30- Casa da Cerca em Almada. Vista aéra, fachada da entrada e pátio de recebimento

     

    Igualmente com um programa de planta em U, a Casa de Pascoaes, em Amarante, pela racionalidade programática do seu traçado, poderá ser atribuída a Miguel de Lescolle, ou a alguém do seu círculo de influência. Na realidade, a casa apresenta uma rara solução, embora comum na arquitectura civil francesa, com duas entradas simétricas, uma para a área senhorial e a outra para serviços. Um patim, seguido de um lance de escadas perpendicular à fachada, desdobra-se em duas escadas que terminam em dois alpendres apoiados por delicadas colunas.

     

             

    Fig. 35- Solar dos Gouveia Couraças em Sendim, Beira. A-B- vista da entrada e portal. Fig. 36 -Casa dos Macieis Aranha , Braga. A-B - Vista da fachada e pormenor do brasão de armas.

     

    O programa em U é fechado pelo muro de entrada, onde se inscreve, ao centro, o grande portal. As estátuas que rematam o muro de entrada, assim como o desenho dos vãos, apontam para um período do século XVIII, configurando uma intervenção posterior que preserva, no entanto, a estrutura espacial original do edifício. Perto de Anadia, assinalamos, ainda, no Paço D’Óis (Fig.11-12), a presença de uma tipologia de planta em U, fechada em pátio murado. Ao fundo, o corpo central desdobra-se numa varanda de colunas, decoradas com capitéis jónicos, rematada simetricamente por dois alpendres de entrada, coroados de telhados de quatro águas. A simetria e qualidade do conjunto são ainda reforçadas por dois lances de escadas que se encontram num largo patim central, elevado por três degraus.  No ciclo de casas com planta em U com pátio de entrada fechado com muro alto, encontra-se, ainda, a Quinta dos Condes da Calheta, em Belém. Apresentando-se muito alterada e sem pátio de recebimento, um levantamento realizado pelo Eng. Lourenço da Cunha d’Eça , nos finais do século XVIII, dá-nos, ainda assim, uma visão do edifício, com o seu pátio murado e com portal central ladeado por duas janelas, muito idêntico.

     

        

    Fig.37- Casa de Cezim. Minho. A -Vista geral da entrada , destacando-se ao centro entre duad janelas o grande portal . B-C Pormenores do pátio de recebimento

     

     

    Variantes e tipologias

                    Ao longo do século XVIII, a divulgação do modelo de palácio barroco, com núcleo central  e com portal encimado por janela de tribuna, vai contribuir para a progressiva diluição da importância da tipologia de casa de pátio. A maior abertura da casa à vida social, imposta pelo Iluminismo, vai contribuir para que o pátio de recebimento perca pertinência como lugar resguardado do exterior, passando o portal de entrada, localizado ao centro da fachada principal, a abrir a casa directamente para o exterior. Este modelo tem, porém, uma maior implantação nos centos urbanos, verificando-se, nas zonas periurbanas ou rurais, a permanência das tradicionais tipologias de casa com  pátio  murado.   Testemunho da permanência desta tendência, é o Palácio da Mitra (MECO, 1985), em Lisboa, que apresenta uma fachada de entrada recolhida sobre pátio lateral murado, acusando uma tradição seiscentista e vernacular, onde as linguagens do barroco italianizante se inscrevem nos elementos decorativos que envolvem o grande portal de entrada, ou no muro do pátio, rematado por delicada balaustrada. Correndo ao longo do muro da entrada, esta balaustrada conforma uma longa varanda que, virada sobre o pátio, confere a este espaço um claro sentido festivo e altamente ritualizado.

     

            

    Fig 38- Palácio da Mitra, Beato. A - Planta de localização B-C  Fachada sobre o exterior e pormenor do brasão do portal de entrada. D-E - Pátio de recebimento e pormenor da entrada

     

                    Tal como no Palácio da Mitra, a permanência desta tipologia resulta, muitas vezes, de transformações de pré existências que, actualizando a casa a novas estéticas e hábitos vivenciais, acabam por adaptar-se aos programas morfológicos antigos. Do reinado de D. João V, a Quinta das Carrafouchas, em Loures, assim como a Quinta dos Vargos,  perto de Torres Novas, destacam-se pelas suas capelas decoradas com magníficos azulejos do chamado período dos grandes mestres. Em ambos os casos o programa arquitectónico estrutura-se em função de um pátio de entrada fechado por altos muros e localizado num dos extremos do corpo principal. Mais tardia, mas muito idêntica, é a Quinta do Campo, em São Pedro de Sintra, onde o pátio é marcado pela presença de escadarias e varanda debruçada sobre este espaço.                   

    As mesmas soluções repetem-se na Real Quinta de Caxias  e na Quinta de Massarelos, verificando-se nesta última, como referimos anteriormente, a perda da sua estrutura de pátio murado. Para o estudo deste caso, existe uma antiga planta, realizada em 1902, pelo Capitão António Carlos Leotte Tavares (Tavares, 1902 Des.) que nos permite reconstituir a casa na sua estrutura arquitectónica inicial.

     

           

    Fig. 39 Quinta dos Vargos, Torres Novas. A-B- Fachada exterior e pormenor do portal de entrada. C-D- Vista do pátio de recebimento

     

             Dos finais do século XVIII, não podemos deixar de referir a Quinta de São Mateus, no Dafundo, acompanhando a antiga estrada de Caxias, com a sua extensa e contínua fachada, outrora debruçada sobre as águas do Tejo. Com dois torreões enquadrando um corpo central, a entrada principal recolhe-se, porém, de forma recatada, num pátio lateral murado, claramente protegido dos olhares do exterior.

           

           

    Fig. 41 - Paço de Anha, Ponte de Lima. A-B Vista exterior com capela e pormenor fachada. C Pormenor do brasão de armas sobre o portal de entrada. D-E- Pátio de recebimento onde se destaca varanda sobre arcos.

     

    No norte e sobretudo no Minho os exemplos multiplicam-se com soluções muito diversas relacionadas com estruturas mais antigas que vão sendo remodeladas em linguagens estéticas mais actualizadas, mas onde uma certa tradição permanece

     

           

    Fig. 42 -Casa da Capela, Fregim, Amarante. Fig. 43 Casa do Ribeiro, Ponte de Lima

     

     

    Recebimento e as virtudes da cortesia

    Como o termo sugere, “o pátio de recebimento” está intimamente ligada ao facto de este espaço se constituir como um lugar onde se recebe, conotando uma dimensão ritual marcada por normas de cortesia. Na nossa investigação fomo-nos apercebendo que o chamado recebimento tinha, na Idade Média, um campo semântico alargado, ligado às formas de etiqueta e de sociabilidade. Na realidade, encontramos com muita frequência na Idade Média, a menção do termo recebimento, mas entendido como acto e não como espaço, como vemos ser referido por Fernão Lopes na Crónica de D. Fernando: “…mas este recebimento que o conde fez com ella nom foi per seu grado d’elle…” (LOPES, Fernão, 1966, Cap. 84, p.221).

     

             

    Fig. 40 Quinta dos Marqueses do Alegrete, Charneca do Lumiar. A- Planta de localização. B-C – Fachada sobre o exterior e portal de entrada. D-E  Pátio de recebimento destacando-se conjunto de figuras de convite que acentuam o carácter cerimonial deste espaço

     

    Nos finais do século XVI, Francisco Rodrigues Lobo, no seu livro a Corte na Aldeia, dá-nos, no Diálogo XII, um panorama muito detalhado das diferentes formas de cortesia, de que o “recebimento” era parte integrante ( LOBO, Rodrigues, [ 1ª1619],  Diálogo XII: 42) Na sua lógica, o autor estabelecia um conjunto de quatro espécies de cortesias, respectivamente:  encontro, visita, mesa e conversação.   Cada uma destas “espécies” de cortesia dividia-se, por sua vez, em termos de cortesia, descriminando o texto: “ a visita tem três termos de cortesia, que são o recebimento, o assento e o acompanhamento da despedida. O recebimento é sair o visitado fora de casa, onde há-de tomar a visita até à salla, para na entrada dar a dianteira e melhoria ao que vem visitar” ( LOBO, Rodrigues, [ 1ª1619],  Diálogo XII: 42).

     

          

    Fig. 44 - Casa do Morgado de Oliveira. A-B -Vista da frente e pátio de recebimento. Fig.45 - Casa de Prazias, Beira Alta. A-B- Vista da entrada e pátio de recebimento marcado pela presença de fonte e capela.

     

     Na sequência do recebimento, seguia-se: “o assento é dar o seu ao hospede e tomar outro qualquer à mão esquerda, sem ser o primeiro que se assente”. A terceira virtude da cortesia era, por sua vez, um remate da cerimónia descrevendo o autor: “ o acompanhamento da despedida é sahir com elle até á casa onde o recebeu, tomando sempre a sua mão esquerda, dando-lhe neste modo a melhor na entrada, logar e passeio” ( LOBO, Rodrigues, [ 1ª1619],  Diálogo XII: 42).

    A importância destas regras de comportamento e das suas implicações com o pátio de entrada são salientadas num Regimento enviado por D. António Prior do Crato ao seu filho Cristóvão.   Na discriminação das várias formas de tratamento que seu filho deveria ter para com o rei de Marrocos, o pátio ocupa um lugar importante, mencionando o texto:  “Quando se for, e quando vier mandareis a Thomas Cacheiro, ou a Sotomayor  espera llo ( o rei) a porta do pateo, ou no meio delle , e os mesmos o tornarão acompanhar atee o mesmo luguar” (SOUSA 1739, vol.IV, p.569).

     

         

    Fig. 1, A-B -Casa da Lage, Minho. Pátio de recebimento marcado por varanda alpendrada

     

    A dimensão de espaço de recepção e acolhimento das visitas de uma casa, não esgota, porém, as tradicionais funções deste pátio. Escadarias, varandas e alpendres, que vemos sistematicamente associados a estes espaços, conferem-lhe um sentido ou apetência para encontros e reuniões mais alargadas. Afastando-se de um pátio simples, o “pátio de recebimento” tem tendência a adquirir proporções adequadas para poder funcionar como uma plateia ao ar livre, onde se possam desenrolar jogos e festividades e onde os donos da casa, da varanda ou do alpendre da escada, poderiam assistir a estas representações numa situação superior, enquadrados pelas estruturas de varandas e alpendres. Vemos estes encontros ou festividades serem assinalados no caso do pátio da Quinta da Bacalhoa, onde o Tombo de 1630 refere: “…e a entrada que esta em um pateo mui grande com seus portaes cerrado de muros em que se correram e podem correr os touros” (RASTEIRO 1885, pp. 61-66.).  Em Sintra, sobre o pátio de entrada do Palácio, também o Conde de Sabugosa  menciona: “ao fundo deste pátio, onde em várias épocas se correram touros, se jogaram as cannas, e houve torneios, festas a que assistia a corte espalhada pelas janelas do Palácio…” (SABUGOSA 1903, 149).

     

     

    Das plantas de pátio de recebimento

                    Uma linha de investigação centrada no estudo de plantas antigas datáveis do século XVI, XVII e XVIII, permite-nos sistematizar um outro conjunto de casas onde o pátio se assume como elemento fundamental das estruturas arquitectónicas. Constituindo um número de plantas relativamente pequeno, com casos normalmente desaparecidos ou muito transformados, não deixa de ser expressiva a forma quase sistemática como o pátio surge nestas plantas, sobretudo do século XVII. Referimo-nos às plantas do Palácio dos Condes da Castanheira, em Lisboa, da Academia de Nacional de Belas Artes, ou ao conjunto de plantas da Biblioteca da Ajuda (Biblioteca Ajuda Desenhos, X-29-288; X-29-220; X-29-225) onde vemos o pátio ocupar um lugar privilegiado.

     

          

    Fig. 46 A-b-C. Planta do Palácio dos Condes da Castanheira, na calçada da Glória, em Lisboa. João Nunes Tinoco «Planta das Cazas do Sr Conde D. António de Ataíde que tem na Calçada de N Sra da Gloria junto aos Padres da Companhia (…) João Nunes Tinoco». Século XVII (2º quartel). Tinta da china e aguada a cores sobre papel. Biblioteca da Academia Nacional de Belas Artes, Lisboa. Fig. 47 - Planta da Quinta de Santo António, 20 de dez. 1638. Biblioteca da Ajuda. Iconografia, Des. 54-X-29, 218 e Des. 54-X-29, 218v. Fig. 48 Levantamento da Quinta da Foz, Benavente. c. 1638 Levantamento do piso nobre. Biblioteca da Ajuda. Iconografia, Des. 54-X-29, 220 e Des. 54-X-29, 220v

     

    Avançando para o século XVIII, podemos destacar o caso da planta da Real Quinta do Pinheiro, assinada por Carlos Mardel,(BAHOP, Cota D2C) onde o arquitecto fecha o terreiro de entrada da antiga Quinta dos Duques de Aveiro em pátio murado, prolongando uma tradição que na altura já representava um certo arcaísmo. Outros casos a mencionar são o Palácio do Grilo (Biblioteca do MC, Des.0986), ou a desaparecida Quinta dos Condes de Linhares, no Pragal (IAN/TT- Arquivos de Famílias. Condes de Linhares, Mç. 100, Doc. 35), onde, mais uma vez, as estruturas do pátio de recebimento se impõem na organização das morfologias e no plano distributivo dos edifícios

     

               

    Fig. 49-A-B -Palácio da Real Quinta do Pinheiro, (projecto de remodelação).Planta do piso térreo, Carlos Mardel, c.1760. Biblioteca do Arquivo Histórico das Obras Públicas, Desenho, Cota, D2 C. Fig. 50 Plano Nobre do Palácio do Grilo. Desenho a tinta-da-china, aguarelado (aguada e nanquim, amarelo, rosa e verde). Museu da Cidade. Des. 0986. Fig. 51 - Planta do Palácio do Pátio das Vacas. Lourenço Homem da Cunha d’Eça (1767?-1833), entre finais do séc. XVIII e inicios do séc. XIX. Ttinta-da-china com aguada. Gabinete de Estudos Arqueológicos da Engenharia Militar / Direcção de Infra-estruturas do Exército, GEAEM-DIE-Des. 455-1-5-9

     

    Pelo seu significado estético, não podemos deixar de referir o caso da Quinta do Correio-Mor (TAMAGNINI, 1961), em Loures, que se destaca como uma das mais grandiosas realizações de toda a arquitectura civil portuguesa. Recorrendo a um tradicional programa em U, o edifício estrutura-se em três corpos, de harmoniosas proporções e notória grandiosidade, com três pisos formando o andar nobre, rasgando-se no último uma longa série de janelas de sacada encimadas de frontões. De tradição vernacular, o amplo pátio de entrada era fechado por alto muro, que desapareceu, por restauro já realizado nos anos sessenta do século XX, perdendo o conjunto arquitectónico o seu significado original.

        

    Fig. 52 - Planta da Quinta do Condes de Linhares, no Pragal. IAN/TT, Arquivo dos Condes de Linhares, D. 0100-35-A. Fig. 53 Planta de Palácio de Massarelos, em Caxias, Assinado Capitão António Carlos Leotte Tavares. 1902. Arquivo GEAEM/DIE, D. 9120-5-66-85.

     

     

    Filiação islâmica e conclusões

                    Marcado por valores de privacidade e descontinuidade espacial, o pátio murado transparece uma filiação antiga que se cruza com tradições islâmicas ligadas à casa e ao quotidiano, como era o costume das senhoras se sentarem em almofadas, sobre estrados, que vemos perdurar na cultura portuguesa até ao século XVIII. No caso especifico do pátio de recebimento, este aspecto é destacado, no século XVI,  por António Coelho Gasco, nas suas Antiguidades de Lisboa . No seu texto, ao descrever o Paço dos Bispos de Lisboa, o autor dá-nos um interessante pormenor:  “…a este bispo (o rei) lhe deu huas nobres cazas junto com o Priorado de Santa Cruz que fora mesquita, as quaes estão cercadas de hu alto muro com suas ameyas como os mouros edificão, tem hu pátio e recebimento muy grande em que assistem hoje alguns soldados castelhanos por guarda” (GASCO, 1924: 285).

    Não podemos esquecer que, no século XVI e XVII, a vida das mulheres, sobretudo da alta nobreza , não diferia muito das da cultura islâmica. Duarte Nunes de Leão é muito elucidativo ao escrever sobre a época: “…as damas, quando saem é só para irem a igreja e nunca deixam a sua casa para ir a qualquer outro sitio: as mais nobres, vão mesmo pouco à igreja e quando o fazem, levam mantos a tapar –lhes o rosto” (LEÃO, 1610.cap. 88, fol. 133). Neste sentido o pátio de recebimento enquadra-se numa tipologia de casa afecta aos chamados titulares ou grandes do Reyno, para usarmos a nomenclatura de Carvalho e Negreiros ( NEGREIROS, 1792-1797). É sobretudo neste grupo social que vemos, até ao século XVII, estas casas, que se constituíam como uma comunidade de senhores, familiares e criados, fechadas sobre si e onde, por outro lado, o elemento feminino, com uma vida social muito circunscrita, geria a sua teia de influências.

                    Codificado com um conjunto de normas de cortesia, o pátio de recebimento, rodeado de altos muros, adquire assim características de espaço interior, mas ao ar livre, constituindo-se como espaço de transição entre um exterior, entendido como profano e comum, e um interior entendido como sagrado e precioso. Integrado na arte europeia, o Palácio de Queluz, embora conotado com claras influências francesas e alemãs, não deixa de reflectir uma tradição mais autóctone de matriz mediterrânica. Em contraponto com o requintado tratamento do conjunto de alçados que se abrem sobre os jardins, a fachada sobre o exterior apresenta-se num extenso alçado de um só piso sem grandes efeitos arquitectónicos. Na análise de José Augusto França,  Queluz apresenta-se como “…uma medalha sem verso…”, expressão  que, de forma crítica, acaba por salientar um dos valores estéticos mais significantes  deste edifício. Ainda na arquitectura senhorial do século XVIII, casa e jardins são entendidos como uma comunidade fechada para o exterior, num mundo de significações e vivências culturais onde o pátio de recebimento adquire particular significado, constituindo-se como um elemento particularmente significante destes valores. Num campo mais alargado da história da arquitectura, o pátio de recebimento revela-se um importante elemento caracterizador da tendência de descontinuidade espacial e ausência de relação necessária e lógica entre exterior e interior, programa distributivo e fachada principal, que se apresentam como valores intrínsecos da arquitectura portuguesa.

                    Com soluções muito diversas, os casos de pátio de recebimento multiplicam-se por todo o país, ocupando esta estrutura uma importante função na organização das morfologias e programa arquitectónico da arquitectura doméstica. Lugar privilegiado para as cerimónias de recepção e despedida de visitantes, assim como espaço de festas e encontros familiares alargados, o pátio de recebimento deve ser entendido como um espaço específico  e um elemento fundamental na morfologia e estruturas arquitectónicas da casa senhorial, em Portugal, sobretudo nos séculos XVI e XVII.

     

     

    Bibliografia

    Arquivos e Bibliotecas

    Arquivo GEAEM/DIE, D. 9120-5-66-85

    Arquivo da Arma de Engenharia - GEAEM/DIE, D. 455-1-5-9

    Biblioteca do Arquivo Histórico de Obras Públicas (BAHOP), Cota D2C

    Biblioteca do Museu da Cidade, Lisboa, Des.0986

    Instituto Nacional de Arquivos Nacionais (IAN/TT), Arquivo dos Condes de Linhares, D. 0100-35-A

    COSTA, Maria Clara Pereira da - “A vila de Avis, Cabeça da Comarca e da Ordem. Século XVI a XVIII. Tombos de Direitos, Bens e propriedades”, in Revista do Instituto Geográfico e Cadastral. Separata, nº 2. Lisboa, 1982.

    GASCO, Antonio Coelho. Primeira parte Das Antiguidades da Muy Nobre Cidade de Lisboa…  Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 1924.

    HAUPT, Albrecht, A Arquitectura do Renascimento em Portugal, Lisboa, Ed. Presença, 1986.

    LEÃO, Duarte Nunes, Descrição do Reino de Portugal, Em Lisboa: impresso com licença, por Jorge Rodriguez, 1610.cap. 88.

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    LOPES, Fernão, Crónica de D. Fernando, Lisboa, Ed. Livraria Civilização, 1966,

    MARTINS, Maria João - Palácio da Mitra, Lisboa, Ed. Sete Caminhos, 2004.

    MECO, José - “O Palácio da Mitra em Lisboa e os seus azulejos” in Revista Municipal, Lisboa, Edição da CML, nº 12, 13, 14, 1985.

    NEGREIROS, José Manoel de Carvalho, Aditamento ao livro intitulado Jornada pelo Tejo que foi ofº a S. A. Real o Príncipe Nosso Senhor que Deus guarde em o anno de 1792-1797, Lisboa, Biblioteca Nacional de Lisboa, Cod. 3758-62.

    RASTEIRO, Joaquim, Quinta e Palácio da Bacalhoa em Azeitão, Lisboa, Imprensa Nacional, 1885, pp. 61-66. (Transcrição do Tombo do Morgado realizado em 1630).

    SABUGOSA, Conde de, O Paço de Sintra, Lisboa, Imprensa Nacional, 1903.

    SOUSA, D. António caetano de, Provas Geneológicas da Casa Real, Lisboa, Offina da Academia Real, 1739, vol.IV.

    TAMAGNINI, Matilde Pessoa de Figueiredo – “Palácio do Correio-Mor em Loures” in Sep. Belas Artes, nº 13, Lisboa, 1961.

    TOMBO da Ordem de Cristo, Comenda do Médio Tejo,  Lisboa, Centro de Estudos Medievais, vol.5, Lisboa, 2009

     

    ttt
    PTCD/EAT-HAT/11229/2009

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