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    Fazenda Chacrinha

    Fazenda Chacrinha
    Brazil
    XIX

    Enquadramento urbano e paisagístico

    Localizada no município de Valença, a fazenda Chacrinha surgiu de uma sesmaria de meia légua em quadra no sertão dos índios Coroados de Valença, nas margens do rio das Flores, adquirida por Joaquim José dos Santos em 1805. Em 1813 juntou com a sesmaria de Campo Alegre e em meados de 1840, Manoel Pereira de Souza adquiriu as duas sesmarias se estabelecendo na fazenda Campo Alegre e desenvolvendo junto com essa, a fazenda Chacrinha com engenhos de cana, casa de morada e lavouras de café. A casa sede então termina de ser construída no final da década de 1860 substituindo uma modesta casa de vivenda construída por Santos.

     

    Morfologia e Composição

    Compondo a propriedade, que é contornada pelo rio e cercada por uma vasta área de mata atlântica remanescente e vários lagos, é possível identificar outras edificações como currais, casas de colono, depósitos e alambique. A casa sede possui embasamento de pedra e porão habitável com cerca de 30% da área de seu andar nobre. Apresenta uma planta em formato de "U", com um jardim coberto de grama e uma fonte central, retangular e abaixo do nível do solo.

     

    Fachada Principal

    A sua fachada principal, térrea, possui uma varanda de feitura recente e sete altos vãos em verga reta, com cercaduras e sobre vergas em madeira entre as pilastras almofadadas com entablamento ornado em cornijas e friso tinto em verde e dão suporte para o beiral em cimalha.

     

    Fachadas Secundárias

    Na fachada lateral direita, voltada para o vale, revela-se dois pavimentos marcados pela simetria e pelo ritmo das esquadrias, quebradas apenas pelo vão lateral em verga reta que corresponde a fachada principal e pela empena de seu embasamento. Os vãos são de verga reta no primeiro pavimento e de arco pleno no segundo.

     

    Pormenores

    As esquadrias frontais são de madeira, verga reta, com duas folhas cegas; enquanto as esquadrias da fachada dos fundos são de caixilho de vidro e veneziana, além de postigos em seu interior. A porta central da fachada lateral possui no seu exterior enquadramento reto com a data de 1881, acompanhada por outras duas portas com sobreverga em massa, de facção mais simples e janelas de guilhotina em caixilhos de vidro com folhas cegas internas.

     

    Portal de entrada

    A entrada da fazenda se dá por um portão de ferro com pilares de alvenaria. A estrada que se subdivide, à direita é possível continuar o percurso até a casa sede, onde encontra-se também o rio. O acesso à área nobre da propriedade é feito por um portão de ferro fundido, com colunas almofadadas encimadas por luminárias e compoteiras. Precedendo a casa sede, há outro gradil de ferro fundido, datado de 1895, com portão de duas folhas com base almofada e acabamento em lanças sobre pilares com volutas elevados com compoteiras. 

     

    Programa Interior

    O pavimento principal possui entrada pela fachada principal onde há três vãos que dão acesso ao interior da casa. A porta que está localizada à direita e ao centro desta, dão acesso ao vestíbulo com quarto lateral na direita e ao salão de visitas localizado à esquerda, que também possui uma entrada própria e que segue pelo corredor que leva aos quartos, sala íntima, hall de transição com escada para o porão e acesso para a sala de jantar, além de outra circulação que leva ao outro quarto.

    Outra entrada, localizada na fachada em que se encontra um pátio, dá acesso a copa que possui ligação com os quartos, quarto de rouparia e cozinha com uma porta nos fundos. Desta cozinha, uma circulação leva ao espaço próximo à fachada lateral esquerda onde estão as salas de jantar, sala de estar, quartos e a escada em madeira com guarda corpo torneado que leva ao porão.

    O pavimento que tem acesso pela fachada da lateral esquerda possui três vãos de acesso que levam para a sala íntima (1) do porão, além de dois quartos (3 e 5), um em cada extremo do seu interior.

     

    Jardim e horto

    A propriedade possui uma variedade de vegetações. Começando pelos bambuzais que sombreiam o caminho de entrada e avistando o grande arvoredo que emoldura o casarão. Seguindo o piso de paralelepípedo, encontram-se canteiros de helicônias e antúrios que seguem até a casa principal com frondosa arborização, de ornamentais, mangueiras e jabuticabeiras; além de palmeiras. Outro jardim de caminho ensaibrado possui uma pequena fonte sob um pau brasil, entre outras árvores, grama e ornamentais na fachada frontal. À frente da lateral direita, um extenso gramado com palmeiras imperiais, eucaliptos, mussaendras, alamandas e buganvíles. Na fachada em que se revela a planta em "U", um jardim gramado e uma fonte central, retangular e abaixo do nível do solo.

     

    Bibliografia

    INEPAC. Inventário das Fazendas do Vale do Paraíba Fluminense. Rio de Janeiro: Instituto Cidade Viva, 2010.

    IÓRIO, José Leoni. Valença de ontem e de hoje: (Subsídios para a história do município de Marques de Valença) 1789-1952. 1. ed. Juiz de Fora, MG: Dias Cardoso, 1953. 395 p.

    PIRES, Tasso Fragoso. Fazendas do Império. Rio de Janeiro: Edições Fadel, 2010.

    PIRES, Fernando Tasso Fragoso; SAPIEHA, Nicolas. Fazendas: as grandes casas rurais do Brasil. Abbeville Press, 1995.

     

     

    Cronologia e proprietários

    1805 – Joaquim José dos Santos requereu uma sesmaria de meia légua em quadra no sertão dos índios Coroados de Valença, às margens do rio das Flores.

    1812 – Joaquim solicita a mediação e demarcação de suas terras.

    1813 – Juntou com a sesmaria de Campo Alegre, adquirida provavelmente do Alferes Alexandre Manoel de Lemos

    Meados de 1840 – Manoel Pereira de Souza Barros adquiriu as duas sesmarias levando um tempo para se estabelecer definitivamente com a família nas terras.

    1850-1860 – O capitão Souza Barros desenvolveu suas fazendas com lavoura de café. Residia na fazenda Campo Alegre sem abandonar a Chacrinha. Esta já possuía casa de morada e engenhos construídos por Santos em princípio do século XIX.

    Final de 1860 – Edificação da nova sede

    1871 – O comendador possuía 14.000 mil pés de café e 49 escravos na Chacrinha.

    1881 – Manoel Pereira de Souza Barros é agraciado com o título de barão de Vista Alegre.

    1881 – Conclusão do Solar da Chacrinha avaliado na época em 30 contos de réis e colocado uma cartela com as inscrições de 1881 na porta lateral.

    1891 – O barão de Vista Alegre falece

    1892 – Tudo vai à leilão e a fazenda foi arrematada pelos Esteves, Irmãos e Cia., por 195: 295$000

    1892 – Os Esteves hipotecaram ao Banco do Brasil as fazendas de Chacrinha, Campo Alegre, Santa Thereza e Vista Alegre.

    1901 – As quatro foram a leilão pelo Banco do Brasil e adquiridas pelos irmãos Álvaro e Horácio Mendes de Oliveira Castro.

    1956 – Divide seu patrimônio entre os cinco filhos e Chacrinha com 40 alqueires de terras e mais a história, ficou em condomínio entre os cinco filhos. Futuramente, Fernando, Geraldo e Cecília compram a parte de Magia Eugenia e Roberto.

    1985 – Os irmãos Oliveira Castro vendem Chacrinha ao empresário e médico carioca Dr. Pedro Alberto Guimarães, um dos diretores do grupo Monteiro Aranha. 

    1987 – As obras de restauração foram inauguradas 

    1996 – Dr. Pedro Alberto vence ao colecionador de arte Sérgio Sahione Fadel e sua esposa, Hecilda Fadel

     

    Manoel Pereira de Souza Barros (Barão de Vista Alegre)

    O barão de Vista Alegre começou administrando a fazenda ao lado do pai desde os anos sessenta. Teve em sua vida política, prestígio social e poder local, tornando-se tenente coronel, capitão da Guarda Nacional, provedor da Irmandade da Santa Casa da Misericórdia, presidente da Câmara Municipal de Valença e barão de Vista Alegre. Expandiu seus negócios de terra para cultivo comprando os sítios de Santa Cruz, Retiro e a fazenda Nazareth. Teve papel ativo na Fundação da Cia Estrada de Ferro União Valenciana e na construção da estação de Souza Barros, nomeada posteriormente como Chacrinha. Buscava sempre modernizar suas residências como a fazenda Campo Alegre, que também lhe pertencia, era dotada de iluminação a gás, linha telefônica, entre outras modernidades e requintes para o período. No fim do seu legado, não conseguiu deixar uma fortuna estruturada para os filhos devido a perda de capital gerado pelo processo de abolição da escravatura e pelo divórcio e meação dos bens solicitados pela esposa d. Rita Arnalda Pereira de Souza Barros em 1889. Deixou uma dívida de 500 contos de réis para um monte-mor de 630 contos de réis, levando todas as propriedades a leilão. 

     

    Documentação

    Registro feito na fazenda Chacrinha de um almoço de domingo em família, à esquerda, e um Recital de canto e piano, à direita, no ano de 1917. (Foto de Octavio Mendes de O. Castro, acervo Coleção Lucia Sanson)

     

    Manoel Pereira de Souza Barros (filho) – Barão de Vista Alegre e d. Rita Arnalda Pereira de Souza Barros – Baronesa de Vista Alegre

     

    Fazenda Chacrinha, por ocasião das obras de reforma em 1985 (foto s/a, acervo Coleção Helenice França Leite)

     

    A iconografia de Marc Ferrez revela, na época, a existência de uma porta e outra na parede perpendicular; vãos que atualmente são ocupados por janelas. (Foto de Marc Ferrez, s/d, acervo Coleção Gilberto Ferrez, IMS)

     

    A estação de Chacrinha foi fundada em 1871 pela Estrada de Ferro União Valenciana, anteriormente estação de Souza Barros. Dela partia, em tração animal, por 7 km, em direção à fazenda Campo Alegre. A estação teve o fim da operação no ramal por volta de 1970. A casa da estação de Chacrinha ainda existe e está sendo reformada pelo seu atual proprietário que a manteve exteriormente como eram as portas, janelas e telhado. (Foto: Antonio Carlos de Oliveira Lima)

     

    Observações

    Coordenação: Ana Pessoa (FCRB), 2020

    Pesquisa e edição:  Sávia Pontes Paz (Pibic/FCRB).

    Fotografias: Coleção Lúcia Sanson e colaboração Rodrigo de Souza Cardoso

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    PTCD/EAT-HAT/11229/2009

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