Filter

    Sala das Bicas

    Sala das Bicas
    Portugal
    XVI,XVII

    Apresentação

    Nas suas características estéticas, a Sala das Bicas do Palácio de Belém constitui um exemplo paradigmático de “sala vaga” de um palácio da nobreza titular ou de grande do reino.  Embora com várias reformulações este compartimento mantém os seus atributos essenciais cumprindo, ainda hoje, funções de espaço de transição entre exterior e interior e constituindo-se como grande núcleo de distribuição e acesso a diferentes áreas interiores de um palácio.   Na evolução das estruturas distributivas da casa nobre, a “sala vaga” é um fenómeno que se manifesta, sobretudo, entre a segunda metade do século XVII e a primeira metade do século XVIII, coincidindo com uma tendência barroca de acentuação da ritualidade de todos os comportamentos da vida social. Este sentido de pompa e solenidade tendia acentuar uma certa teatralidade às entradas e saídas de visitantes que a partir desta sala eram acompanhados por escudeiros e alabardeiros vestidos de libré com as cores dos senhores da casa.

        

     

     

    Enquadramento histórico

    Com a designação genérica de quinta, o edifício terá tido a sua primeira formulação em meados do século XVI pela iniciativa de D. Manuel de Portugal.  Com D. Joana Inês de Portugal, filha única, a quinta entrou na posse dos Condes de Aveiras pelo casamento do 2º conde, D. Luís da Silva Telo [de Meneses]. Ligados aos mais altos cargos régios terá sido no período do 2º e do 3º conde de Aveiras que a quinta recebeu grandes melhoramentos tornando-se habitação permanente. Em 1726 a quinta é comprada por D. João V, no local de um antigo palacete quinhentista, nos terrenos das antigas Quinta de Baixo e Quinta do Meio, daí resultando um palácio de recreio com jardim então conhecido por Casa Real de Campo de Belém ou Palácio das Leoneiras. O edifício sofreu danos causados pelo terramoto de 1755, tendo as obras de restauro ficado a cargo do arquitecto italiano João Pedro Ludovice, mais tarde continuadas por Mateus Vicente de Oliveira. A partir de 1807, e com a partida da Família Real para o Brasil, o palácio passou a servir principalmente como residência ocasional, onde se recebia a corte, em bailes e solenidades. Voltou a albergar os reis durante as obras do Palácio das Necessidades, levadas a cabo em 1835 e entre 1844 e 1846, mas foi novamente abandonado como moradia permanente a partir dos anos sessenta da mesma década. Veio ainda a servir como residência do futuro rei D. Carlos, entre 1886 e 1889, quando subiu ao trono, ficando o Palácio de Belém definitivamente destinado a acolher visitantes oficiais. No início do século XX, ainda foi construído um palacete anexo, para ampliar a área das comitivas dos hóspedes.

        

     

     

    Enquadramento arquitectónico  

    Na sua configuração original a sala das Bicas seria uma estrutura em alpendre com uma monumental arcaria tratada em forma de serliana aberta sobre o pátio dos Bichos com os dois lances de escadas na fachada exterior.

        

     

     

    Estrutura espacial

    Na sua tipologia arquitectónica e distributiva a salas das Bicas do Palácio de Belém corresponde a uma paradigmática “sala vaga”.  Situada na zona de entrada da casa este espaço caracteriza-se pelas suas grandes proporções marcada com uma série de portas nas várias paredes conferem a este espaço vocação de núcleo distributivo no programa distributivo da casa. Na sua génese este espaço parece resultar de um desdobramento da antiga salla ou salla grande, que assumia ao longo do século XV e XVI várias funções nas vivências do dia-a-dia. Marcado na sua origem por uma multifuncionalidade, este espaço cumpria três funções de significado distinto: uma primeira de entrada e espera de visitas, outra como lugar onde estavam escudeiros ou guardas e por fim, pelas suas vastas dimensões, grande salla propriamente dita, em momentos de festas e recepções.

    Estas três funcionalidades ainda aparecem claramente assinaladas nos inícios do século XVIII, no Vocabulário de Rafael Bluteau, onde o autor descreve a salla como: casa anterior e espaçosa (…) porque na sala se costuma descansar e esperar ate que venha pessoa com que se hade fallar e também há salas em Palácios de Príncipes, em que descanção e dormem os guardas, como no Palácio dos Reys de Portugal a sala dos Tudescos (…) ou porque em dias de banquetes e festas algumas vezes se salta e dança[i].

    O aparecimento da sala vaga, na primeira metade do século XVIII, parece assim indiciar uma nova lógica da estrutura distributiva na sequência de espaços de recepção do piso nobre da casa senhorial. Como o nome sugere, este espaço vazio servia como zona de transição entre exterior e interior, sendo a partir daqui que os vários visitantes eram encaminhados para as diferentes zonas da casa, conforme os seus propósitos.

     

    [i] BLUTEAU, Rafael, Vocabulário Portuguez e Latino …, Lisboa, Officina Pascoal da Silva, 1720, vol. VII, p.440.

                  

     

    Serliana

    Serliana, é um elemento arquitetónico muito divulgado durante o Renascimento e o período Clássico, que consiste em combinar um arco de volta perfeita ao centro com dois vãos retos colocados de cada lado.  Deve o seu nome a Sebastiano Serlio, o primeiro a teorizar sobre esta forma arquitetónica associada aos grandes arcos triunfais.

              

     

     

     

    Tecto

    Na sala das Bicas deparamo-nos com este esplendoroso tecto, sendo o mais espectacular do Palácio e um dos exemplares decorativos mais significativos do estilo barroco em Portugal. Contudo sobre esta composição pouco se sabe sobre o seu autor, não existindo até ao momento uma informação documental segura. Todavia, alguns historiadores defendem que esta pintura deve ser atribuída pelas suas características ao pintor Vitorino Manuel da Serra.

    Esta magnífica composição como podemos visualizar, organiza-se como um amplo baldaquino central, apoiado numa estrutura ornamental que imita a talha dourada, com quatro suportes que funcionam como pilastras a partir dos cantos da sala, ligados por arcos que formam a moldura do painel central, onde vamos encontrar uma lindíssima composição da alegoria a FLORA.

        

     

     

    Painel central 

    A composição do painel central representa, conforme indicado anteriormente, uma alegoria a Flora. Flora na mitologia romana, é uma Deusa ninfa das Ilhas Afortunadas. Esposa de Zéfiro e deusa das flores e da Primavera. Na Grécia é chamada de Clóris.

    Flora era assim a divindade da primavera como ciclo vegetativo de renovação, em que tudo floresce, das flores, dos jardins e das árvores. Podemos indicar que se tratava da deusa da fecundidade da natureza. A lenda de Flora está ligada com a de Zéfiro, o deus do vento entre os Romanos. Este tê-la-á visto a andar pelos campos num dia de primavera. Mal a viu apaixonou-se subitamente, raptou-a e em seguida casa-se com ela. Como prenda de casamento, Zéfiro deu à noiva, Flora, como recompensa e por amor, o poder de reinar sobre as flores, não só sobre as dos jardins como, também, sobre as dos campos cultivados.

    Neste painel central da Sala das Bicas, deparamo-nos assim, com uma figura delicada e primaveril de Flora que é acompanhada por vários meninos alados, ou podemos referir como “Amorzinhos”, que brincam com grinaldas e flores coloridas sobre um fundo com nuvens, transmitindo na composição uma sensação de movimento e delicadeza. Esta pintura de estilo barroco, apresenta uma composição onde se salienta a movimentação da cena, a frescura das cores sobre o contraste do claro-escuro do fundo. Composição de grande beleza, quer na figuração das personagens e seus panejamentos, transmitindo a quem observa a sensação de que as personagens se movimentam sobre as nuvens.

                

     

     

     

    As Quatros Cartelas

    Os quatros medalhões que encontramos no tecto da Sala das Bicas, pela sua execução imitam baixos-relevos. Conforme podemos visualizar são pintados em grisalha, com tons de verde e com tons mais claros que são realçados a creme, criando desta forma um enorme contraste com a restante composição, que é mais quente, e com enorme profusão de dourados no tecto. Estes medalhões estão enquadradados por moldura por um festão de louro, envolvido por volutas, e repletos de flores e frutos, vigorosamente policromados, elementos tão habituais na decoração dos tectos barrocos portugueses.

    Ao visualizarmos as composições destes quatro medalhões verificamos que representam cenas mitológicas. Identificamos assim, na Fig.1 o medalhão, onde evidencia na composição o tema mitológico de “Posídon (ou Neptuno) a perseguir Corónis”, vendo-se, por trás, o carro de Posídon. Na Fig.2, o tema mitológico “Vénus impede Adónis de ir à caça” e na Fig.3 encontramos o tema ”Alfeu persegue Aretusa” que é protegida por ”Vénus”. Estes temas que foram aqui destacados nestes três medalhões foram retirados das Metamorfoses de Ovídio. Finalmente na Fig.4, ou seja, na composição do quarto medalhão aqui em referência, deparamo-nos com o tema “Diana junto de Endimion adormecido”, este tema baseia-se nos “Diálogos dos Deuses”, cujos temas costumam ser associados aos das Metamorfoses.

    Os medalhões pintados em grisalha monocroma foram utilizados em tectos de perspectiva arquitectónica dos principais mestres italianos barrocos, contudo salienta-se que a utilização deste elemento tornou-se corrente, em Portugal, nos numerosos tectos de brutesco tardios, pintados ao longo da primeira metade do século XVIII. Elementos estes lindíssimos, que encontramos neste tecto aqui em referência, da Sala das Bicas.

          

      

     

    Pormenores (tecto) grinaldas

    Neste soberbo tecto da sala das Bicas, não poderíamos deixar de destacar a sua magnifica concepção, os elementos singulares que o compõe e que o distingue de outros exemplares, como é o caso da realização deste elemento, sugerindo em trompe l`oeil uma estrutura de talha dourada, que define em cada face do tecto uma larga arcada a sustentar o quadro central.

    Ao visualizarmos o tecto e este elemento em pormenor, verificamos que se recorta sobre o fundo do tecto, em cada suporte, uma par de figuras de esfinges, que vemos de perfil, com um elmo coroado de palmetas, que são encimadas por um enrolamento dinâmico de volutas de folhagem. Realça-se também um par de meninos atlantes que sustentam, teatralmente, a moldura do quadro central.

                

     

     

    Azulejaria

    A magnifica Sala das Bicas destaca-se pela homogeneidade e beleza da sua decoração, aqui realçamos outro elemento decorativo que nela se encontra, os azulejos. Este conjunto de azulejos que encontramos na Sala das Bicas, estão dispostos em diagonal numa extraordinária composição onde apresenta um módulo complexo de 7x7 azulejos, em azul e amarelo sobre um fundo branco, são de enxaquetado compósito, uma das composições azulejares mais correntes no século XVII. Contudo, os motivos ornamentais utilizados são característicos de meados do século XVIII, mais concretamente dos anos 1750-60. Relativamente aos motivos ornamentais, encontramos assim, a conjugação de palmetas, motivos vegetalistas e delicadas volutas.

    Para finalizar podemos indicar que os azulejos da Sala das Bicas, de composição ornamental, quer tenham vindo de um outro local e sido aplicados no edifício em data desconhecida, (esta questão em aberto é colocada por alguns historiadores, sobretudo pela forma como o silhar foi aplicado na parede, defendendo estes historiadores que não se identificava nem com o que se fazia no século XVII, nem no século XVIII), contudo sublinhamos que os azulejos são  importantes elementos de decoração nos interiores das casas nobres.

              

    Pormenores dos Azulejos

          

     

     

     

     

    Bicas

    A realçar as duas singulares bicas de mármore, com carrancas de leão sobre pequenos tanques circulares, que deram nome a esta Sala.

        

     

        

     

    Bustos

    Destacamos também estes oito bustos de jaspe sobre plintos, figurando imperadores romanos. Visualiza-se na sala a disposição de 6 bustos figurando imperadores romanos sob o conjunto de painéis de azulejos, que se encontram na sala também como elemento decorativo e, dois bustos sob as bicas com carrancas de leão.

    Na Sala das Bicas fica em evidência que existe uma homogeneidade decorativa de todos os elementos que a compõe, e que aqui realçamos.

                    

     

     

    Mobiliário

    Na sala das Bicas encontramos algum mobiliário e elementos que a caracterizam, como os panos tapa-portas com as armas do Rei D. João V, um enorme e deslumbrante lustre de bronze, uma mesa-bufete ao gosto português so século XVII, contudo destacamos aqui um exemplar de uma cadeira de braços (que se encontra na sala) com um lindissimo assento e costas a couro lavrado com pregaria grossa.

              

     

     

    Bibliografia

    CALDAS, João Vieira, O Palácio de Belém na Arquitectura da sua Época, Monumentos 4, DGEMN, Lisboa, 1996.

    MATOS, José Sarmento de Matos, Uma Quinta à Beira-Rio, Monumentos 4, DGEMN, Lisboa 1996.

    SARAIVA, José António, O Palácio de Belém, Lisboa, 1985.

     

     

    Notas

    Coordenação: Hélder Carita

    Textos: Hélder Carita e Bolseira Magda Salvador

    Fotografias: Atelier Hélder Carita, com a colaboração de Tiago Molarinho

     

     

    ttt
    PTCD/EAT-HAT/11229/2009

    Please publish modules in offcanvas position.