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    Palacete do Barão do Amparo - Vassouras

    Palacete do Barão do Amparo - Vassouras
    Brazil
    XIX

    Autor / Mestre / Construtor

    José de Magalhães (arquiteto) e Antônio Baptista Correia e Castro Junior (pintura e decoração) 

     

     

    Estudo de reconstituição do palacete do Barão do Amparo, edifício imponente e representativo na cidade de Vassouras, construído na década de 1880 e que permaneceu em bom estado de preservação até meados da década de 1960. Foi projetado e construído pela J. Magalhães & Comp. e atualmente se encontra em estado de ruína.

     

     

    Enquadramento Urbano e Paisagístico

    O palacete foi implantado em uma elevação nas portas da cidade onde também existiu o vistoso sobrado do Barão do Tinguá, à Praça Martinho Nóbrega, número 33 (antiga rua Domingos de Almeida, número 18). Atualmente o acesso às ruínas do palacete se dá pelas ruas Presidente Vargas e rua Santos Dumont e o acesso do terreno a praça foi alterado devido a novas construções. 

    Sobre a localização da edificação, diz em 1887 o jornal Brazil Ilustrado: “(...) A’ entrada da cidade em um lindo plató depara o visitante com uma graciosa vivenda, um edificio belamente architectado, é o palacete do Sr. Barão do Amparo, que reunindo a opulência ao bom gosto, cerca-se de todos os confortos que já por habito já pela sua longa estada na Europa costumou-se a gozar. (...)” (Brazil Ilustrado, 1887).

     

     

    Morfologia e Composição

    O palacete, coberto de telhas cerâmicas, forrado e assoalhado, de construção de pedra, tijolo e madeira de lei. Possuia dois pavimentos e um pátio interno, por onde os ambientes internos se distribuem. A fachada principal era voltada para a Praça, marcada por dois torreões, com vista panorâmica da cidade, e o acesso pela fachada lateral.

     

     

    Fachada principal

    A fachada principal é disposta de forma simétrica, com presença de corpo central destacado criando duas alas laterais. No térreo os vãos são de verga em arco pleno encimados por ornamentação retilínea. No pavimento superior os vãos são de verga reta encimados por ornamentação em forma triangular. O corpo central apresenta diversas ornamentações, colunas e três vãos em cada pavimento. As alas laterais apresentam quatro vãos cada uma, em cada pavimento. Na base do edifício se destaca a presença do porão e coroando o edifício a platibanda cheia, ornamentada por cimalha com frisos retos e mútulo. Esta fachada era voltada para a praça Martinho Nóbrega. Acredita-se que a fachada lateral esquerda seja identica a esta fachada.

     

     

    Fachadas secundárias

    A fachada lateral esquerda é caracterizada pela presença de dois corpos poligonais projetados criando duas varandas no pavimento superior. No térreo possui seis vãos de verga em arco pleno e um vão de verga reta encimados por ornamentação retilínea e no pavimento superior possui cinco vãos de verga reta encimados por ornamentação em forma triangular. Esta fachada permanece parcialmente de pé e está voltada para a rua Presidente Vargas.

     

     

     

     

    Por menores

    As janelas apresentam elementos de referência clássica. A janela central no pavimento superior da fachada lateral esquerda possui balaustrada no peitoril, pilastras de ordem dórica com frisos retos e frontão triangular encimando o vão. 

     

     

    Programa Interior

    O palacete contava com vários salões, quartos, corredores, escadas de acesso, cozinha e banheiros. Apesar de não ter sido possível localizar sua planta, alguns ambientes foram descritos em artigos de jornal e citados por Amizor de Oliveira, filha de Júlio Avelino de Oliveira, durante uma breve entrevista, somando as informações da avaliação no inventário do Barão do Amparo é possível compreender em parte os tipos de ambiente, decoração e mobília.

    "É um edificio construído pelo engenheiro-architecto Dr. José de Magalhães, com vastos salões, ricamente ornamentados, destacando-se d’aquelle bloco, artisticamente trabalhando, dous esplendidos torreões, cujo ponto de vista abrange todo o perímetro da pittoresca cidade. Por toda parte pendem das paredes retratos de família, paizagens da Suissa e da Hollanda, magníficos espelhos, gigantescos candelabros e muitos artefactos de apurado gosto." (Gazeta de Notícias, 1894)


    Salão de entrada

    “O salão de entrada é um estylo severo destacando-se o tecto decorado em matizes, as portas e portaes fingindo madeira trabalho este perfeitamente acabado, o salão de bilhar, estylo século XVI, é digno de nota pelo bom gosto e capricho não só na decoração como no papel;” ( O Vassourense, 1887)

    A sala de entrada era equipada com um sofá de couro, seis cadeiras simples também de couro e um capacho. 

    Sala do bilhar

    Esta sala contava com dois sofás, dois aparadores, duas mesas, vinte e sete cadeiras, além do bilhar, que dá o nome a sala, junto com os tacos e bolas necessários ao jogo, um globo terrestre e um relógio de parede.

    Sala azul (Capela) 

    A mobilia da capela contava com um sofá, quinze cadeiras, dois dunquerques e um piano, além de itens de decoração como um tapete, dois candelabros e doze quadros. 

    A capela ficava à esquerda do salão de entrada, com quatro janelas e uma porta de frente para o altar que dava acesso aos quartos. (Depoimento de Amizor)

    Escritório

    O escritório era equipado com uma escrivaninha, um armário, duas estantes e decorado com um relógio e uma caixa de música.

    Biblioteca

    “A bibliotheca é em uma sala bastante espaçosa e forrada de um papel côr de couro também bonito.” (Jornal O Vassourense, 1887)

    Contava com duas estantes com portas de vidro e três sem, onde eram guardados mil duzentos e sessenta livros.

    Salão de jantar

    “O salão nobre de jantar é em estylo renaissance; o tecto finge carvalho guarnecido de páo rosa, e o apainelamento é imitando nogueira com filetes dourados, o vestíbulo com columnas de alabastro e capiteis dourados.” (Jornal O Vassourense, 1887)

    “A sala de jantar, admiravelmente ventilada, e guarnecida de riquíssimos moveis, pode accommodar na vasta mesa, adornada de flores, mais de cincoenta convivas.” (Jornal Gazeta de Notícias, 1894)

    A sala era guarnecida com uma mesa grande, dois etageres, um guarda-prato, quatro aparadores e trinta cadeiras. Sua iluminação era feita por meio de seis lampeões a oleo. Existia ainda uma copa, que atendia a sala de jantar, equipada com um armario grande, um guarda-esmola, dois etageres, uma cadeira e um filtro d'agua. 

    Sala da escada

    Nesta sala constavam uma mesa pequena com oito cadeiras, duas mesas, um guarda comida, um armario grande, uma estante e uma talha. 

    Sala branca (Salão de visitas)

    Esta sala contava com dois sofás, dezesseis cadeiras e duas escarradeiras de parcelana, que ficavam sobre um grande tapete. 

    “O salão de visitas é em estylo Luiz XVI com o tecto de estuque decorado adequadamente; a pintura é de um maravilhoso effeito notando-se a igualdade dos tous nos vários matizes, no centro do tecto há um lindo florão dourado, as paredes são forradas de papel avelludado com baguetas douradas.” (Jornal O Vassourense, 1887)

    Sala da musica

    Na sala de musica encontava-se uma mesa com seis cadeiras austriacas. 

    Sala amarela (Salão nobre de visitas)

    Esta sala possuía um sofá, vinte e seis cadeiras, uma mesa e um tapete. 

    “O salão nobre de visitas é em estylo Luiz XIV, o tecto é também de estuque, caprichosamente pintado, sobresahindo a harmonia das cores que lhe dao um bello effeito, as paredes são igualmente forradas com rico papel avelludado, guarnecido de baguetas douradas, o rodapé fingindo mármore.” (Jornal O Vassourense, 1887)

    Quartos

    A casa possuía dez quartos equipados com camas de vinhatico com colchões, lavatorios, mesas de cabeceira, aparadores, comodas, guarda-vestidos, guarda-casacos, espelhos, cabide de centro além de mesas e cadeiras.

    Os quartos eram interligados e cada um possuía uma janela. O quarto dos pais era no térreo do lado direito e dava acesso a um escritório. Os quartos possuíam papel de parede francês, cada um era de um papel diferente. (Depoimento de Amizor)

    Jardim

    A casa possuía um jardim interno que dividia a casa em duas alas. (Depoimento de Amizor)

    Os jardins externos são descritos como espaços amplos e belos, com diferentes plantações e que teriam sido projetados por Glaziou, de acordo com a minuta de decreto apresentada pela Fundação Educacional Severino Sombra ao então Ministério da Educação e Cultura (IPHAN) buscando a preservação do palacete. 

    No jornal Gazeta de Noticias, Alfredo Riancho escreve sobre a cidade de Vassouras e destaca brevemente sobre os jardins do palacete do Barão do Amparo: “Dos irregulares taboleiros de relva que alcatifam a collina em toda a sua extensão, emergem copados arvoredos, grupos de arbustos, magnificas videiras, repuchos e jogos d’agua, que fazem lembrar o nosso campo de Sant’Anna.” (Jornal Gazeta de notícias, 1894)

     

       

    Bibliografia

    CCMJ – Museu da Justiça – Centro Cultural do Poder Judiciário. Extrato do inventário de Amélia Eugênia Teixeira Leite (1834-1924) relativo a avaliação do palacete em Vassouras, páginas 210-212. 

    FERRARO, Marcelo Rosanova. A arquitetura da escravidão nas cidades do café, Vassouras, século XIX. Dissertação (Mestrado em História). São Paulo: USP, 2017.

    IPHAN. Série Inventário, Vassouras, RJ, Praça Martinho Nóbrega, 33 (ruína), RJ 176-3-05

    IPHAN. Série Inventário, Vassouras, RJ. I.RJ-371.01

    Brazil Ilustrado, edição de 1887, anno I, p. 61. Disponível em <http://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital>. Acesso em 29 de outubro de 2020.

    Gazeta de Notícias, edição de 15 de janeiro de 1894, n. 15, anno XX. Disponível em <http://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital>. Acesso em 29 de outubro de 2020.

    O Vassourense, edição de 28 de agosto de 1887, n. 35, anno VI. Disponível em <http://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital>. Acesso em 29 de outubro de 2020.

     

     

    Cronologia e proprietários

    Joaquim Gomes Leite de Carvalho, o segundo barão do Amparo, nasceu em 17 de abril de 1830 em Amparo de Barra Mansa. Foi o filho mais velho de Manuel Gomes de Carvalho (1º barão do Amparo) e Francisca Bernardina Leite. Foi irmão de Ana Bernardina, João Gomes de Carvalho, que foi feito barão e depois visconde de Barra Mansa, e Manuel Gomes de Carvalho Filho, feito barão do Rio Negro. 

    Casou-se, em 7 de janeiro de 1857, com sua sobrinha Amélia Eugênia Teixeira Leite (1834-1924), filha mais velha de sua irmã Ana Bernardina e João Evangelista Teixeira Leite. Do casamento tiveram sete filhos: Amélia Gomes Leite de Carvalho (1858-1919), casou-se com Henrique Maria Alberto Gielen, de Bruxelas; Alberto Gomes Leite de Carvalho (1860-1940), casou-se com Carmen Diaz Garcia (1876-1928), da Espanha; Joaquim Gomes Leite de Carvalho (1862-1905); Afonso Gomes Leite de Carvalho (1865-1910); Ana Gomes Leite de Carvalho (1875-1917); Paulina Leite de Carvalho (1876-1962), nascida na Suíça; e Horácio Gomes Leite de Carvalho (1879-1958), nascido em Bruxelas.

    Foi fazendeiro capitalista, membro do Imperial Instituto Fluminense de Agricultura e provedor na Santa Casa de Misericórdia. Recebeu o título de segundo barão do Amparo por decreto imperial em 30 de janeiro de 1867, mesmo título de seu pai. Recebeu herança de seu pai, ampliando-a através de investimentos financeiros. Em 1886, adquiriu a Fazenda das Palmas e, em 1887, inaugurou seu imponente palacete sobre uma colina, onde se destaca na cidade de Vassouras e cujas referência e inspiração, na arquitetura e decoração, teve devido sua estadia na Europa. O terreno do palacete antes era propriedade de Pedro Corrêa e Castro, o barão do Tinguá, cujo sobrado fora demolido para realizar a construção da nova residência do barão do Amparo. Possuía residência em Botafogo e também na cidade de Vassouras, onde faleceu aos 91 anos, no dia 30 de abril de 1921. Foi sepultado no cemitério da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo.

     

    Júlio Avelino de Oliveira, foi um grande fazendeiro da região do Vale do Paraíba fluminense. Casou-se com Leonina Borges de Oliveira, com quem teve quatorze filhos: José Lúcio, Júlio, Ivan, Antônio Fernando (Nicão), Eduardo, Paulo César, Marco Antônio, Iguaçu, Lucio Flavio, Amizor, Marta, Sônia e Cléia.

    Sua família vinha de Minas Gerais e por lá era proprietário de diversas fazendas que iam de Governador Valadares a Mato Grosso, além de também ser proprietário de fazendas no Pará. No Sul Fluminense adquiriu as fazendas Aliança, Chacrinha, Gironda, Santa Helena e a Centenário. Em suas propriedades a principal atividade era voltada para o gado e cavalos, sendo reconhecido seu trabalho nacionalmente na criação e reprodução desses animais. 

    Adquiriu o palacete em 1968 de Olga Gomes Leite Simon, neta do 2º barão do Amparo. Por mais de 10 anos Júlio e sua família viveram no palacete, quando em 1978 ele faleceu sendo sepultado no cemitério da Irmandade de Nossa Senhora da Conceição em Vassouras. 

     

    1884/1886 - É adquirido o terreno que pertencia a Pedro Correa e Castro, barão do Tinguá, e demolida a construção existente, que recebeu D. Pedro II em 1848. 

    1887 - Já se noticiava a construção do palacete dos segundos barões do Amparo, sendo o edifício projetado e construído por José de Magalhães e sua companhia, J. Magalhães & C.

    1921 - Morte de Joaquim Gomes Leite de Carvalho, passando a propriedade para sua esposa Amélia.

    1968 - Olga Gomes Leite Simon, neta do 2º barão do Amparo vende o palacete para Júlio Avelino de Oliveira.

    1978 - Após a morte de Júlio, o palacete foi abandonado iniciando o processo de arruinamento do edifício.

    1980 - A Fundação Severino Sombra busca, junto ao então Ministério da Educação e Cultura, a desapropriação do edifício justificando o mau estado de conservação em que se encontrava e pela sua preservação.  

    1984 - Um projeto de decreto para a desapropriação, preservação e uso cultural do edifício é desenvolvido incorporando-o ao patrimônio da União e prevendo sua posterior cessão de uso a Fundação Severino Sombra, porém o referido decreto não foi publicado.

    Atualmente o palacete se encontra em estado de ruína, seguindo o processo de degradação iniciado na década de 1970, restando apenas uma das fachadas ainda de pé. 

     

    Documentação

    Inventário do 2º barão do Amparo, 1921. Fonte: Acervo do Centro de Documentação Histórica de Vassouras, sob tutela do IPHAN.

    Inventário da 2ª baronesa do Amparo, 1924. Fonte: Museu da Justiça – Centro Cultural do Poder Judiciário. Coleção Processos da Nobreza Brasileira, Acervo Textual. Mídia  AP_001636.

     

     

     

    Observações

    Coordenação: Ana Pessoa (FCRB), 2020

    Pesquisa e edição: Andreza Baptista (PCTCC/FCRB)

    Colaboração: Louhana Oliveira (PIBIC/FCRB)

     

     

     

     

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    PTCD/EAT-HAT/11229/2009

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