Filter

    Escadarias do Palácio dos Condes de Tomar

    Escadarias do Palácio dos Condes de Tomar
    Portugal
    XIX

    Apresentação

    De um grande efeito cenográfico, as escadarias do Palácio dos Condes de Tomar apresentam-se como uma solução pouco comum, desenvolvendo-se com uma elegante curvatura em elipse num espaço em duplo pé direito com largos degraus. Caso muito raro, as escadarias organizam-se com uma estrutura de apenas um longo lance sem interrupções que, do resto chão, estabelece uma ligação directa com andar nobre situado no terceiro piso. A elegância e grandiosidade das linhas arquitectónicas é, por sua vez, acentuada por um programa decorativo em estuque relevado, que das paredes alastra para o tecto até ao alto do lanternim.  Uma escultura de belas proporções no arranque do corrimão dá uma nota erudita a todo o conjunto.

        

     

     

     

    Enquadramento histórico

    Na sua origem o edifício recua à segunda metade do século XVI na sequência da urbanização de uma propriedade que os frades Trinos possuíam junto á igreja de São Roque. Mandado edificar por Donna Maria Manoel de Vilhena o palácio passa na primeira metade do século XVII para família Brito Freire. Com a progressiva ruína dos Brito Freire, morgados de Santo Estevão, o palácio acaba por ser desanexado passando a regime de inquilinato tendo sido Tribunal da Relação Eclesiástica, entre 1771 e 1796 e colégio de educação que aqui funcionou entre 1829-1834. Em meados do século XIX o palácio é comprado por Joaquim José Pereira de Sousa, riquíssimo comerciante. Em paralelo com o palácio Portugal da Gama o antigo palácio Brito Freire sofre um significativo aumento de escala com um novo piso nobre. Este aumento determina um novo sistema de escadarias nobres que se vem a desenvolver no antigo pátio interior da casa. Não tendo descendentes, Joaquim Pereira de Sousa deixa por testamento o palácio ao conselheiro Bartolomeu dos Mártires Dias e Sousa.  Por sua vez sua filha, D. Sofia Adelaide Dias e Sousa casada com António Bernardo da Costa Cabral, 1º conde e 1º marquês de Tomar vem a herdar o palácio passando a ser designado pelo título desta família. De 1926 a 1966 o palácio foi arrendado ao The Royal British Club. Em 1969 o palácio foi vendido à Câmara Municipal de Lisboa que aqui instalou em 1973 a Hemeroteca de Lisboa.  Actualmente abriga o Espaço Cultural Brotéria.

        

     

     

     

    Arquitectura e programa interior

    O Palácio dos Condes de Tomar situado junto do Largo de São Roque desenvolve-se numa planta em L com uma volumetria marcada por cunhais e soco de cantaria articulados com alçados rasgados a ritmo regular e vãos de verga recta destacada. Denotando uma linguagem romântica a fachada, recorre a soluções decorativas em estuque onde se destaca uma sequência de mascarrões e esquema de frisos interrompidos por florões .

    No seu programa arquitectónico o edifício apresenta um piso de resto chão reservado tradicionalmente a serviços onde se rasga um grande portal de linhas clássicas. Sobre este piso de serviços desenvolve-se um piso de sobreloja marcado por uma sequência de janelas de peito que se constitui em termos funcionais como zona residencial privilegiada. Com ligação directa com o terceiro piso através das escadas nobres desenvolve-se por sua vez o andar nobre onde se situam as salas de representação com ligação ao oratório da casa. O palácio recebe no seu remate uma balaustrada que esconde as águas furtadas.

          

     

     

     

    Domingos Meira e os estuques

    Os biógrafos do conhecido estucador de Afife, Domingos António de Azevedo da Silva Meira (1840/1928), incluem os estuques deste palácio entre as suas obras[1].

    Alguns dos elementos decorativos e figurativos aqui presentes surgem aliás em outras obras de sua autoria, nomeadamente as molduras de toros enlaçados de folhagem ou os meninos que seguram as grinaldas de flores, na sanca que envolve o corpo da claraboia, que podem ser comparados com idênticos motivos dos estuques do palácio de Estoi, em Faro, ou do palácio Praia e Monforte, em Lisboa.

     

    [1] http://www.acasasenhorial.org/acs/index.php/pt/artistas/254-domingos-a-de-a-da-silva-meira-1840-1928

     

     

    Programa geral

    Implantada no antigo pátio interior da antiga casa nobre quinhentista, as escadarias nobres apresentam um programa arquitectónico inusitado onde a escala e a largura dos degraus se associam a uma longa estrutura de apenas um lance de degraus que, do resto chão, estabelece uma ligação directa ao andar nobre situado no terceiro piso. Desenvolvendo-se com base numa elipse as escadarias apresentam uma zona central aberta que permite a iluminação de uma claraboia em forma de galeria que, coroando todo o espaço garantem uma forte luminosidade ao espaço. Na sua estrutura distributiva as escadarias apresentam um primeiro patamar com dois portais colocados de cada lado dando acesso a diferentes zonas do resto chão e da sobreloja. A partir de uma escultura em mármore, com um leão lutando com a serpente do primeiro, desenvolve-se um largo e comprido lance de escadas envolvendo uma elipse que termina, por sua vez, num patamar rectangular com dois portais.

                

     

     

     

    Tecto e lanternim

    Assegurando ao espaço das escadarias uma franca luminosidade o lanternim apresenta-se pela sua forma e decoração como um dos elementos arquitectónicos mais cenográficos do conjunto. Coroando todo o espaço o lanternim imprime um forte sentido ascensional. Este efeito de abertura e ascensão espacial é realçado pela sanca que envolve a base do lanternim que recebe uma profusa decoração.  

        

     

     

    O leão e o dragão

    Fazendo o arranque das escadas recorta-se uma escultura de um leão lutando com um dragão representando tradicionalmente a luta do bem com o mal.

        

     

     

    As quatro estações

    A zona superior das escadarias, correspondendo ao andar nobre, recebe quatro medalhões de grandes proporções que de forma coerente se articulam com a escala do espaço marcado por uma forte monumentalidade. Os medalhões envolvem quatro figuras femininas em baixo relevo sendo Identificadas pelos seus respectivos atributos: o Outono com as vinhas, a Primavera com flores, o Verão com as espigas e o Inverno com o fogo. As figuras são envolvidas por enrolamentos desdobrando-se com concheados e folhagem que recorrendo a um vocabulário rococó, apresentam uma volumetria e uma linguagem claramente romântica.

          

     

     

    Pormenores

    Distribuindo-se por paredes e tectos os estuques apresentam interessantes pormenores que testemunham modelos de Domingos Meira que vemos repetirem-se em outras quintas e palácios da região de Lisboa onde o artista trabalhou.

                  

     

     

    Bibliografia

    MENDONÇA, Isabel “Estuques decorativos em palácios da região de Lisboa - encomendadores, artistas e fontes de inspiração” in Casas senhoriais Rio-Lisboa e seus interiores. Estudos luso-brasileiros em arte, memória e património., Rio de Janeiro, IHA-Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2014.

    SIMÕES, João Miguel, “História do Palácio dos Condes de Tomar” in Palácio dos Condes de Tomar, Lisboa, Misericórdia de Lisboa, 2019, pp. 9-38.

     

     Nota

    Coordenação: Hélder Carita/Magda Salvador

    Texto: Isabel Mendonça 

    Fotografia: atelier Helder Carita  

     

     

    ttt
    PTCD/EAT-HAT/11229/2009

    Please publish modules in offcanvas position.