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    Escadarias do Palácio do Manteigueiro

    Escadarias do Palácio do Manteigueiro
    Portugal
    XVIII

    Autor: Manuel Caetano de Sousa (1742-1802)

    Data: 1787

    Localização: Lisboa, Rua da Horta Seca nº15 1200-170 -1294 Lisboa

    38.710158 -9.144673

     

     

    Apresentação

    Construídas nos finais do século XVIII e marcadas por um gosto tardo-barroco, as escadarias do Palácio de Domingues Mendes, ao Chiado, também chamado do “Manteigueiro”, constituem uma das mais interessantes e elaboradas propostas arquitectónicas desta tipologia de espaço em Portugal.  Desenvolvendo-se em altura com três largos lances muito suaves, este espaço vai-se desmultiplicando em efeitos cenográficos que, na zona central,  atingem o seu clímax com uma galeria a toda a volta simulando, de forma muito original, uma curvatura em abobada.  Iluminada por uma larga clarabóia, coroando todo o espaço, esta galeria apoiada numa delicada balaustrada, confere ao ambiente uma sofisticada teatralidade de forte sentido palaciano. Apesar da cenografia do espaço o ambiente mantem uma certa contenção decorativa prevalecendo os elementos arquitectónicos como, pilastras, balaustradas, sancas ou guardas que se instituem como elementos fundamentais de composição do espaço, e  denotando uma forte tendência do estilo “regência”.

        

    Fig. 1, Primeiro lance de escadas a partir do patamar do resto-chão. Fig.2 – Pormenor da galeria superior. Fig.3 –Vista do patamar do piso nobre.

     

     

    Enquadramento histórico

    Através de Cyrillo e da sua Colecção de Memórias, sabemos que o palácio foi encomendado ao arquitecto Manuel Caetano de Sousa (1742-1802) pelo mercador Domingos Mendes Dias.  De origem humilde Domingos Mendes foi acumulando uma larga fortuna ao longo da sua vida, que virá a doar com o palácio a António de Sousa Coutinho. Este fidalgo pouco terá usufruído do edifício, pois logo em 1804 vemos o palácio ocupado por conde da Caparica e pouco anos depois cedido ao coronel Peacok para hospital militar britânico. A partir de 1826 vemo-lo ocupado pelo rico comerciante de origem inglesa João Fletcher e pouco mais tarde pelo marquês de Lille ministro plenipotenciário de França em representação de Napoleão III.  O palácio torna-se, assim palco de festas, saraus e encontros que marcaram a vida política e social da Lisboa do século XIX.  Em meados do século XIX o palácio é sede do elegante clube Assembleia Lisbonense sofrendo uma radical transformação na decoração dos interiores como nos dá conta Tinop na sua (Lisboa de outros tempos, vol. I, p.181).  Comprado, em 1860, pelo 1º visconde de Condeixa, João Maria Colaço de Magalhães Velasques Sarmento. As actuais pedras de armas que coroam a janela de tribuna da entrada do palácio, são desta família. No princípio da Républica o palácio foi residência particular do chefe de estado, Manuel de Arriaga. No ano de 1913 instalou-se aqui a cede da Vacuum Oil Company acabando por comprar o edifício em 1920.  É esta empresa que realiza as grandes obras do edifício acrescentando um andar nobre ao edifício. Se a morfologia do palácio é assim radicalmente alterada, as  escadarias nobres foram preservadas  protegendo-se uma estrutura arquitectónica  de inequívoco valor estético. Nestas obras é igualmente desarmado o oratório da casa restando, no entanto, fotografias que atestam a sua preciosa execução.

         

    Fig.4, 5, 6, 7 e 8 - Fachada e interiores do Palácio no período do Presidente da Républica Manuel de Arriaga, inícios do séc. XX,   in Olisipo, nº82, Abril de 1958, pp. 77-103.

         

    Fig. 9 e 10 – Desmontado e guardado no Patriarcado de Lisboa, o oratório do palácio constituía  uma das peças mais elaboradas de todo o programa interior. Fig. 11 - Fotografia do edifício com as obras realizadas pela  Vacuum Oil Company que alteraram a morfologia do edifício

     

     

    Manuel Caetano de Sousa (1742-1802)

    Com uma clara opção tardo barroca contrária ao neoclassicismo que se divulgava por toda a Europa nas últimas décadas do século XVIII, Manuel Caetano de Sousa ficou na história por ter sido compulsivamente afastado do projecto do Palácio da Ajuda.   Jacome Ratton, de forma maliciosa refere-o, nas suas Memórias (1813, p.) como canteiro.  Cyrillo é mais rigoroso realizando, na sua Coleção de Memórias, uma pequena biografia do arquitecto, dando-o como filho Caetano de Sousa principal empreiteiro do convento de Mafra.  Manuel Caetano de Sousa teve a sua aprendizagem naquilo que foi a escola de Mafra a par de Mateus Vicente ou de Reinaldo Manuel. No seu percurso profissional Caetano de Sousa recebe o cargo de mestre das ordens militares  assumindo, desde 1777, o cargo de Arquitecto da Casa do Infantado e da Patriacal, por incapacidade de Mateus Vicente. Em 1789 “substitui Reinaldo Manuel como Arquitecto das Obras Públicas”. No final da vida Caetano de Sousa, ascende, em 1791 finalmente ao posto de tenente coronel de Infantaria com exercício de engenheiro, (Sousa Viterbo, vol.2, p. 366v).

    Fig. 12 - Assinatura de Manuel Caetano de Sousa. Alçado-corte da Biblioteca do Convento de Mafra. Desenho a tinta-da-china e aguadas de cor ocre, amarelo e cinza; Biblioteca da Academia de Lisboa (s. n. de inv.).

    Além de autor do Palácio do Manteigueiro, foi autor da Igreja de N. Srª da Encarnação, da capela do Paço da Bemposta, na sequência da sua nomeação como arquitecto da Ordens Militares e do Infantado. No âmbito deste cargo Manuel Caetano de Sousa trabalhou largos anos na ampliação do Palácio em Queluz. No âmbito destas funções como arquitecto da Casa do Infantado o autor realiza um interessante plano de conjunto para este palácio de que  conhecemos uma planta.  Nesta proposta todo o Palácio de Queluz passava a ser organizado num grande pátio simétrico que se fosse construído teria conferido mais coerência e uma outra monumentalidade ao edifício. Não tendo sido realizado este plano, Caetano de Sousa realiza um  conjunto de edifícios de serviços e apoios de que se destaca o chamado o Pavilhão de Dona Maria, construído entre 1785 e 1792, como um conjunto de outros edifícios militares, cavalariças. No contexto da instalação da Família Real, Caetano de Sousa também foi autor da elegante torre da patriarcal, mais conhecida como torre do Galo. No âmbito destas tarefas concebeu o mirante do Alto da Ajuda e é-lhe atribuído de forma fundamentada o jardim Botânico.

              

    Fig. 13 Igreja de de N.ª Srª da Encarnação, ao Chiado. Fig. 14 Quartel do Regimento de Artilharia. Fig. 15 - Pavilhão Mariano do Palácio de Queluz.  Fig.16  - Torre da Patriarcal na Ajuda. Fig. 17 -Mirante do Alto da Ajuda  Fig. 18 - Capela do Palácio da Bemposta.

    Manuel Caetano de Sousa foi autor da belíssima Biblioteca do Convento de Mafra de que conhecemos um magnífico desenho de grandes dimensões, hoje guardado na Academia de Ciências de Lisboa, onde de forma inequívoca reconhecemos um notável domínio de desenho.

    Fig. 13 - Alçado-corte da Biblioteca do Convento de Mafra.

    Manuel Caetano de Sousa. [assin.] Desenho a tinta-da-china e aguadas de cor ocre, amarelo e cinza; Biblioteca da Academia de Lisboa (s. n. de inv.).

     

     

    Enquadramento arquitectónico e urbanístico

    Na sua implantação urbana o palácio integra-se na antiga travessa da Horta Seca, aberta aquando da fundação de Vila Nova de Andrade e após o acordo assinado, em 1502, entre os Atouguias e os Andrades. Após o terramoto de 1755 a zona das Chagas ganha franco prestígio   pela sua proximidade ao Chiado. Em termos arquitetónicos o palácio apresentava no seu programa original um maior equilíbrio nas suas proporções e composição.  A fachada do palácio era marcada por um piso nobre sobre um piso térreo com um piso intermédio a nascente aproveitando a inclinação do terreno. O portal de entrada, sobrepujado de janela de tribuna com sacada saliente e frontão interrompido, adquiria, na antiga fachada, outro significado como elemento centralizador do desenho do alçado. Em consonância com o portal de entrada, as janelas de sacada do andar nobre destacam-se pelas suas delicadas linhas e decoração escultórica.

           

    Fig. 14 – Implantação do Palácio do manteigueiro na Planta de Lisboa de 1856.  Fig. 15 - Fachada do Palácio do Manteigueiro nos inícios do séc. XX, com apenas um piso nobre. Fig. 16,  17- Portal e fachada principal sobre a Rua da Horta Seca. Fig. 18 – Fachada principal. Fig. 19 - Pormenor de janela de sacada do piso nobre

     

     

    Inventário do Palácio de 1801

    Com grande significado para o estudo deste edifício, em 1801 foi realizado o Inventário dos bens de Domingos Mendes Dias, da Rua da Horta Seca e Rua da Emenda, Freguesia de Nossa Senhora da Encarnação.

    TT, Orfanológicos, Letra D, Maço 30, nº 1Domingos Mendes Dias

     

    Programa geral da escadaria nobre

    É, sem dúvida, no seu programa de escadarias de nobres que se concentram, hoje, os aspectos mais interessantes deste palácio. Distribuindo-se em três pisos estas escadarias estruturam-se em quatro patamares ligados por três compridos lances de escadas de inclinação muito suave. Na sequência do grande vestíbulo de entrada, as escadas iniciam-se no resto-chão com um primeiro patamar de planta rectangular  que no final dá acesso a um primeiro lance de escadas ladeado por grossos pilares e balaustradas de pedra de desenho muito delicado.  A partir do segundo patamar as escadarias abrem-se num grande espaço rectangular em triplo pé direito de marcada monumentalidade. Deste segundo patamar sobe-se para um terceiro patamar retangular com três grandes portas dando acesso ao piso intermédio localizado a nascente do edifício. Deste patamar sobe-se, por sua vez, ao último patamar de acesso ao piso nobre do palácio com uma porta ao central e dois laterais com molduras ricamente decoradas.   De assumida teatralidade, o núcleo central das escadarias  é coroado por uma vasta galeria marcada por elaborada balaustrada correndo a toda à volta das quatro paredes.  O espaço é,  ainda, iluminado por uma larga claraboia, que confere ao ambiente uma luminosidade vincadamente palaciana.

                

    Fig. 20, 21,22, 23 e 24 –Percurso da escadarias desde o vestíbulo de entrada, primeiro patamar, 1º lance de escadas e núcleo central com patamar de entrada para o piso nobre

     

     

    Entrada e 1º Patamar

    Em clara articulação, o vestíbulo de entrada é marcado ao centro por um grande portal que dá acesso ao primeiro patamar das escadas de planta rectangular. De reduzidas proporções este patamar articula-se no final com um primeiro lance de escadas ladeado por grossos pilares e tecto acompanhando a inclinação das escadas. De forma progressiva à medida que subimos este primeiro lance de escadas, o espaço vai-se abrindo em perspetivas para, no segundo patamar, termos uma primeira visão do grande núcleo de escadas nobres.

                  

    Fig. 25, 26, 27, 28, 29, 30 –Percurso das escadarias d o vestíbulo de entrada passando o primeiro patamar e subindo o primeiro lance de escadas.

     

     

    Núcleo central  e patamar do piso nobre

    De grande efeito cenográfico o percurso de subida das escadas é feito progressivamente com um espaço fechado, ao nível do resto chão, para a partir do primeiro lance, o espaço se ir  vislumbrando entre grossos pilares de decoração delicada, para no segundo patamar o espaço se abrir em duplo pé direito em toda a sua dimensão marcada por uma forte verticalidade. Contrário ao espírito do rococó o espaço recebe uma sequência de largas pilastras com requintadas capiteis que sustentando uma forte sanca, articulada com a balaustrada da galeria, conferem à estrutura espacial uma lógica arquitectónica e uma estética mais próxima do gosto regência. Usufruindo de toda escala e grandiosidade do núcleo central, o terceiro lance de escadas dá acesso, finalmente, ao patamar do piso nobre marcado por três portais um ao centro e os dois de cada lado. As molduras dos portais apresentam uma profusa decoração de florões,  enrolamentos, desdobrando-se a partir de um mascarão central,  mais uma vez, de conotação fortemente teatral.  

            

    Fig. 31,32,33,34,35, 36.  Núcleo central de escadas com pormenores da porta de entrada do piso nobre.

     

     

    Galeria

    Correspondendo ao antigo piso de águas furtadas e coroando todo o espaço da caixa de escadas corre, ao longo das quatro paredes, uma galeria que se desenha como uma frisa de camarotes. De caracter profundamente original as janelas desenham-se de forma curva simulando para quem olha de baixo o efeito de cúpula. Digno de nota é ainda a delicadeza do desenho das molduras das janelas como da balaustrada interrompida com plintos que corre ao longo das paredes.

            

    Fig. 37, 38, 39, 40, 41 –Vista geral da galeria com pormenores das janelas e da guarda.

     

     

    Pormenores

    Digno de nota, todo o espaço mantem uma certa contenção decorativa  onde prevalecem os elementos arqutectónicos como pilastras, sancas, capiteis, guardas e balaustradas. A este circunstância acresce o facto dos diferentes apontamentos decorativos decomporem-se em motivos do receituário barroco mantendo-se, no entanto simétricos afastando-se do rococó numa linguagem mais próxima do gosto Regência. Com uma curta duração em França,  esta tendência parece perdurar na Europa pelo impacto da tratadística francesa e das publicações  de Jaques -François Blondel onde o autor se afasta das variações assimétricas do rococó, mantendo os seus exemplos uma forte contenção decorativa e um léxico decorativo com fortes afinidades ao gosto "Regência".  

                 

     

     

    Bibliografia:

    BLONDEL, Jacques-François. 1752-1756. De la Distribution des Maisons de Plaisance et de la Decoration des Edifices en General. Paris: Charles-Antoine Jombert,  Tomo I 1737, Tomo II 1738.

    --------- Architecture Françoise, ou recueil des plans, élévations, coupes et profils des Eglises, maisons royales...les plus considérables de Paris ainsi que des chateaux et maison de plaisance situés aus environs de cette ville ou en d'autres endroits de la France... Paris: Charles-Antoine Jombert, 4 vols.

    CARVALHO, Ayres de, Os Três Arquitectos da Ajuda do “Ricaille” ao Neoclassico, Lisboa, Academia Nacional de Belas Artes, 1979.

    COSTA, Mário, “O Palácio do Manteigueiro” in Olisipo, nº82, Abril de 1958, pp. 77-103.

    MACHADO, Cyrilo Volkmar, Collecção de Memórias relativas ás vidas de Pintores … , Coimbra, Universidade de Coimbra, 1922. Pp177-178

    RATTON, Jacome - Recordacoens de ... sobre Occurencias do seuTtempo, em Portugal, durante o lapso de sesenta e tres annos e meio, alias de Maio de 1747 a Setembro de 1810, que Rezidio em Lisboa ..., Londres, Impresso por H. Bryer, 1813.

     

     

    Nota

    Coordenação e texto. Helder Carita-2020

    Fotografia: Helder carita, Tiago Molarinho

     

    Agradecimentos 

    Agradece-se ao Ministro da Economia e respectivo Gabinete a autorização e disponibilidade na realização do registo fotográfico

     

     

    ttt
    PTCD/EAT-HAT/11229/2009

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