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    Salão de Baile no Solar Valim

    Salão de Baile no Solar Valim
    Brazil
    XIX

    Enquadramento urbano e arquitetonico

    Localizado na Praça Rubião Junior, antigo Largo Municipal do município paulista de Bananal, o Solar Aguiar Valim é um edifício pavilhonar de dois pavimentos com planta retangular, sendo a fachada principal voltada para a praça. Construído em meados da década de 1850, o palacete pertenceu ao rico cafeicultor e financista Comendador Manuel de Aguiar Vallim, o qual era também proprietário das fazendas Resgate, Independência, Três Barras e Bocaina. Senhor de terras e de homens, Valim chegou a plantar 1.252.700 pés de café em suas propriedades e possuía ao morrer 436 escravos. Casou-se com Domiciana Maria de Almeida, filha de outro importante cafeicultor da região. Além das casas rurais, era bastante comum no ápice da produção cafeeira que ricos fazendeiros possuíssem habitações em importantes centros urbanos próximos das fazendas. O palacete de Bananal, exibindo uma imponente frontaria, destinava-se essencialmente à vida social da família Vallim, uma morada para receber familiares, nobres convidados e ostentar poder e fortuna.

    A rigorosa simetria da fachada principal composta por dois corpos laterais flanqueando o corpo principal no eixo da construção, e o ritmo repetitivo dos vãos das portas enfileiradas sugerem a predileção pelo gosto neoclássico. Duas pilastras de ordem colossal que se estendem do soco em cantaria até a cornija sob o beiral destacam o corpo central da fachada, o qual abriga no térreo a entrada principal. Três grandes portas duplas com bandeiras de vidro em arco pleno conduzem diretamente ao vestíbulo no interior do sobrado. 

    No pavimento superior, piso nobre da residência, as dezesseis portas- janelas de verga reta com bandeiras de vidro têm acabamento em cantaria e balcões com guarda corpo de ferro, ampliando a vista para a praça arborizada.

    Por cerca de cinquenta anos o Solar pertenceu à família Vallim, passando ao Estado de São Paulo em 1909 para abrigar em 1910 o Grupo Escolar Cel. Nogueira Cobra, quando o edifício sofreu consideráveis intervenções. Foi tombado pelo CONDEPHAAT em 1972 e posteriormente doado ao município para sediar a Prefeitura até meados dos anos 80, quando, totalmente abandonado, atingiu alto nível de degradação. Em 2001, já em ruínas, o Solar inicia uma nova fase de restauração com a Comissão Pró-Reforma, a qual deu origem à Associação Amigos do Solar. Hoje responsável pela manutenção do edifício e pela programação de eventos e visitações, a Associação trabalha para preservar e manter viva a memória histórica do Solar Aguiar Vallim.

    Fotografia de 1970 da fachada principal. Vista geral da fachada principal do Solar Aguiar Vallim, virada para a Praça Rubião Junior, e pormenor da entrada principal.

     

    Morfologia e composição

    O segundo pavimento, onde se situa a zona nobre da residência, é acessado a partir da escada de quatro lanços opostos localizada em posição central no vestíbulo. A planta do andar apresenta tipologia regular com sequência de cômodos interligados entre si, voltados para frente, laterais e fundos do palacete. As portas que fazem a circulação dos espaços internos seguem a mesma tipologia empregada nas fachadas, com alisares de madeira e vergas retas, e bandeira de vidro decorada com arco de meia volta.

    O Salão de Bailes, espaço vasto e grandioso com piso em tábuas corridas, ocupa toda a frente do corpo central da construção e possui seis portas-janelas que se abrem para o exterior através de balcão corrido. A planta retangular apresenta duas entradas principais ladeando a área onde se localiza o coreto, as quais são acessadas diretamente pelos patamares finais da escada. Os outros dois vãos do salão levam a salas laterais. O coreto elevado se abre para o ambiente através da arcada composta de quatro arcos plenos, cuja parede inferior preserva ainda parte da pintura decorativa executada por José Maria Villaronga para o Salão de Bailes do Solar.

     

    Pintura decorativa

    A parte inferior do coreto é constituída de boiserie em madeira, formando sequência de painéis retangulares com pintura decorativa. Com temática ornamental alinhada à função específica do espaço, cada um dos oito painéis apresenta o mesmo arranjo compositivo com variações apenas nos diversos motivos pictóricos, os quais reúnem formas naturais e artificiais, mascarões, e medalhões guarnecidos de pintura de paisagens. O conjunto sugere inspiração nas decorações francesas para lambris de altura, especialmente no estilo Luis XVI, como os arranjos pendentes de Pierre Ranson que reúnem motivos semelhantes como guirlandas, vasos com flores, troféus e emblemas. É muito provável que todo o salão possuísse também pinturas murais compondo a zona nobre das paredes. Instrumentos musicais, cenas líricas ou teatrais representariam a temática narrativa e ornamental deste espaço que no século XIX foi destinado a grandes festejos.

    Legenda: Boiserie do coreto com pintura decorativa de José Maria Villaronga, século XIX, pormenor dos oito arranjos compositivos.

     

     

    Floreiros

    Motivo naturalista recorrente no repertório ornamental de Villaronga, os floreiros são também elementos constantes nas composições decorativas das casas senhoriais fluminenses. Nos painéis do coreto, os cestos campestres que coroam cada uma das oito composições, apresentam diferentes arranjos repletos de flores pintadas com realismo notável, e representam a abundância e a riqueza da vida rural

     

    Emblemas musicais

    Troféus e emblemas constituem motivos ornamentais de formas artificiais. Os diferentes emblemas musicais da composição decorativa do coreto agrupam instrumentos variados como violino, flauta, corneta, tambores, violão, sopros, uma lira ornada com máscara radiada, além das partituras e de um diapasão, ferramenta utilizada para afinação. Villaronga executa aqui com maestria o trompe l’oeil de objetos, tipologia muito em voga na pintura decorativa das fazendas de café.

     

    Medalhões

    A representação de paisagens de caráter romântico e pitoresco inseridas em pequenos compartimentos ou painéis é comum nos programas pictóricos das casas oitocentistas fluminenses, como no Chalet Tavares Guerra e na Casa da Marquesa de Santos. Villaronga adiciona aos oito arranjos do coreto essencialmente ornamentais um componente figurativo-narrativo representado na temática paisagística. Vistas de lugares longínquos e exóticos, paisagens europeias ou imaginárias e paisagens históricas como a erupção do Vesúvio, constituem os temas pictóricos que guarnecem os medalhões naturalistas na base da composição. Arremate decorativo com pendente de flores coroando o entorno dos medalhões.


    Legenda: Paisagem oriental, ponte férrea sobre rio e vista da erupção do vulcão Vesúvio.

     

    Mascarões

    O uso de máscaras cobrindo o rosto remonta dos jogos populares e do teatro na Grécia antiga. Como motivo ornamental na pintura mural, seu emprego foi recorrente nas casa pompeanas, e posteriormente a partir do renascimento, máscaras e mascarões aparecem com frequência rematando painéis, cártulas ou coroamentos de diversos tipos de composições pictóricas. Villaronga confere acabamento decorativo à base das composições com o emprego de mascarões variados, reforçando a função do salão de bailes e concertos. Os mascarões definem a categoria de máscaras com feições caricaturadas, grotescas ou com folhagens. A face com grande abertura bucal remete à ideia no personagem orador ou cantor lírico, outras feições possuem características teatrais tragicômicas, e um dos oito mascarões apresenta o semblante burlesco de um chinês.

    Legenda: Mascarão com bocarra, mascarões cômicos e trágicos, mascarão chinês.

     

    Observações

    Coordenação: Ana Pessoa (FCRB), 2019

    Pesquisa e edição: Ana Claudia Torem (bolsista PCTCC/FCRB)

    Imagens: Ana Pessoa (FCRB) e Ana Claudia Torem (bolsista PCTCC/FCRB)

    Colaboração: Eduardo Schnoor

     

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    PTCD/EAT-HAT/11229/2009

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